terça-feira, 27 de julho de 2010

A estalagem da razão: sobre agulhas, alfinetes, Index theorem e linhas

"A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível."

Fernando Pessoa - Livro do desassossego



Caramba, como tem ésses a palavra desassossego, não? Desassossego é estado comum entre aqueles que buscam alguma luz pr'aquilo que não compreendem. Ou algo que se pareça com o que acabei de dizer... provável que seja outra coisa, mais profunda e densa

Sempre penso no quão incerto é essa coisa de fazer matemática. Certamente há uma filosofia por traz disso tudo. Uma não, várias; onde se mistura a filosofia de trabalho com a filosofia de vida. São coisas indissociáveis. As dúvidas, começar por onde, se preocupar com o que...

Por algumas noites antes de dormir eu peguei um artigo incrível do Michael Atiyah para ler, um que saiu no Mathematical intelligencer de 1984 (eu não havia nem nascido ainda). Incrível as concepções dele à respeito da ciência. Mas a parte que talvez mais tenha me impressionado foi a que ele fala sobre a intuiçao. O reporter pergunta pra ele:


"quando o sr está trabalhando o sr sabe dizer que um resultado é verdade mesmo antes de tê-lo provado?"

Eu li isso e na hora me lembrei do meu orientador de iniciação científica na faculdade, que era um físico experimental. Ele vivia me falando sobre como a física e a matemática, ciências dedutivas, flertavam com a natureza indutiva do ser humano... ele não falava bem isso, mas era o que eu entendia =)


Mas voltemos... o Atiyah dá uma resposta incrível :


"Para começar a responder a sua pergunta eu devo primeiro dizer que não trabalho tentando resolver problemas. Se me interesso por algum topico então eu só tento entendê-lo; eu vou e penso sobre ele, tentando cavar mais e mais fundo. Se eu compreendo,então eu sei o que é certo e o que não é. Claro, é possível que sua compreensão esteja errada e vc pensa que entendeu uma coisa mas realmente vc estava errado. Uma vez vc sente que vc realmente entendeu uma coisa e tem experiência o bastante com aquele tipo de questão por meio de vários e vários exemplos e por meio de conexões com outras coisas, vc  tem uma intuição à respeito q está rolando e oque deve ser verdade. Mas como provar isso de verdade? Isso pode levar um longo tempo. O Index theorem, por exemplo, foi formulado e nós sabíamos que deveria ser verdade. Mas levou alguns anos para o provarmos... Eu não dou muita atenção para a importância de provas. Eu acho que o mais importante é entender uma coisa"

E esse final me lembra um conto do machado de assis, que é uma agulha e uma linha conversando. Me vem à mente este conto pela ingenuidade da agulha.  Não me lembro qual delas fica falando..acho que a agulha, fazendo troça com a linha:
 "- Viu, a senhora é que me segura, eu é que abro caminho entre as tramas do tecido, eu que faço e aconteço..."
E a linha só quieta.
Aí termina a costura e a linha vira pra agulha e fala:
"- ....Mas quem é que agora vai sair pra festa e quem é que vai voltar pra caixa de costura? "


Vou tentar viver mais como linha e deixar de me comportar como uma agulha (e menos ainda, como um alfinete). É sempre muito complicado ver oque é essencial e importante e correr atrás daquilo. Do contrário, a vida passa pela gente e nós não a aproveitamos; as idéias passam voando -como um bando de borboletas - ao nosso lado e não as agarramos.

Ainda devo o post sobre o Poincaré. Não fiquem ansiosos

=)


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