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sábado, 5 de novembro de 2022

Próximos passos

Agora que as coisas parecem estar se assentando, que os dias parecem ter encontrado melhor seus lugares, que a rotina parece querer se estabelecer, eu me pergunto: oque vem depois disso? Não encontro uma resposta fácil. Pareço me perder em mil planos distintos, cada um contendo a peça que falta pra que tudo fique certinho, para que tudo finalmente caiba no seu devido lugar. 

Eu sei que isso é uma ilusão, que nada disso há de acontecer ou esse dia chegar. Mas me dá um certo alento tentar elaborar e planejar isso. Jogo pétalas imaginárias e abstratas no chão, preparando o terreno pra ver esse dia descer à terra numa espaçonave imaginária... encho minha agenda de tarefas e micro-to-dos que parecem desaguar em algo mas que, por fim, levam a mais planos e planos... 

Às vezes seres humanos são como aqueles hamsters correndo nos threadmills... porque será que fazemos isso?

O rádio toca "a love supreme", do Coltrane... fico me perguntando se ele começou essa obra pensando em chegar a algum lugar. Ouço as improvisações, os acordes que se concatenam, se movem e ainda assim parecem estáticos... olho pra mim mesmo... será que eu também, me movo estático pelos dias que se apinham e suscedem? 

Olho pela janela. Faço um solo de suspiro e junto a sessão de garganta com covid com pulmão com covid num crescendo orquestral que me traz de volta à pergunta inicial: "e oque vem depois?" Olho no horizonte: as maritacas fazem barulho, as obras de prédios enchem a rua de bate-estacas e vigas metálicas ruidosas.. "-Se ao menos o café ainda tivesse gosto", penso comigo mesmo.

Páro... melhor voltar a ler, depois eu penso nessas coisas...

sábado, 25 de junho de 2022

Terra Brasilis : tudo num ponto (e a maior distância entre dois deles)

"Por meio dos cálculos iniciados por Edwin P. Hubble a velocidade de afastamento das galáxias, pode-se estabelecer o momento em que toda a matéria do universo estava concentrada num único ponto, antes de começar a expandir-se no espaço. A “grande explosão” (big-bang) de que se originou o universo teria ocorrido há cerca de quinze ou vinte bilhões de anos."
    
"Tudo num ponto", no todas as cosmicômicas, do Italo Calvino.


Há um conto do Italo Calvino - este, citado acima - em que ele fala do começo do mundo como um grande paradoxo: ele descreve o fato de várias coisas diferentes estarem ali, querendo se fazer pronunciadas, com suas naturezas distintas, como se o meio fosse heterogêneo... quando na verdade tudo se encapsulava na homegeneidade de ser aquilo um único ponto. O texto então fica oscilando entre essa dicotomia que, nas idéias do Calvino, se unem: o fato de muitas coisas distintas estarem ali, encerradas todas num único ponto, sendo portanto a mesma coisa.

[Ps: sei que já falei desse conto... mas ele sempre me vêm à mente de formas diferentes, por motivos diferentes]

Eu acho esse texto lindo, e sempre fiz analogias entre ele e várias das coisas que vivo-vejo-faço. Somos uma multitude de idéias, mostrando tais facetas em cada pequena coisa que fazemos, ao mesmo tempo em que nas muitas coisas que fazemos deixamos um pouco do que somos. É o tal contraste com o qual o Calvino brinca no texto: no fundo, somos apenas um ponto.

Por esses dias entre conversas e mais conversas, ligações surpresa, compra de móveis, violações com pitadas de paciência, eu tenho pensado num outro "paradoxo": o de como dois desses pontos podem estar longe-mas-perto, ou perto-mas-distantes. Fico abismado em ver esse mundo de impossibilidades, que parece tropeçar em medos, idéias pré-concebidas e receios diante do possível, agora ao alcance das mãos-abraços-beijos. O medo nos paralisa, assim como a incerteza. Nos ludibriamos diante de assunções e racionalismos que parecem mas não contemplam todos os lados de uma estória. Não damos espaço pra admitir que há uma questão que possivemente nos foge pelos dedos: o de que possivelmente estamos errados e sendo parciais.

"We always did feel the same

We just saw it from a different point of view"

Tangled up in blue, Bob Dylan


Sigo dias em desassossego, tentando antever como há de ser, eu e meu barquinho aportado em território alto-e-verde, província paulistana cheia de flores e temores. Aguardo sem querer aguardar, respeito sem me silenciar mas sem me perder em palavras, me censuro e sou censurado, tentando fazer sentido de como dois pontos tão próximos e com tanta atração parecem se perder em campos gravitacionais tão difusos-arredios e acabam, infelizmente, em órbitas diferentes. Tem sido difícil aceitar isso, essa "piada" de muito mal gosto.

"Só meu sangue sabe tua seiva e senha
E irriga as margens cegas
De tuas elétricas ribeiras,
Sendas de tuas grutas ignotas

Não sei, não sei mais nada.
Só sei que canto de sede dos teus lábios
Não sei, não sei mais nada."

Teu nome mais secreto, Waly Salomão e Adriana Calcanhoto

Além de tudo isso, me cerco de pontos, coisas, que me orbitam em busca de uma estrela ao redor da qual ter uma função. Me mudo, levando comigo pouca e muita coisa. Nesse processo de congregar todas elas num único lugar - uma casa, de verdade - eu tenho pensado em como este lar, pequeno espaço no mundo, demonstra um pouco  (ou mesmo tudo) do que sou: os detalhes, os quadros nas paredes, o improviso, a ausência de um eletrodoméstico sem o qual posso viver (mas não necessariamente preciso viver sem) etc. Oscilo entre aceitar que tudo oque é meu está ali, e que não sou nada disso, dado que oque carrego são apenas objetos, coisas, besteiras: eu, sim, estou em outra dimensão... ou talvez estas tantas coisas são só uma parte diminuta do que sou.


domingo, 15 de maio de 2022

21 dias entre o oriente e o ocidente: please fill the form

Allergic... to belligerent, insecure, possessive, and territorial men

Worried... about loved ones, mostly (especially those in contact with allergens)

Optimistic... about life and work in general

Tired... no, but sleep-deprived

Inspired... by friends, beautiful algorithms, and music

Breakfast... yes

Not taking other medication

In need... of more poetry in my life (pills, please)


terça-feira, 26 de abril de 2022

Mudanças estruturais

Sempre penso, enquanto nado, na analogia entre cada braçada e um grão de areia que culmina numa duna: no fundo, nadar uma longa distância é o mesmo que concatenar um monte de braçadas inexpressivas. A grande questão em se percorrer uma grande distância então está em mantermos a calma, a respiração e aceitarmos que grandes mudanças/transformações podem levar, sim, muito tempo.

Páro pra reflitir no que as mulhers que passaram na minha vida me deixaram... delas e com elas aprendi muito (assim como aprendo dos amigos, mas é diferente). Sem sombra de dúvidas, todas fizeram de mim uma pessoa melhor (não que eu seja lá grande coisa..). Algumas, no entanto, causaram mudanças muito, muito grandes. Nuns casos, em personalidade - em me fazerem ver que posso sim me engajar num relacionamento e construir conexões; noutros, que deveria contemplar outras possibilidades - como sair da academia. E, mais recentemente, me apontarem que muito do que eu preciso agora não tem a ver com minha carreira somente, mas sim com a minha vida pessoal.

Há 12 anos estou fora do Brasil. Há 12 anos sinto que desenvolvi e me dediquei a uma parte de mim que contempla somente parte da minha personalidade: o meu lado introspectivo, de fazer coisas sozinho, de saber me deparar com a solidão e, em face a ela, encontrar maneiras de encará-la com serenidade. No entanto, carrego um outro lado, mais "carnavalesco", mais leve, que sempre fez com que me conectasse com as pessoas, as ouvisse, e fizesse amigos por onde passasse. Esse último Rafaello, infelizmente, ficou meio apagado nesses últimos 12 anos. E é nele que eu quero investir de agora em diante. 

Me levou muito tempo pra acordar pra isso. Muito tempo pra ver que essa resposta sempre esteve debaixo do meu nariz. Me puno, me machuco, chego até a me auto-flagelar  emocionalmente um tanto por isso. Mas... sei que todo processo de mudança nasce primeiro em termos consciência de que uma mudança é necessária... com essa consciência em mãos, cabe a nós a ignorar tal verdade (por medo ou algo assim), ou abraçá-la. Eu escolhi a última opção.

Tenho escrito mais ultimamente porque realmente preciso verbalizar tantos pensamentos. A mente parece seguir lúcida e clara nesses dias, mas os sentimentos parecem tentar me inundar de quando em vez como um tsunami atingindo um farol costeiro: a cada onda, eu receio o quanto há de sobrar de mim, e imagino que a dor há de ser pior e não arrefecer. Mas eu sei... eu sei que arrefece.... eu sei que passa... 

Meu maior medo na vida, talvez, seja o de um dia parar de mudar ou de me abrir pra ouvir os outros. Sinto muito por levar tanto tempo para fazer isso. Mas... esse sou eu: dificilmente jogaria tudo pro ar por idéias que não me parecem plausíveis de imediato... mas as ouço. E, como pequenos grãos de areia que vão se acumulando na minha orla interior, um dia elas se empilham em dunas gigantescas,  intransponíveis como um deserto. A maior prova disso, talvez, seja o fato de que esse ciclo hoje parece se completar da maneira mais inesperada que eu poderia imaginar: com o caminho mais óbvio.

Humildade talvez seja isso: se abrir pra aceitar e acolher, se silenciar diante de algo que nos parece duvidoso mas pro qual não temos argumentos: se abrir para mudar e, então, abraçar tais mudanças.  

Como uma amiga escaladora que, tradutora e envolvida em diversos projetos  - que, de acordo com ela, "só a deixam mais pobre, mas muito feliz" - me disse recentemente: "let's keep things interesting...that's what drives me". Na hora que ouvi isso, me vi naquela frase: vai ver, no fim das contas, é isso que tenho buscado ao longo da vida...

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #127: "hiding love away"

Calhou de eu estar tocando essa música dos Beatles há um tempo (por conta do solo no final, que tirei com uma escaleta) e ...a letra - bom, o título ao menos - e essa idéia de você esconder o seu amor pelas coisas ou pessoas. Você se reprimir e não dizer, não poder falar. 

Pra falar a verdade isso me parece tão estranho (você não fala o que quer e sente, e isso te machuca)  e quase contra intuitivo, pois cai num loop rapidinho já que o falar às vezes também acaba nos machucando: podemos ser oprimidos, rejeitados, ignorados.... e, por fim, falar e não falar acaba dando na mesma. É um loop infinito onde tudo acaba em dor.... a pior sensação do mundo e, de alguma maneira, como eu tenho me sentido.

No fundo, talvez tudo nasça do fato de não termos uma opção: a dicotomia está posta e é essa, divide todo o espaço de escolhas - falar, não falar - e tudo se sustenta nisso. Não há muito por onde fugir: a dor acaba te comendo pelas beiradas, por dentro, te subindo pelas entranhas, te corroendo.

Por outro lado... essa dor pode nos mover, nos mudar, nos fazer entender - como no post anterior quando falava sobre "nossos limites nos tornarem mais humildes" - que no fundo, bem lá no fundo, estamos vivos e na chuva para nos molhar. Vai doer mesmo, seja amor escondido, dito, não dito, bendito, em banners, em faixa de avião que sobrevôa a orla, em cartinhas, em mensagens, em sonhos, em conversas que se deixa pra depois para se dizer a verdade, em conversas que acabam não acontecendo, em fugas pela tangente, em respostas em que se faz de desentendido, em saídas de campo antes do final do segundo tempo diante da derrota evidente, em tudo! 

Apesar de aprender com ela (ou tentar) não advogo pelo caminho da dor, que fique claro. Doer não é nem prazer tipo 1, nem tipo 2: doer é uma merda.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #124: a maior das distâncias

Muito provavelmente é a palavra sobre a qual mais falei em todos esses anos de blog: distância. 

E ciúmes...falei de ciúmes? E de se sentir substituído?

Acho que não... mas, de alguma forma, num universo não muito distante, esses termos todos se emaranham.

Estar longe... a sensação horrível de impotência, como se fossem mulhares de borboletas a se debatem na nossa barriga, fragilidade em erupção, o estado de não-presença exacerbado também, o coração longe, a cabeça mais longe ainda... 

Em suma: uma merda.

Acho que não foi nem uma, nem dias, mas várias as vezes que senti isso. Em todas, é difícil: a dor parece intransponível, o tempo parece se dilatar, dilacerando a alma como cacos de vidro ... você deseja que tudo passe rápido pr'aquilo acabar, mas não, o tempo se mantém longo e vagaroso, alfinetando cada segundo da nossa existência com um "eu te disse", ou "a culpa é tua"....

Perder alguém é muito difícil.... Ver essa pessoa se distanciar, imaginar que foi culpa sua...sem falar em saber abrir mão por não poder mudar a situação, ao menos não ali, naquele derradeiro segundo em que você quer que sim, tudo mude e seja diferente.

Caramba..sempre penso sobre isso: já perdi tantas pessoas que considero especiais, tantos amores, e sempre sofro da arrogância de achar que da próxima vez será mais fácil. Não: sempre me dói como se fosse o primeiro, como dura como o último fosse nada.... É um estoicismo de amor: "sofra cada amor como se fosse o último a te rasgar a alma", e lá vai você, vendo que todos os remendos do break-up anterior não serviram de nada.

Pensando bem, talvez serviram: pra racionalizar a situação de perda e ver que, num horizonte sabe-se lá quão distante, essa dor passa.


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Entre os emaranhados da verdade e da confiança ("Chain of trust" & "chain of truth")

Uma das coisas que sempre achei interessante quando alguém descreve estelionatários e outros golpistas está em como estes constroem uma "rede de verdade" com falhas, buracos enormes, mas nas quais uma pessoa está disposta a se jogar ao se sentir "em segurança". Tais buracos correspondem àquilo que consideramos difícil de acreditar logicamente, "gaps" lógicos que dificilmente convenceriam, ou se sustentariam, por si só. No entanto, ainda assim, as pessoas acreditam neles, caem em golpes, se jogam, se estrepam. 

A meu ver, há algo maior nessas estórias: a cadeia de confiança que estes vigaristas são capazes de construir. Essa linha tênue, tenebrosa, e enevoada entre a verdade e a confiança.

Mas aonde quero chegar com tudo isso? Talvez tudo tenha começado no texto abaixo: nele  um médico relata o caso de um paciente soropositivo (Mr B, um morador de rua) que não acredita no HIV. O médico tenta e tenta com que o paciente tome o remédio retroviral mas não, o paciente não toma porque não acredita que o vírus do HIV causa a doença. 
"Covid denialism, like AIDS denialism, reveals that many of doctors’ assumptions are incorrect. We overestimate the value of reasoning and facts. We believe in our clinical authority. We expect patients to behave rationally. But we all develop our beliefs through interactions with other people — what you believe depends on whom you trust. "

[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

Calhou de esse artigo "resolver" um desconforto que senti numa outra conversa, ao ouvir que "a ciência é uma fé, assim como a falta dela também o é". Não, não concordei. Na verdade me causou desconforto pensar nisso, apesar de não saber bem oque dizer na hora

Essa frase me despertou uma memória sobre um post antigo, A estalagem da razão: sobre agulhas, alfinetes, Index theorem e linhas, de 2010, no qual cito:

"A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível."

Fernando Pessoa - Livro do desassossego

Há alguns anos eu até brincaria com esse tema, concordaria com F.P. até. Sim são todas fés. Mas hoje minha visão sobre o tema mudou: verdades não são idéias que flutuam no ar e adotamos as que nos apetecem. 

Mas se já ficamos desconfortáveis com a idéia de toda crença ser uma fé, imagine então a idéia de podermos agir em função de qualquer coisa que acreditemos. Pensemos neste cenário dos dias de hoje: pessoas sem máscara, sem vacina, um perigo de saúde pública. E se esse paciente (Mr. B) fosse um "spreader", um cara que saísse transando com meio mundo passando AIDS pra tudo e todos, dizendo que não era HIV que causa oque ele tem? Trata-se então do direito de não só terem fé, mas de exercê-la da maneira como bem entenderem? Certamente, não ligo que as pessoas acreditem no que queiram: enquanto eles tomam atitudes que impactam a vida deles somente, eu lavo minhas mãos, sigam na direção que quiserem, eles são livres pra tanto. Agora, são livres pra sair espalhando as "verdades" nas quais acreditam? Não, não são.

Uma parte considerável deste embróglio então está nisso, nessa disputa pelo correto ter virado uma disputa de "crenças". As pessoas julgam que tudo, toda visão de mundo contém erros, então são todas iguais. Dessa forma, tudo vira uma religião: futebol, cloroquina, ciência. Cito então algo que li num texto do Asimov:
This particular thesis was addressed to me a quarter of a century ago by John Campbell, who specialized in irritating me. He also told me that all theories are proven wrong in time. 
My answer to him was, "John, when people thought the Earth was flat, they were wrong. When people thought the Earth was spherical, they were wrong. But if you think that thinking the Earth is spherical is just as wrong as thinking the Earth is flat, then your view is wronger than both of them put together."
[Isaac Asimov, "the relativity of wrong"]

Sim! Aí está parte da chave pra esta questão. Existe assim gradações de erro, algo que Asimov foi muito sábio em apontar nessa frase. Há uma "relatividade do errado". E isso acaba tangenciando oque o médico relata. Isso porque existe uma "chain of trust" (cadeia de confiança) da qual o médico fala, que talvez preceda oque chamo de "chain of truth" (cadeia de verdades): adotamos, acolhemos a ciência em princípio por confiarmos naqueles que nos levam a ela. Posterior a isso, vê-se que existe sim todo um arcabouço de idéias e sustentáculos que seguram esse edifício em pé. Claro, não sem contradições internas, mas com amarras muito mais firmes e auto-consistentes do que uma "fé" religiosa, por exemplo. Sendo assim, não desmereço ou nego que a fé exista de alguma forma, mas ela é somente um "ticket de entrada" pra essa casa onde a ciência reina. É talvez oque o médico ressalta do texto do NEJM quando diz
"I am part of what anthropologist Heidi Larson calls a “chain of trust” in a social system that has treated me fairly and generously — a chain that did not reach Mr. B. I realized that the chain’s links consist of lived experiences and relationships, not data in scientific journals. I believe what my colleagues say because of my proximity to their experience: I work with people like the scientists who conducted the earliest studies, and I know them to be generally honorable and credible. Mr. B. did not believe — ultimately, not because of quibbles with the scientific method, but because the sum of what society, and “expert” professionals like me, had offered him in life seemed more like lies than the truth. "
[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

Achei incrível ver que, no fim das contas, a atitude do médico foi a de ter empatia, de ver ele mesmo aquilo que o paciente estava professando/fazendo. Ele sacou tudo aí, quando viu que este Mr B, marginalizado, vivendo às franjas da sociedade, nunca participou do que era discutido nessa "grande casa" (aristocrática talvez?) na qual a ciência impera. Sendo assim, ele mudou a abordagem: simplesmente convidou Mr B a ela. O ticket de entrada: simplesmente tomar o anti-viral. Foi uma sacada genial ele perceber que não era uma questão de convencimento por argumentos, mas uma outra coisa.... talvez resultados? Não exatamente... 

Aliás, esse "chain of trust" é algo interessante: recentemente o "this american life" fez um episódio sobre um republicano, âncora de televisão, super conservador, se reunindo com pessoas ati-vax pra tentar convencê-las do valor de tomar a vacina (episódio 736: The Elephant in the Zoom). O programa vai por linhas incríveis, até chegar ao convencimento (ou quase) daquelas pessoas.

De alguma forma, depois desses redemoinhos que se sobrepões, pensei em mim mesmo, em algum momento lá em 2010, mais confortável com essa idéia de que a ciência, mesmo a matemática, é sim uma ciência que envolve uma certa fé, ou intuição. Será que o que me movia era a fé? Era a crença de que aquilo que via era a verdade, uma única verdade, ou forma de verdade? 

Não sei.. se era fé, acho que a perdi em algum momento. Mas já era tarde: já fazia parte do "clube", me via parte da engrenagem, membro desse grupo "fechado", que não admite outra religiões... em especial, parte de um grupo que muitas vezes não admite outros que nunca foram convidados a ele, pra essa "festa" regada a lógica e leis universais, onde a ciência impera.

E pra terminar esse grande círculo: tudo bem termos compaixão por pessoas negacionistas, mas não acho "producente" confundirmos esse sentimento com o de "liberdade que essas pessoas têm", ou mesmo confundir as crenças deles com "a mesma fé que temos na ciência". Acho que, a alguém que diga isso, ou equalize as duas "crenças", só posso dizer: "your view is wronger than both of them put together".

Acredito, isso sim, que esse artigo indica que a paciência, a escuta, precede a razão em alguns debates onde existe sim um lado que está correto. 
Instead of arguing about the veracity of science, perhaps I could simply bear witness, as one human to another. 
[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

É isso, pessoal. Crescer para melhor ouvir. Ouvir para mais alto crescer.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Letrada e safada

Há algumas semanas conversava com um amigo indiano que estava pra voltar à India pra casar. Havia enrolado a namorada uns 5 anos, até que ela e as famílias dos dois deram uma pressionada e ele cedeu. Eu, curioso, resolvi perguntar mais sobre o caso.

- Mas pérai...  como as pessoas se conhecem e casam no teu país se você não pode chegar numa pessoa diretamente?

- No meu caso, eu falei pra minha mãe o tipo de esposa que eu queria. 

- E que tipo que era? - perguntei.

- Tinha que ter mais ou menos a minha idade, e ter um mestrado.

- What!!! Mestrado? Pra que que você quer um mestrado?! Tanta coisa boa pra procurar em alguém e você quer um mestrado?!

- Ahhh deixa a vida mais fácil. Seja por conta das conversas que podemos ter, ou caso a gente mude de país... Aí ela pode aprender outra coisa mais facilmente, ou encontrar um emprego com mais facilidade.

Na hora fiquei pensando a respeito e vi que, de alguma maneira, até fazia sentido... Me perguntei então se também tenho exigências do tipo. Ou pior, exigências implícitas, que nem me dou conta! Será? Fiquei pensando na hora e cheguei à conclusão que sim, estudo conta, claro. Mas, no meu caso, acho que a combinação "letrada e safada" seria o melhor dos dois mundos :) 

Fiquei me imaginando num mundo em que eu fosse indiano, falando isso pros meus pais: 
"-Olha, mãe. Olha, pai.... pra inteligência a conversa basta. Agora... ser safada... é mais difícil, né? Safadeza é química, jeito de olhar, de desejar, de se doar".  É... o tipo de coisa que é fácil de saber quando está ali, mas difícil de descrever pra alguém... e meus pais, os conhecendo bem, certamente errariam na escolha: se dependesse da minha mãe, casaria com alguma filha de amiga dela, fofinha, meiga, etc. Por outro lado, se dependesse do meu pai, acabaria com alguma mulher bem barraqueira, sem juízo algum.

É, pessoal.... independentemente do cenário dos horrores acima, ainda fico feliz por poder fazer tal escolha e "errar por mim mesmo", pois se tivésse nascido na Índia teria sido um celibatário sem salvação. Ou, se dependesse dos meus pais, bem mal arrumado no amor. 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Faz zum-zum pra mim

Saudações, leitores amados.

Aqui quem vos escreve é seu abelho-carneirinho preferido. Agora, fazendo zum-zum pra vocês.

Ou melhor, pra mim mesmo.

E olha que antes achava que quem fazia zum-zum era meu refrigerador (declamando um eterno e repetitivo "o meu refrigerador não funciona").  

Mas não. Descobri que o tal zum-zum é tinnitus. Bem que esse som que ali não está - mas insiste em aparecer - poderia ser de aplausos, ou pessoas me ovacionando enquanto ando na rua, mulheres me professando desejos indizíveis em público, ou pessoas dizendo o quanto me gostam ou admiram... mas que nada: sons que só me visitam no silêncio da noite, entrando de baixo das cobertas comigo e me dizendo suavemente ao pé do ouvido.. "zuuuuuuuuuuu".. 

Afff... esse amor monótono que nada de novo me declara. Falasse, antes fosse, que me quer, que me gosta, me deseja, que vai me abandonar assim que eu deixar de ter um sustento... mas só fazer zum-zum pra eu ver, fazer zum-zum pra mim? Não... assi-sim ni-ninguém aguenta. Assi-sim ni-ninguém dorme direito (eu muito menos). 

Me ame: ok, faça como queira.
Mas me deixe.
Ainda mais agora que sei que você está por perto, indesejadamente.


sábado, 27 de novembro de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #119: só poderia ser amor... (ou, talvez, o contrato)

[Bato na porta]

- Professor boss? Are you there?

-Yeeeessss

[Ele responde, com um yes bem longo]

- I have something to tell you. Well... you know... it's hard to say this, but I'll be leaving next year, in February...

- Ohh!!! Good! So, you have found your next position...

- No. Actually, I have not.

- How are you leaving then, if you have no next job?

-Well.. it's complicated. I just think that..

-Because in general people find a job before leaving their current job.

-...but I..

-Because you know that you can stay longer if you want, we'll be happy to have you here 'til the end of your contract..

-...but...

- What don't you do some more thinking and let us know? 


[Pronto, falei! ]

[Fiquei surpreso com a reação do meu chefe, quase "paternal", diria]

[Inesperado para um japonês. Foi bom, sentir-me benquisto onde trabalho, numa cultural tão different da minha.]

[Ainda meio assustado diante das minhas próprias deliberações, mas... acredito que esse barco já saiu do porto e a ele não volta mais.]

[...rumo ao desconhecido mundo lá fora, aqui vamos nós]

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Love in the time of crisis


Reinterpretação de "serious love", de Roy Lichtenstein.


[Ficaria mais confortável se fosse a mulher falando, mas... acho que é justo dizer que todo lado de uma relação tem suas condições.]

[Com isso, tento ser honesto também, ao admitir que relacionamento é algo a dois, e são dois os universos que se encontram nele.]

[Em todo caso, sempre achei uma piada esses ads em que o "terms and conditions apply" é dito bem rápido ao fim da propaganda, ou em letras diminutas num cantinho... Depois de tantos amores que naufragaram antes de chegar na praia, talvez possa dizer que  relacionamentos não são lá muito diferentes disso.]

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #116: A-RAS-SU-KA

 Alaska. A-RAS-SU-KA. Grande e vermelho. Vejo daqui, da minha janela.

Tão bom sair de casa. Andar por outras ruas. Desprogramar. Isso, desprogramar uma vida de rotina, de atalhos que nos fazem escorregar pelo mundo de maneira óbvia, sem mais explorá-lo. 

Alaska. A-RAS-SU-KA. Um pedaço de gelo sobre a cabeça. É que bati agora há pouco, numa quina de um móvel. Pqp. Sangue. Ao menos com tão pouco não fico mal. Aguento. Sigo. tomo rumo. Lá vou eu, pelas ruas com um saquinho de gelo na cabeça. Não mais perdido, pois as ruas começam a me ser um pouco mais as mesmas. 

Quanta gente mais velha... pouca gente nova. Me pergunto oque é crescer numa cidade tão pequena. Ando. Olho pra dentro dos poucos cafés. Crianças no pós escola, sentadas, estudando juntas. Uns poucos jovens, 20-30 e poucos anos, descolados.... "-Ahh você vem de AAAA você conhece XXX-san? Um que usa um chapéu bem grande? " Pelo visto todos os descolados de cidades pequenas se conhecem nessa pequena terra do sol nascente.  Me pergunto oque seria ter ficado. Oque seria andar sempre pelas mesmas ruas. Oque nos faz ir pra tão longe, ficar tão perto, partir, voltar....

Alaska... você já foi?! Dizem que é lindo. um casal de amigos estão com planos de se mudar pra lá. Uma amiga, ex-roommate, mudou pra lá uma época. Vivia me convidado pra ir visitá-la, conhecer o então namorado e curtir uma neve. Achei melhor não ir... ela era meio doida. Me perguntava oque levaria uma pessoa pra um lugar tão remoto. Beleza? Curiosidade? 

Será que o Japão é remoto? Será que eu sou descolado?

Estava lendo um livro, da Esther Duflo e do esposo dela, em que ela fala sobre as origens de tanta migração, do porque das pessoas migrarem etc. Comecei a me perguntar se o meu motivo para migrar não foi outro senão uma anomalia. Anomalus migrantis: espécie estpupida que percorre o mundo a esmo, não foge de guerra, de violẽncia, de perseguição política... hei... será que fujo? Da pobreza, da desigualdade abissal que separa ricos e pobres no Brasil, da fome estridente que salta aos olhos e dói na alma, da estupidez das elites aristocráticas e egoístas (bom...nisso o Brasil não está sozinho), da classe média sempre-assustada-com-medo-de-perder-o-pouco-que-tem, das favelas que sobem os morros?!?! 

Faz tempo que não nos vemos, Brasil.... será que você mudou algo? Será que estou sendo injusto contigo? Será que teus abraços mornos não viraram nada mais, nada menos que um toque frio "à la Alaska" de um parente distante que se ve uma vez a cada 3 anos?

Era só pra ser uma viagem. Marcar o fim de um ciclo. O fim de uma era. Alaska? Bem gostaria: ver um alce, um urso, tomar um suco de berrys com gelo da rua... férias...yasumi... pena que tá acabando.




quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Intimidade

Foi num sonho. Uma moça com a qual saía enquanto no Brasil, há muitos e muitos anos. 
Conversávamos como se estivéssemos de saída, como se passássemos muito tempo próximos (emocionalmente). Confortáveis um com o outro, diria. 

Íntimos. Ou quase isso, como vocês verão em breve ;)

Ela me descrevia oque trouxera pr'aquela viagem, oque queria fazer, com a casualidade de encontros múltiplos que só o universo dos sonhos nos permite (dados tantos milhares de quilômetros de distância). "Trouxe o vestido...." e por aí vai..

A conversa se estende, e vai para o banheiro,  onde eu estou escovando os dentes e ela falando comigo. Aí, no auge da conversa-intimidade, ela se senta e faz xixi.

Isso. Como se não houvesse amanhã ou barreiras entre nós. 

No sonho, oque mais me deixou surpreso, foi a súbita sensação de estranheza daquela cena. Me senti como no "eyes wide shut", do Kubrick, logo no comecinho.



Eyes Wide Shut, by Stanley Kubrick (1999) 
Opening scene (with Nicole Kidman & Tom Cruise)

O mais curioso foi, dentro do sonho, ter essa percepção da camada de intimidade - meio não desejada, mas ainda assim intimidade - que aquilo implicava. 

Há uma cena parecida num outro lugar, um livro do Garcia Marques (o Amor nos tempos do cólera, acho): a esposa está passando mal, aí o marido a ajuda a vomitar e tudo o mais. Aí, ele também meio bêbado, se levanta cansado depois de acolhê-la, e agora ele vai e faz xixi na frente dela. Acho que nunca havia me dado conta da estranheza da cena. Se não me engano a cena é narrada sob o ponto de vista dela, que relata a força com a qual ele urina, a masculinidade daquele barulho, daquela brutalidade.... 

....vai ver só "acordei" pra esse detalhe enquanto dormia, ao sonhar.

domingo, 29 de agosto de 2021

A encantável geometria do desconhecido

 Já vi de tudo nessa vida. Bom, nem ouso enumerar e já me corrijo: já vi muita coisa. Não, me corrijo mais uma vez: já vi algumas coisas nessa vida. Umas poucas, digo mais humildemente. Vai ver por conta disso me surpreenda tão pouco com oque vejo: nada é novo, tudo é uma reelaboração de uma velha piada. Viver é um marasmo constante. Talvez, a arte de viver bem seja saber extrair poesia da seiva da mesmice.

Só sei que ontem, num repente de meio de conversa de vídeo, tive contato com algo novo: fui apresentado a um vibrador feminino.  
Fiquei intrigado: como é que.... por que será que.... como... porque tem esse formato? Fiquei mudo. 

Me senti como um ponto diminuto se deparando com uma geometria inimaginável. Como uma equação relativística que diz que espaço e gravidade se imiscuem como dois amantes inseparáveis, ali estava algo que - talvez mais surpreendente que qualquer desses fatos científicos - me estarreceu. Como será que um se conecta no outro? O peso de quem faz oque se curvar e mudar de forma? Incrível.... um objeto-pedacinho, ponto de curvatura infinita, vibrando sabe-se lá como e onde, em busca de uma orgasmica singularidade.  Nem Einstein explicaria como funciona.

Sei lá... tô meio perplexo ainda. 

[Um perplexo diferente do post anterior, diria.]

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Pessoa-estátua

Por estes dias fiquei a me perguntar oque havia me deixado perplexo nessa vida. Na verdade me perdi um pouco mais, me perguntando como avaliamos um evento que nos atinge, previsível, ou algo inesperado, fora de qualquer horizonte de possibilidades vislumbradas. Me lembrei de uma surra que quase levei de um colega de escola que, eu então jurava, não seria pário para meus golpes fajutos de karate. Ou a prova de programação linear (otimização) durante a faculdade: fiz piada de todo o drama dos meus colegas de sala (que diziam que a matéria era difícil), disse que eram medos infundados, que a prova fora mais fácil do que imaginava, e até razoável.... e que jurava ter tirado no mínimo 8. Fui contemplado com um inesquecível 2.2., que carrego até hoje na memória.

Perplexidade, meus amigos...perplexidade. Um balde de água fria que nos demonstra o quanto nos aferramos a crenças infundadas, a idéias que no fundo não têm lastro. Talvez,nesse aspecto, a perplexidade seja um pouco como estarmos desnorteados: perdemos a total dimensão da direção que estamos indo ao nos darmos conta de que o compasso que nos guiava apontava na direção errada.

É curioso ter consciência da minha perplexidade. Talvez mais ainda é ver a perplexidade alheia. Vejo por estes dias a queda de Kabul, no Afeganistão, e a surpresa de todos que até então diziam que isso não aconteceria tão cedo (mesmo os jornais, até 2-3 dias atrás diziam que talvez demorasse um mês ou mais): Kabul jaz aos pés do Taleban neste momento. 

Me compadeço, me dói ver tudo isso.  Penso nessa surpresa toda e me pergunto o quanto dela não se dá por vermos as coisas superficialmente. Como as pessoas-iceberg que somos, assunto que discorri sobre no post anterior, há situações-iceberg, das quais achamos que se trata de um pequeno gelo mas que nos rompe o casco e nos naufraga em um piscar de olhos. Será que nos pautamos tanto assim em ver as coisas pela superfície? Nos aferramos tanto a imagens e a crenças que no fundo não tem valor quantitativo, qualitativo, ou causal, algum? 

Me lembrei de algo que ouvi o José Saramago falar há alguns anos, e que ele cita numa palestra que deu. Ele fala sobre suas obras, e faz umas referências ao livro Ensaio sobre a Cegueira:

"....durante catorze anos, me tivesse dedicado a descrever uma estátua. O que é a estátua? A estátua é a superfície da pedra, o resultado de retirar pedra da pedra. Descrever a estátua, o rosto, o gesto, as roupagens, a figura, é descrever o exterior da pedra, e essa descrição, metaforicamente, é o que encontramos nos romances a que me referi até agora. Quando terminei O Evangelho ainda não sabia que até então tinha andado a descrever estátuas. Tive de entender o novo mundo que se me apresentava ao abandonar a superfície da pedra e passar para o seu interior, e isso aconteceu com Ensaio sobre a Cegueira. Percebi, então, que alguma coisa tinha terminado na minha vida de escritor e que algo diferente estava a começar. 
O ensaio sobre a cegueira é a história de uma cegueira fulminante que ataca os habitantes de uma cidade. Poderia tratar-se de uma epidemia, de uma praga, isso não está explicado no livro nem importa, a única coisa que se diz é que a gente perde a visão. As consequências de uma cegueira com estas características são óbvias num mundo que, no fundamental, está organizado por e para o sentido da visão: todas as catástrofes imagináveis, e outras que nem queremos imaginar, acabariam arrasando a vida não apenas de um ponto de vista material, mas também destruiriam da noite para o dia todos os valores de consenso social, todas as regras, todas as normas. O homem converter-se-ia definitivamente em lobo do homem. Mas o autor crê que já estamos cegos com os olhos que temos, que não é necessário que nenhuma epidemia de cegueira venha a assolar a humanidade. Talvez os nossos olhos vejam, mas a nossa razão esteja cega. Não somos capazes de reconhecer que foi o ser humano quem inventou algo tão alheio à natureza como a crueldade. Nenhum animal é cruel, nenhum animal tortura outro animal. Têm de seguir as leis impostas pela vontade de sobreviver, mas torturar e humilhar os seus semelhantes são invenções da razão humana. O livro já não se empenha na descrição da estátua, é uma tentativa de entrar no interior da pedra, no mais profundo de nós mesmos, é uma tentativa de nos perguntarmos o quê e quem somos. E para quê. Provavelmente não existe uma resposta e, se existisse, seguramente não seria eu a pessoa capaz de oferecê-la. No fundo, o que o livro quis expressar é muito simples: se somos assim, que cada um se pergunte porquê."

Sabemos que somos propensos a uma infinitude de enganos, de apego a superficialidades, de jogadas de poeira pra debaixo do tapete, de apego a superficialidades... uma espécie de cegueira diante das atitudes dos outros, de situações, de nós mesmos, de fatos que ou  insistimos em negar ou que simplesmente não nos estão disponíveis naquele momento. Seria a superficialidade parte da condição humana? Parte da sua condição de pobreza intelectual, ou subserviência do seu pensar diante do seu sentir? Parte do avaliar só por cima, do achar que as pessoas são felizes pelas fotos que têm em rede social? De acharmos que alguém é importante pelos títulos que tem? 1

Em geral não existem miopia ao olharmos em retrospecto. Infelizmente, só quando olhamos pra trás, pois a cegueira parece ser algo intrínseco a nossa natureza... e vive nos nossos olhos a todo o momento.


1 Recentemente, lendo um jornal brasileiro, encontrei uma coluna de um "bonitão right-wing", presidente de um instituto do qual eu nunca ouvira falar (que, pelo vim a saber depois, é insignificante mesmo). Instituto este que ele mesmo fundou. Anyway, pelo visto a idéia atrai olhares, e sempre vai bem no Linkedin te o título de "head of", ou "presidente/CEO" 😛  

  

 

terça-feira, 27 de julho de 2021

Entusiasmos numéricos, ma non troppo (parte 1)

Há algum tempo atrás aconteceu interessente: numa conversa por telefone com minha mãe, esta me contava entusiasmada sobre um presente que comprara para o seu neto (meu sobrinho). "-São uns bichinhos de esponja que crescem na água!! Ele vai adorar! Poderá brincar no banho e quando for pra praia. Diz na embalagem que eles crescem 600%!! ".

Ouvi aquilo e fiquei quieto. Quem sou eu pra ficar dando aulas de porcentagens e seus significados pra alguém? Fiquei na minha... a Matemática te dá essa virtude meio ambivalente (pra não dizer chata): a de te roubar a poesia de algumas coisas e de adicionar mais cor à outras... um tradeoff meio estranho mas que, no fim das contas, quem trabalha com números acaba por aceitar.

Até aí tudo bem. Conversa vai, conversa vem.... e minha mãe volta a insistir nesses 600%. Aí começou a dar coceira... pqp... será que eu falo algo? Fui desviando a conversa, andando pelas beiradas para não cair nesse abismo das divergências familiares. Oque: eu, ser chato? Nunca! Eu estava na minha, e ali fiquei enquanto pude. 

Resisti mais um pouco: ouvia minha mãe animada com a próxima visita do neto. Num ato zen, ouvia, imaginando como meu sobrinho deve estar, e me perdi em saudades de tudo e todos. Sustentei-me firme e bravamente. Mas aí, quando menos esperava, palavras duras me atingem como uma flecha. Uma não: 600. 

"-Mãe, me desculpe te dizer, mas 600% não é muita coisa... não sei como mediram isso, mas isso é no máximo 6-7 vezes o tamanho do brinquedo... não vai ficar do tamanho de...sei lá, um tiranossauro que não vai caber na banheira..."

[Silêncio]

Por alguns segundos ficou aquele silêncio no ar... um clima de decepção, como num presente de natal que não corresponde com o imaginado, como se uma esperada bicicleta acabasse virando uma meia mal embrulhada.... ou um eterno 7 a 1 que não acaba. 

Me senti um chato.

Mãe, me desculpe... da próxima fico quieto e falo pra vocês tomarem cuidado. 
Digo que é capaz do boneco crescer tanto que não caberá no apartamento. 
Ou que ganhará vida, e que com um carnívoro tão mortífero não se brinca.
Ou que o peso do boneco pode colocar a da criança em risco....


sexta-feira, 18 de junho de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #114: um passeio no jardim dos privilégios

 Tomei a vacina hoje cedo. Primeira dose.

Olhei ao redor: eu dentre tantas pessoas muito mais velhas, gente de cadeira de rodas, pessoas com seus filhos e cuidadores, entre outras coisas. Eu estava ali porque consto como pesquisador visitante numa universidade japonesa. Sou grupo prioritário.

Nem titubeei muito nessa corda bamba entre o prioritário e o privilegiado. Me vi e vejo neste último grupo. Me senti meio mal, mas feliz, muito feliz em estar ali. Acho que tão feliz que talvez explique o porque eu ter escrito errado meu email de todos os dias no formulário eletrônico (sorte que era o "email backup"), e ter esquecido no escritório o documento que comprova que moro aqui (que carrego todos os dias, mas que hoje precisei pra um outro evento).

Em suma: um privilegiado afoito, mas feliz. 

Mas afoito e provilegiado. 

Mas privilegiado e reflexivo.

Fiquei com tudo isso na cabeça enquanto olhava ao redor. Tudo tão rápido, mal tive tempo de processar. Será que fico feliz em ver isso como um vislumbre de dias mais "normais" no futuro.. Normal nada nunca é ou foi, né? Talvez um "normalmente mais igual ao que era antes" talvez aplique... 

Fiquei pensando no Brasil, no que as pessoas lá estão passando. Nos desvarios desse governo que lá impera, no que foi meu caminho pra chegar onde estou (fisicamente, não no que diz a status: esse é nulo)... sorte. Provilégio e sorte.

Por estes dias me lembrei do MAUS, do Art Spiegelman, Há uma parte do livro que poucas vezes discuti, em que ele comenta sobre o fato de ser filho de sobreviventes de campos de concentração. Ele narra uma conversa com seu terapeuta, onde eles se debruçam sobre essa tênue linha de argumentação sobre os pais deles estarem ali porque foram mais fortes e resistiram às intempéries dos campos onde estavam. Aí o terapeuta vira pra ele e pergunta/fala: " é claro que tua existência depende da existência dos teus pais, deles terem se encontrado... mas o quão fácil é pra você aceitar que eles simplesmente sobreviveram por sorte?"

Fiquei pensando nisso... nessa ilusão cognitiva que veio tentar flertar comigo hoje, a de um  "-estou aqui porque percorri o trajeto tal" e uma outra narrativa, a de que simplesmente tenho sorte, uma sorte indissociada de um privilégio, dentre os muitos outros que carrego comigo.

Parece que discuto, tento descrever a sensação, mas ando em círculos. Assim como entrei, saí como se a vida fosse a mesma, como se o sol ainda ardesse a minha pele, com as mesmas preocupações idiotas de sempre "oque vai ser de mim depois daqui? Oque vai vir depois daqui?". Me senti mal e bem pelo ocorrido. Me senti flutuando nesse mar de ambivalências que a vida é, onde navegarmos por dubiedades é requisito necessário a todos. Segui nublado ao longo do dia, com breves pitadas de sol: ainda que reflexivo, não sabia como fazer diferente senão celebrar comigo mesmo o fato. 

Talvez, de certa maneira, seja sim uma vitória dos humanos como espécie, que busca formas de não ser erradicada do planeta que esta incessantemente destrói. Talvez eu só tenha que ficar quieto, ir dormir mais cedo, e aguardar pela segunda dose.


sábado, 5 de junho de 2021

Repita comigo, pequeno gafanhoto...

Sabe uma coisa que me deixa meio impaciente? 

Sabe?

Gente repetitiva. 

Aquela tia que fica falando mil vezes que o presidente não presta (ok, é óbvio, concordo)... mas é mesma coisa que ficar repetindo "a Terra é redonda" infinitas vezes. 

Vai ver é coisa de família... como é a tua? Por exemplo: meu pai é uma pessoa que tem o dom supremo de ser super repetitivo. Toda vez que o vejo quando visito o Brasil lá vem uma enxurrada de perguntas estapafúridas: "-E aquele vizinho que morava no andar de cima... que tinha um cachorro e uma esposa?".Perguntando sobre um apartamento onde morávamos há 25 anos atrás. 

E como uma sequência de clássicos que um velho cantor deve cantar para agradar seu público, meu pai sempre traz consigo as perguntas clássicas: "-E o Júlio?"... (que faleceu há uns 10 anos, e há 10 anos eu falo pro meu pai que ele faleceu. 

Em vão. 

Tento me devencilhar do assunto, mas sou fisgado com um jeb no queixo que me joga às cordas: "-Te falei do dia que eu encontrei o Júlio ali na praça da República?

Olho pro teto.... me pergunto se há alguma toalha branca a ser jogada para me salvar daquela conversa.

Aí me bate aquela angústia de me ver nessas conversas rasas de boteco, vendo e ouvindo aquelas mesmas perguntas sempre ali, sentadas na mesa com a gente. "-Minha vez!", uma delas diz, e se joga na mesa, querendo ser perguntada... "-E a filha da Maria... como é que ela se chamava mesmo?"

Fico pensando nisso e me exaspero um pouco... onde está a poesia disso tudo? Será que existe uma pitada de absurdo nisso, um quê de Ionesco ou de Becket na minha vida/família? (Seriamos nós rinocerontes?!) 

No meio de tantas reflexões sobre o tema (uma das quais postei aqui) vim a perceber há um tempo qeu eu, também, sou um repetitivo inveterado. Daqueles sem conserto: frequento os mesmos restaurantes, conto as mesmas piadas (minha mãe é mestra nisso), uso as mesmas expressões, vou sempre nos mesmos cafés... carrego comigo uma inércia que muitas vezes me aparece anormal. Me pergunto se outros seres humanos... digo, seres mais humanos que eu sofrem isso também. 

Será?

Muitas vezes me questiono.. me pergunto se essa limitação na verdade é uma intransponibilidade de qualquer caminho. Uma pedra no meio da trilha pro cume de qualquer montanha que não pode ser removida. Me lembro com cautela do "Zen in the art of archery", quando o autor fala de quando seu mentor se dá conta de que ele estava tentando "enganá-lo", usando uma técnica de tiro (a maneira de pegar a arma) pra poder atirar flechas e, finalmente, melhorar sua pontaria: o professor pegou o arco, caminhou até um canto.. pensou... e disse pra ele ir embora. A repetição era oque ele poderia oferecer, e que se o objetivo dele era só "conseguir algo", um "diploma", que este já lhe estava dado. Nem preciso dizer: o autor se desculpou, voltando pro esquema japonês de repetir, repetir, tentar, até assimilar.

Talvez, no fundo, seja uma limitação da qual muitos sofrem mas poucos se dão conta. Ou poucos se dão conta de como as repetições são tão cruciais na construção de muita coisa. Uma aliteração, um efeito que reverbera quando usado em demasia, um fenômeno que se amplifica como um olho de furacão, a adoção de um outro ponto de vista depois de uma segunda, terceira, ou mais leituras. Vai ver repetir é um pouco oque Fernando Pessoa dizia: é entrar no mesmo rio, sem que este rio seja o mesmo.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Errando da maneira certa

Estava pensando por estes dias em como há coisas que fazemos e dizemos tendo aquela duvidazinha de estarmos ou não correto: ao citarmos um livro sem o termos lido, ao tirarmos conclusões sem termos realmente ido à fonte etc. 

Há tempos quero falar sobre o caso. Primeiramente, me veio a idéia por saber de um político tailandês que citou o "animal farm" do George Orwell de uma maneira tão distorcida que ficou óbvio que o sujeito não havia lido o livro. Recentemente, de novo com George Orwell, houve um caso semelhante nos eua (well... não tão recentemente assim... pra você ver como eu estou em dívida e atraso entre idéias e atividade de escrita neste blog).

Tudo isso me levou à seguinte pergunta: oque será que eu falo sem saber com certeza do que estou falando? Demorei bastante... em geral a gente se protege de pensar nessas coisas, mas encontrei algumas coisas:

  • Farther and further: deve haver uma diferença, mas eu nunca sei ao certo qual utilizar.
  • Porquê, por que, por quê, porque: você saber quando usar cada um deles? Sabe o porquê? (ai, que quase-piada besta!)
  • Há um em japonês que eu sempre me embanano todo: nin-niku, kin-niku, gyu-niku. O último eu sei que é leite. Os dois primeiros um é alho, o outro é músculos.... eterna dúvida.
  • Alter-ego e super-ego: toda vez que falo um fico me perguntando se deveria ter usado o outro.
 Uma coisa curiosa é que encontrei (depois de observar outros fazendo isso) uma maneira de lidar com essas dúvidas: eu tento "cometê-las com ruído":  pronuncio meio sem clareza, um pouco mais rápido que o habitual; assim as pessoas não têm a certeza se cometi um ou outro.1 

Mas claro, uma hora alguém percebe, ou ri da tua cara, como aconteceu uma vez comigo, quando perceberam que eu confundia "fell" com "felt": às vezes a "técnica" acima sai pela culatra e você se lasca ... não podia ser mais Orwelliano.




1 Diga-se de passagem, este artifício "maquiavélico" não foi elaborado por mim. Aprendi com um amigo americano que morou no Brasil e dava umas despistadas dessas de vez em quando ao falar português.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Quase sempre sereia

Quando divago por aí - oque não é raro - sempre me vem à cabeça esses seres míticos que são as sereias: os homens caem de amores pelas mesmas mas acabam morrendo afogados ao seguí-las pro lugar de onde estas vieram.  

E olha, não acredito que sereias estejam mal intencionadas! Acredito que muitas querem mesmo levar uns marujos bonitões pra casa, apresentar pra pais e amigos, levá-los pra comer pastel na feira, dentre outras coisas.... mas, quando lá chegam, reparam que não: "-mais um pretendente que não conseguiu completar a viagem".


 É um pouco desolador essa estória, onde o palco do único encontro possível é essa ponte onde os dois se encontram no meio do caminho, impossibilitados de seguir adiante.  Por outro lado é quase engraçado - ou mesmo uma piada de mal gosto - imaginar o simbolismo das coisas que acontecem nas nossas vidas, pois a mulher mais interessante que conheci nesses últimos anos calhou de ser apelidada por mim (por outros motivos) como tal: sereia. E, como no caso do marinheiro que se prende ao mastro do barco para não se perder em desvarios e naufragar diante de um canto tão adocicado, cá estou eu, me degladiando com a razão há um bom tempo, me debatendo entre ter os pés no chão e o coração logo longe, num mundo do qual mal imagino poder fazer parte.

Outra coisa que sempre me estarrece nessa estória de sereias é o fato de que nem um nem outro deixa de ser (ou mesmo pode deixar de ser) oque é para estar chegar ao outro lado: há uma obstrução intrínseca às suas naturezas - de homem, de sereia - e, mesmo diante do óbvio, os dois lados se deixam levar pela maré das risadas, do conforto, da companhia que um oferece ao outro.

Navegador de muitas viagens, já me amarrei no mastro umas tantas vezes. Em todas eu grito, falo, perco a razão, sofro, mas recobro o juízo pra ver que sim, lá se foi mais uma sereia que passou pela minha vida. Olho pro meu barquinho, poupado de um triste naufrágio, e me pergunto se algum dia, mesmo nessa vida cercada de mar por tantos lados, hei de encontrar algum ser que se adeque a mim, e que entenda que talvez seja assim, entre dois mundos, que muitos amores existem, tomando forma e vida em meio às imperfeições daquilo que os cerca.