domingo, 11 de outubro de 2015

Uqeybi ( ou "a rota do indivíduo")


O título do post de hoje vem do idioma somali: uqeybi, "dividir". Termo matemático, mas que pode ser visto como "compartilhar" (ao menos em português e outras linguas latinas). Recentemente comecei a voluntariar ensinando matemática. A maioria dos que ensino são refugiados: gente que teve que sair de casa ou fugir de seu país para sobreviver. Gente que veio em busca de um lugar melhor, de um país melhor. Em busca de um lugar para chamar de casa. É impossível não me identificar com essas pessoas: desde suas condições como imigrantes até suas dificuldades em entender uma frase ou se expressarem em inglês. Muitos não sabem ler na própria lingua nativa. Olho pra minha trajetória e penso que saí do Brasil pra estudar, sem ter que fugir, sem ter que procurar refúgio algum. Me vejo como uma pessoa com sorte, mas me pergunto se isso é mesmo sorte. Do que mesmo isso se trata? 

Não sei... honestamente, não sei. Paro pra pensar nessa história toda e a única coisa que sinto é que em maior ou menos grau sou também um deles. 

Penso nos meus pais: uma mãe que na infância catava café, um pai que fugiu de casa aos 16 anos de idade, do interior de Pernambuco pra São Paulo. Refugiados da própria vida. Duas pessoas que tiveram que fugir para poder sobreviver e crescer. Acho incrível que duas histórias tão similares e tão extremas (ele do nordeste, ela do sul) se encontraram no meio do caminho. Me vejo e sou o fruto disso. Imigrante, eu, Eumigrante. Será que a humanidade anda em círculos e tenta reescrever sua própria história cortando e colando letras das primeiras páginas de seu livro? A mim ao menos nada de refúgio, exílio ou ostracismo (como algumas vezes me referi a isso): vivo num mar no qual remo, nado e levo adiante meu barquinho. Aonda isso vai me levar ... talvez melhor não me perguntar demais. 

Deixando de lado menores/maiores digressoes: é interessante discutir matemática nesse - pra mim- novo contexto. Fico suando frio pra tentar ensinar meus alunos a aprender a subtrair 5 de 13.. incrível como me apropriei de alguns conceitos de maneira tão orgânica que ensinar vira um processo muito grande de se redescobrir e se doar. E no fim das contas entender algo que não números, mas pessoas. Acho que aí mora a maior riqueza disso tudo: dividir. A matéria prima com a qual trabalho é conhecimento, mas ninguém precisa mantê-lo em estantes cheias de livros, ou armazenado em terabytes, discos rígidos, folhas e notas. Me sinto gratificado a cada vez que vejo o esforço de mães de 40, 50 anos tentando aprender. Acima de tudo, sinto nítidamente a vontade deles em  se integrarem a esse novo mundo. E mais uma vez me pego ali: me esforçando para me integrar e  também ainda aprendendo  matemática; em geral eu fico no meu mundo de equações diferenciais, perturbações singulares, ondas de choque e ondas de difusão... a mesma (seria outra?) matemática... um pouco mais abstrata aqui e ali, mas ainda assim a mesma arte. Me vejo então como um aluno: mesmas dúvidas, mesmos medos e angústias. Aprender e ensinar não são coisas assim tão distantes.




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