terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Um dia na vida do homem monossilábico

Um cano de gás monossilábico estourou no meu prédio esta madrugada, algo que eu só fui saber mais tarde. Dificilmente acordo cedo nos sábados, algo que fiz neste último. Levantei já  me sentindo estranho... dei oi para o mundo: oi para o sol, oi para o passarinho que canta alto e tira meu sono, oi para a maçaneta, oi para os vasos de plantas.

Era tudo o que eu sabia falar: Oi

Me apressei e saí de casa de qualquer forma, pois acordara cedo justamente para isso. Comecei dizendo um "opa" para o porteiro..era pra ter sido o usual e cortez bom dia que sempre dou, mas não consegui.  Saí então pelas ruas do rio de janeiro, num estado de leve torpor causado por algo que estava dentro de mim (e eu não sabia o que era).  Segui andando, segui andando... (ia comprar frutas ). Entro num velho mercado.

Pego uma fruta...dou uma apertada... cheiros, gostos... pego uma folha de verdura... pego uma sacola. Sigo pro caixa, com mais clareza do problema que me atormenta. A mulher que me atende parece estranha, como tudo mais que me cerca. Não me diz nada, nem mesmo bom dia. Forço uma abordagem simpática:

Oi...

O almejado bom dia saiu como um "oi" também. Não me assustei desta vez, ao menos não pelo oi em si; me assustou ter falado o oi com as reticências mesmo. Parecia que algo me impedia de falar  mais: um mecanismo de objetividade extrema, uma máquina de ecos reversa? Um constritor de pregas vocais, ou de expressividade (???)... parece que o mundo não queria mais ouvir minhas palavras

bip
[R$ 3,49]
bip bip
[R$5,67]
bip bip bip biiiip
.
.
.
[vários bips depois]

Débito

Voltei para casa pensativo e, de certo modo, triste. Tentei dormir para fugir do que poderia ser apenas uma manhã ruim.... não poder me comunicar com meus semelhantes de uma maneira ...não... não se pode dizer que é razoável pronunciar mais de dez palavras quando o que deveria ser dito não precisa de nada além de um "sim", um "claro", ou uma palavra apenas, das tantas que existem pelo mundo e que têm algum sentido, sejam elas o quão pequenas elas forem.... mas precisava ser assim mesmo? Não consegui dormir na primeira uma hora, pensando nas consequências daquilo para a minha vida: e meu trabalho, e meus amigos..... compreenderiam?  O sono veio, e dormi até às 18 horas. Acordei meio cansado, mas mesmo assim me levanto rápidamente e sigo direto para a cozinha fazer um café. De maneira igualmente súbita, como que agindo fora de mim,  saio de casa. Camiho sem destino por algumas poucas horas, até parar na frente de um cinema. Entro. Algo que me convida a entrar, me parece.

Meia

Vejo um filme....nada que me agrade muito, ainda mais por não ter conseguido esquecer do problema que me aflige. Caminho para a casa de forma calma ( até daria para se pensar que eu estava calmo mesmo). Na mesma calçada que eu, vindo em minha direção, vejo uma mulher bonita com um vestido florido e leve, que se arrasta com o vento.  Ela se aproxima...bem perto.. mais perto... Ela tem um sorriso bonito e parece rir para mim gratuitamente, como se me conhecesse.... ok, já vi... ela tem um dente da frente torto, muuuuito torto mesmo... não consigo parar de olhar para ele... tento me lembrar do nome do dente... qual é mesmo? Passo alguns instantes me martirizando para lembrar, algo que parece uma eternidade pra mim. Falo em voz baixa.

Incisivo???....

...mas isso é detalhe. Quando volto a mim, ela está me dizendo algo

...go?

Como?

Você tem fogo?

Me disse isso com os lábios abrindo bem devagar, passando a lingua nos dentes. Disse, meio atordoado, um "não". No entanto ela continua o assunto, puxando conversa; ela fala por quase um minuto sem parar. Me diz seu nome (que não me lembro qual era), onde mora e o que faz... ao sentir que a conversa ia adentrar em detalhes da minha vida, os quais estaria até disposto a fornecer, a chamá-la para sair "de novo", porém.... minha condição... as poucas sílabas de que disponho ... digo, de maneira meio atordoada:

Espera!

Ela me olha surpresa, mas interessada. Eu começo a fazer mímicas, ela parece não entender. Sua face muda completamente: parece me achar louco. Faço um gesto brusco sinalizando uma caneta e um papel. Parece não adiantar. Ela dá alguns passos pra traz, se vira e parte, dizendo qualquer coisa que me parecesse uma desculpa.. acho que falando sobre acender seu cigarro.

Ando mais algumas quadras e atravesso a rua. Estou novamente na frente de casa.
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