quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Quelônio-errônio-errante

É fato, velho e sabido pelos habitantes do mundo afora, que algo não cheira bem no reino da polinésia francesa.

Por este e tantos motivos, seus habitantes, como muitos outros animais, de lá têm saído para procurar novos lares (para não dizer novos ares, o que nos levaria ao mesmo ponto de antes - na linha de baixo apenas). Diante de tais proposições, à princípio descabidas, admito, mas que fazem sentido, devo me explicar para que o leitor, no aconhchego do seu lar quentinho nos trópicos,  posso me entender. Tudo começou na última manhã de domingo, quando eu, o sr R, fui ao mercado comprar frutas e verduras.


Interlúdio: Essa é uma história verídica
Interlúdio #2 : tirei essa introdução dos programas policiais norte-americanos..eles adoram isso =)


Manh
ã de  domingo - 12 de setembro de 2010 - Itapopoca - Indiana - U.S.
Saí para fazer a acima mencionada compra do lar. Não sei se posso chamá-la "do lar", pq a compra só diz repeito à mim. Eu, por mim mesmo, não constituo um lar... e o indiano que mora aqui em casa não é bem o que eu chamo...tá...voltando... eu estava indo de bicicleta pro mercado que considero o melhor de todos para os produtos vegetais que crescem nas prateleiras. Lá fui eu, com a minha bicicleta vermelho-preta com uma "caixa de cerveja" na garupa (não se trata bem de uma caixa de cerveja, mas é parecido..qdo tiver uma foto eu posto aqui). Desci a rua na manhã fria de Itapopoca de maneira veloz, de maneira que o vento gelado, de tão gelado, quase arrancou-me o nariz. De fato, o arrancou, mas eu tinha outro no bolso e coloquei no lugar.

Segui viagem. A sabedoria dos amigos que andam pelo mundo me fez virar à esquerda no fim da descida, e assim eu encontrei o/um atalho. Isso iria fazer toda a diferença...pois isso me levou a encontrar o que adiante eu vou descrever.

Peguei o atalho de maneira sensata, sem grandes arroubos sobre a minha bicicleta. Não poderia bater de frente com o vento, pois não haviam mais narizes no meu bolso caso eu perdesse o que eu tinha no vento gelado. Fui, cauteloso e sensato...até chegar na 10th street. Lá, como de costume, pedalei, como nunc apedalei antes..mentira, como pedalo sempre: até encontrar o farol fechado.

Parei na grande esquina da 10th com aquela outra rua gigante que nunca lembro o nome. Mas é enorme, e já parece uma estrada, pois nos arredores não tem quase nada (além de uma loja estranh que nunca vi aberta e a linha do trem.

Olho para o alto e vejo o sol, que me importuna. Sol que importuna os que andam pelo mundo..queria eu estar do lado de dentro do carro que ao meu lado estava. Sob o sol somos diferentes, mas sob o farol, os mesmos: os dos parados, esperando o farol abrir. Eu, no frio que virou calor repentino de Itapopoca; e o dono do carro no ar condicionado da Hiunday, esta de algum lugar do mundo (da China, provavelmente).

Olho para a continuação da estrada que terei que percorrer. Subida grande.

"PQP...merda de subida..."

[Inventaram a bicicleta com marcha, ma nada que substitua minhas pernas para que elas não tenham que fazer este trabalho todo]

Olho mais atentamente.. o sol me ofusca a vista. Apesar disso, vejo algo se movendo no asfalto, logo depois da rodovia que cruza com a avenida que espero para atravessar (maldito farol).

[Deve ser um esquilo (um que não foi morto pelos moradores de Itapopoca que têm licença para caçá-los)]

Farol verde.

Sigo adiante, enquanto o dono do carro ao lado vira à esquerda ou direita.. de forma que não segue na mesma estrada que eu, que pedalo então sozinho e resignado, em direção ao desconhecido....que de perto, já não é tão desconhecido..


"CARALEO!!! UM QUELÔNEO!!!!!"

Disse isso bem alto...mentira..não disse isso porque não tenho certeza do que é um quelônio...Mas o som teria sido agradável, por que soa bem..
CARALEO < QUELONEO < QUADRADO < PERITÔNEO < NEURÔNIO

Disse, isso sim:

"CARALEO!!! UMA TARTARUGA!!!!!"

Não sabia o que fazer diante do meu espanto... ela estava atravessando a rua, com o pescoção esticado. E parecia que estava se esforçando para atravessar a pista rápido. Não sei como ela havia conseguido chegar quase ao meio da pista sem ter sido atropelada, por que a outra faixa estava completamente movimentada: não parava de passar carros.

Joguei a bicicleta no acostamento, e parei pra ver se algum carro vinha ao encontro da pobre tartaruga ( e de mim, que tentava fazer algo por ela).

[Nenhum..não na minha, ops, faixa dela]

Corri em direção a ela e pensei:

[puts..será que morde?]

"Bom, foda-se!"

E peguei o bicho pelo casco. Foi engraçado, por que ela se escondeu na hora.. fez até um barulhinho

[puffffff][.....]

como se fosse uma almofada que alguém senta em cima... fiquei rindo sozinho. Ela ia ficar ali, no meio da pista, dentro da casa dela? Eu hein...se eu já acho viver em Itapopoca complicado, que o diga morar numa casa, no meio de uma faixa numa estrada, com um monte de carros passando. Levei ela até um gramado enorme que havia no mesmo lado que eu havia deixado a bicicleta. Ela, ainda escondida dentro de casa (provavelmente estudando meus movimentos pelo olho mágico que deve haver no casco); eu, rindo de todos estes artifícios dela para fingir que todos sairam pra jantar, volte outro dia.

E então segui, deixando a tartaruga para trás. Mas a dúvida veio ao meu encalço (acho que ela pulou dentro da minha cesta de cerveja): porque eu não a ajudei a atravessar a pista? Será que eu fiz certo em tê-la colocado do mesmo lado que ela havia começado?

Uma merda isso de ter consciência.. e isso que eu tenho pouca perante os meus atos e comportamentos. Fui pro mercado pensando no quanto o bicho deveria me odiar pelo que eu fiz.

E se ela tinha marcado com um tartarugo do outro lado da pista e, no meio da viagem, eu cheguei pra atrapalhar? Caramba, o tartarugo pode ter ficado puto com a demora dela (já que ela teria que atravessar metade da pista de novo) e foi embora. Vai que ela estava tentando um suicídio e eu, no alto do meu altruísmo, estraguei o seu intento.

Estas e tantas outras perguntas coerentes passara pela minha cabeça enquanto estava no caminho do mercado, no mercado, e na volta do mercado... ao menos até o cruzamento, já que voltei pelo mesmo caminho que fiz.

Nenhum sinal da tartaruga.
Nenhum rastro na pista.
Nem de pneus,
Nem de casco,
Nem de casa/casco.

Então parei no cruzamento, olhei pra minha cestinha de cerveja na garupa e falei:

"Consciência, vc está muito pesada. Desce agora, nesta mesma esquina que te encontrei"

Se ela desceu da cestinha ou permaneceu escondida, eu não sei dizer a vocês.
Mas não podia deixar de lhes contar essa história.


ps: na polinésia francesa, presumo, deve haver muita tartaruga. E no geral, as tartarugas devem sair de lá por que os franceses comem elas ( e os caramujos tbm).
ps2: a polinésia francesa deve ser francesa mesmo, por que se fosse minha eu ia colocar "polinésia do Rafa, aquele menino legal do carnaval"
ps3: qual o nome da sua polinésia? Ela tem programa pro próximo sábado à noite já? =P
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