sábado, 16 de julho de 2011

Ser diferente parecendo igual + variações Goldberg + sonecotron

Tenho uma tarefa mto grande pra fazer, então resolvi postergá-la pro Domingo.... Decidi então escrever um pouco.

O post de hoje é uma mera continuação do anterior, sob uma diferente perspectiva: no post anterior eu falava sobre como pessoas diferentes tocam a "mesma" música colocando sensações, emoções e elementos diferentes, que a música chega a ser outra.

Aí fiquei pensando em como isso se dá quando a mesma pessoa toca a música, só que mudada (a pessoa, digo). Oque, por sua vez, me fez lembrar de uma frase  -Fernando Pessoa, acho - que diz que uma pessoa não se banha no mesmo rio duas vezes. Quando ouvi isso pela primeira vez - época do colégio - eu fiquei meio "insatisfeito", porque a frase não acrescentava nada. Eu poderia dizer que eu não teclo a tecla p da mesma maneira duas vezes, não digo oi da mesma forma duas, ou mesmo três vezes... enfim.  Uma frase que me deixou assim....  não acrescenta nada, é isso.

Acho que essa imprecisão das palavras para descrever sentimentos e sensações perdurou durante muito, até que eu admitisse que o essencial nessa frase ( a meu ver) não é o rio, mas a pessoa que se banha nele.

[ok..isso pode te parecer óbvio pra vc, leitor. Mas pra mim era a arte de ser totalmente incompleto. Pra que fazer uma arte que não acrescenta? Não que arte que não acrescenta não seja importante, isso quando ela é feita com este intuito.... bom... isso foi uma indignação minha, enquanto adolescente. Só estou contextualizando =]

Mais tarde eu tive oportunidade de perceber o quanto isso era possível. E oque eu trago hoje não é nada mais que um exemplo disso.

Podem até dizer que o Glenn Gould estava melhor em questão de técnica na segunda versão, mas acho que este não é bem o ponto da peça - a técnica será nossoo rio aqui: a pessoa era outra. Mais velho, mais sóbrio, menos vivacidade, mas uma paixão tão grande quanto a que tinha na juventude, senão maior, por aquele ectoplasma-algo-coisa intocável que emana da música de.... (adivinhem?) Bach!!!

Ok... estou ultra repetitivo. Lá vem ele com essa de Bach de novo! Tá virando religião já... daqui a pouco ele tá tomando o chá do Daime com coca-cola e falando de...

Bom, pessoal... não há muito oque dizer quanto a esta peça. As variações, pelo que eu saiba, foram feitas por Bach para um rei que sofria de insônia. Então, quando o rei não conseguia dormir, ele ia apurrinhar o pobre do seu pianista  - o tal de Goldberg- que tinha que ficar lá, tocando as variações pra tentar fazer o rei cair no sono. Oque me traz à memória tbm um filme do Wallace and Gromit, sobre o sonecotron


[eu queria um]
[embora eu ache um desaforo com o coitado do Gromit]

que é muito, mas muito bom (quem me dera eu tivesse um mecanismo deste para me salvar nos momentos de insônia =)




Mas voltemos a Johann. Oque vocês estão prestes a ouvir é a primeira parte das variações Goldberg, tocada pelo mesmo pianista em dois períodos diferentes de sua vida: o primeiro, no ápice da juventude. O outro, no ápice da velhice (se é que há ápice na velhice rsrsrs...


[ai ai... um dia eu ainda leio isso e me arrependo]
[ =) ]

Esta primeira versão tem todo esse lance de juventude que eu falei: abraçar o mundo, velocidade, agir de maneira desmesurada às vezes... Paixão, muuuuuita paixão por algo. Intensa.

(1955)


A segunda eu acho a mais foda de todas (as versões que ouvi): comedida, sóbria e de uma vivacidade única quando parece que isso é necessário. Não há mais espaço pra palavras não ditas ou para se desprezar o silêncio: o silêncio é importante (não só em música, acredito). Saber respeitar o tempo das coisas, o tempo necessário para que cresçam e tomem forma; sairem pra ganhar o mundo, à sua maneira. E paixão; sempre/muita/desmesurada

(1981)


Durma bem hoje

Bons sonhos =)

2 comentários:

Anônimo disse...

Caralho! Muito bem notata a diferença entre as versoes. Diga aí: o que nao faz 26 aninhos de prática?

Rafael disse...

hahaha quando li esse comentário eu pensei: "porra, do que será que essa pessoa está falando?!!! Se eu tenho 26 anos e 26 de prática em algo eu teria que ter começado desde quase antes ter nascido..."

Curiosamente, a diferença entre as datas das duas versões é de 26 anos (me desculpe pela gafe...só meio ruim em contas às vezes)

Mas voltando, acredito que o que marca mesmo a diferença na interpretação das duas gravações não são apenas os 26 anos de prática: a pessoa -músico - é outra; a serenidade e maturidade do fim da vida (O Glenn Gould morreu logo depois dessa gravação) contrasta com a vivacidade e tudo mais que a juventude carrega/proporciona. No momento que o G.G. dominava a forma da música ele pôde fazer dela oque ele queria: esticar aqui, "cortar" ali, demorar mais num lado, apressar mais no outro.

Talvez quanto mais um ser humano saiba e conhece, mais destreza ele ganha pra alterar e lidar com a informação que ele é capaz de receber, de processar e de passar adiante/cuspir. O G.G. não só era um graaaande músico (técnica), como um profundo conhecedor do mundo da música, de composição (vide seu "So do you want to write a fugue?") e de arte. Isso lhe permitiu ir mais adiante e deixar essa que, talvez, seja uma das peças mais bonitas/fodas que eu já ouvi.