domingo, 16 de março de 2014

O fim de uma era(?)


Um caramujo segue por uma estrada de terra. No corpo, somente a poeira dos lugares pelos quais passou. Às costas... digo, acima de sua concha, uma pequena mochila. Acostumado a seguir sozinho pelo mundo, ele conversa em voz alta consigo mesmo... às vezes se dirigindo à sua concha:

"-Me disseram uma vez que nós caramujos viemos todos do mesmo lugar... na verdade é uma história mais longa, que conta a origem de todos os bichos."

[pausa]

" - Nela, se diz que os caramujos vieram do umbigo de uma deusa... é curioso pensar por que do umbigo, né? O umbigo é só um botãozinho... como a gente sairia enrolado de lá?! Mas, ao que parece, era uma deusa com um umbigo meio engraçado, que parecia uma concha de caramujo... aí a gente saiu assim..."

O caramujo pára e pensa. Talvez devesse fazer um lanche, talvez devesse tentar ir mais adiante. 

"Então... não se sabe muito bem quando isso aconteceu....  As pessoas acreditam ter sido no fim da era mezosóica e que, com a criação de todos esses bichos, nós marcamos o começo de outra era...  quando, na verdade, o fim de uma era não implica o começo de outra... acho que são momentos de transição, em que as coisas procuram seu próprio lugar, de maneira a se ajustarem de novo, a se equilibrarem. É um processo... as coisas levam tempo para tomarem seus devidos lugares... isso se um devido lugar pras coisas ficarem de fato existir... quem sabe? "

[uma risada boba e breve]

O caramujo olha para um grande lago e pensa.. 

["será que é a baía de guanabara?" ]

" ...ainda acho que, ... não.. pérai... deixa eu pensar melhor.."

Olha para a paisagem... que talvez não seja nada mais que um grande pântano:

" acho que transições se fazem em grandes escalas... por que a transição se dá naturalmente com a chegada de mil possibilidades, de mil novos caminhos para serem seguidos. E todos eles, de certa maneira, parecem ser testados quando só um é escolhido... no começo ninguém sabe em que direção às coisas vão mas ...isso por que se todos os caminhos fossem pegos não se chegaria a lugar algum, não? "

[silêncio]

"... é... não se chegaria a nada. Desistir é, em muitos casos, ter que começar do zero, ter que começar de novo.. aí sim uma nova era começa... mas antes é preciso não ter medo de deixar esses projetos... ou mesmo sonhos, de lado... "

[pausa longa]
[pensativa]

"Não... não... acho que cada um desses caminhos talvez persista e ressôe nesta rota final .... Por que eles não foram abandonados, eles só não foram tomados como curso por alguma razão.  Mas enfim... são apenas sonhos, projetos que não vingaram... uma nova era seria o não medo de se começar do zero."

[O caramujo pára pra tentar entender oque disse...]
[Mas desiste, e se aconchega debaixo da sombra de uma folha]
[Quando sai, se depara com um sapo.]

Vendo-se entre a vida e a morte, o caramujo sente o silêncio e o vento frio a sua volta. O sapo lhe encara... mas depois de alguns longos segundos, salta para longe de sua vista. 

[respira]
[respira]

E segue viagem, carregando mais dessa vez em seu corpo um pouco da lama do chão por onde acabara de passar; seguindo adiante, ele continua sua peregrinação, mesmo sem saber muito bem pra onde vai.

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