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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Do outro lado da mesa.... ou quase

Foi na sexta-feira. O acaso e a falta de comida em casa me levaram aos restaurantes de sempre. Na verdade, levariam, pois acabei passando na frente de um outro no qual nunca havia almoçado e por lá fiquei para matar a fome.

 

Sentei, comi... o ambiente claro... uma familiaridade distante.. porque será? Logo me veio a lembrança da ultima vez em que ali fora: eu e ela ali sentados, assistindo um amigo tocar bateria num show. Olhava pra mesa com aquele casal, cheio de sonhos e perspectivas, sem saber que alguns amos mais tarde lá estaria eu, do outro lado do salão, quase do outro lado da mesa, os observando. Me senti como naquele conto do Borges, onde ele senta em um banco e, no extermo oposto dele, senta-se ele mesmo, só que mais velho. O que conversariam? Que conselhos o Borges mais velho daria ao Borges mais novo?

 

Fiquei me imaginando naquela situação. Atravessaria o salão para alertá-los dos perigos, para dizer que era melhor se adiantarem e se separarem ali mesmo, sem se prolongarem tanto? Chamaría os dois de canto pra dizer para tomarem cuidado, que o perigo morava logo ali, nos detalhes, nas palavras, no beijo negado, na atenção não compartilhada, nas palavras atravessadas, na falta de paciência e carinho?

 

Talvez ficasse só em silêncio mesmo, observando os dois caminharem para o destino que tiveram. Como numa profecia mitológica, onde nada que se tentasse prevenir o fatídico de uma previsão pudesse ser feito. Era pra ser, era pra ser...  

domingo, 22 de junho de 2025

Licking my wounds #4 - It ain't me, babe

Go away from my window
Leave at your own chosen speed
I'm not the one you want, babe
I'm not the one you need
You say you're looking for someone
Who's never weak but always strong
To protect you and defend you
Whether you are right or wrong
Someone to open each and every door

But it ain't me, babe
No, no, no, it ain't me, babe
It ain't me you're looking for, babe

Bob Dylan, It ain't me, babe 

   

 

Parte do processo de "cicatrização" ao fim de um romance passa pela aceitação de que aquilo que se tinha não existe mais, de que não era pra ser ela, de que não era pra ser você. O luto pelo que se perdeu. Não sei muito bem como caracterizar isso, mas sei que minha cabeça fica esquisita nesses dias: um misto de solidão com uma sensação estranha, como se um balão esmagasse teu cérebro, não te deixando pensar direito.

 

Com a aceitação vem também várias coisas: a certeza de que não era pra ser, a certeza de que poderia ter sido, a certeza de que você está se contradizendo em diversas coisas que elabora, teorias sem pé nem cabeça para justificar algo sobre o qual não se tem controle nenhum: a vontade do outro. Acabou. C'est fini. Foi. Vaza. 

 

E assim tudo se desenrolou. Tem um mês e 4 dias já. Quanta coisa mudou de lá pra cá. Por dentro, ainda aquela saudade, dividida dentro de você com as dúvidas, com a sensação de injustiça, com a sensação de que havia um impeditivo mais profundo a tudo aquilo que gostaria de ter feito... estrutural: não há como mudar certas coisas ou pessoas. Você tenta ser paciente e aceitar... mas ainda é difícil.

 

 

sábado, 7 de junho de 2025

Trocando em miudos

"Mas fico com o disco do Pixinguiha sim... o resto é teu."
Chico Buarque, "Trocando em miúdos.
 
Voltei hoje, cheguei de viagem. Dias longe, que me pareceram um refúgio momentâneo diante de tantas mudanças. 
 
No caminho de volta a piada do motorista: "caramba... sagitariano com ascendente em aquário!". Confrontado pelo meu porquê, ouço "você vai ter um milhão de problemas pra se relacionar". Dito logo pra mim, discrente, cientificamente ouvindo tudo aquilo e não acreditando em nada, mas vendo o quanto fazia sentido "..porque você é uma alma livre, independente.." bla bla bla... parecia minha ex falando.. uma dissonância cognitiva gigantesca: o cérebro diz que não faz sentido, já os fatos recentes...
 
Será que foi isso que encheu a tarde de nuvens? Cheguei em casa... a marca do quadro que sumiu da parede, as caixas jogadas pelo chão da sala, a geladeira vazia me lembram de que tudo isso é presente, mas já é passado. Olho pra cozinha em silêncio, a porta da sala que não vai abrir para mais alguém chegando em casa... imagino que ela esteve aqui há quanto.... um dia? hoje cedo? ontem?!  Diante dos olhos me passa um filme no qual vejo tudo o que poderia ter sido, o que não foi, o que tentei, os sorrisos, as brigas, as possibilidades frustradas, as risadas, os pés quentinhos no inverno, as discussões por coisas diminutas. 
 
Me deparei com algumas fotos no celular; não deixo de observar um sorriso aqui, outro ali... me pergunto quando foi que realmente deixamos de sorrir um pro outro. 
 
Não apaguei nenhuma ainda, mas acho que deveria.


segunda-feira, 3 de junho de 2024

Areias do tempo

Há tempos não relato nada neste blog. Talvez seja porque os dias se sucedem como se fossem os mesmos? Ou os acontecimentos ao meu redor, que acontecem mas não capturam minha atenção? Será que ainda sei escrever? Me espressar, dizer o que sinto, narrar o que vejo e se passa?


Me é estranho ainda estar no Brasil. Minto. Um tipo diferente de... digamos, uma "estranheza familiar", se é que isso faz sentido. A parte que não me é estranha, mas sim nova, é lidar com sentimentos com os quais antes havia tido pouco  contato: ver a ação do tempo nas pessoas que amamos, reencontrar os parentes mais velhos e sentir a vitalidade se esvaindo deles bem aos poucos, como uma ampulheta que marca o tempo passando... grão em cima de grão, de maneira irreversível. 

Não deve ter nem uma semana que o pai de uma amiga próxima faleceu. Mal temos conseguido nos falar desde então: ela me diz que sente um vazio enorme por dentro, que não consegue sentir que tem algo interessante dentro de si pra trocar com o mundo. 

Até aqui não aconteceu, mas fico me perguntando o que vai ser quando alguém muito próximo a mim se for. A dor que ela relata, curiosamente, me parece uma dor minha, embora me esforce para não sofrer por antecipação, viver as coisas no seu devido tempo. Mas é difícil: a cada encontro com os pais, perceber uma nova dificuldade que aparece quando eles se locomovem, uma palavra que passou a ser difícil de ser pronunciada, ou outras palavras esquecidas e que fogem à memória.

Não adianta muito evitar, tentarmos nos esconder: o tempo chega, não adianta ficar dando bronca tentando fazer com que comam bem, ou que exercitem a memória fazendo sudoku. Nos resta aceitar que o tempo vai consumindo tudo, aos poucos, como uma areia leve que vai tomando casas de uma praia e as tornando de volta em duna. 

Dizem no budismo que a maior fonte do nosso sofrimento é nossa incapacidade de aceitarmos as coisas como são, o nosso apego às coisas, sem levarmos em conta que estas perecem. Reflexão e aprendizado... longo caminho.

 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Queen of Hearts

 Há um trecho no Alice in Wonderland do qual sempre me lembro.

Ele me veio à cabeça hoje durante uma conversa. A empresa, como várias dessas tech companies pelo mundo, fez um lay-off massivo hoje. Minha cabeça foi poupada, mas a de alguns amigos não. 

Foi triste. Foi triste demais.

É algo horrível ter que ficar pra trás e estar no meio de um monte de gente que discute de maneira unilateral o que aconteceu com uma pessoa que não tem mais voz ali. Isso sem falarmos em casos em que a decisão não parece ter sido motivada por nada lógico: produtividade? Ou seria corte de verbas? Ou seria falta de alinhamento com alguma política imaginária da diretoria? Não sei... me pareceu uma grande arbitrariedade que, por natureza, amanhã pode nos atingir pelos mesmos motivos desconhecidos.

Um dia cheio, que correu a passos lentos, vagarosos e pesados. Ao fim do dia, o corpo sobrevive em cansaço, um pouco de medo, onde várias pessoas se olham assustadas e pensam: será que serei o próximo? 

Anos atrás, um amigo trabalhando numa empresa me relatou algo parecido. Disse-me então que vários colegas nem puderam entrar mais na empresa, que suas mesas foram limpas e suas coisas entregues a eles. E que, neste dia, ele chegou em casa tão cansado que nem acendeu as luzes de casa: foi direto pro sofá dormir. 

À época - ainda na mini apple - eu ficava me perguntando oque seria aquilo e me via tão, mas tão distante daquele mundo. Hoje, pareço ter os dois pés nele. No caso, diferentemente do meu amigo, minha casa é meu escritório, e não tive um sofá pro qual chegar: suportei essa notícia aqui mesmo, embora quisesse tê-la deixado do lado de fora dessas paredes. 

Infelizmente, não deu. As paredes, maculadas, agora parecem sujas dessa realidade que não consigo mais deixar de ver: sei que está ali, e que oque antes era desconforto agora virou uma quebra de confiança. Quem consegue ter voz num ambiente onde se tem medo? 

"Off with their heads".

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

O pleito, as pestes e a copa do mundo

Anda-se pelo Brasil nestes dias e se vê o seguinte: "patriotas", pessoas vestidas com a camiseta da seleção brasiliana ou envolvidos na bandeira. Pessoas que tẽm se encontrado na frente dos quartéis do país para pedir uma intervenção militar, já que clamam que as eleições foram roubadas, ou que o Brasil há de virar um país comunista, ou qualquer outra loucura na qual acreditam.

Loucura é ver isso e saber que existe um universo paralelo, do qual só vemos essas manifestações espúrias. Seres que parecem sair sabe-se de onde, de que beco, de quais esconderijos, para surgir à tona, clamando espaço forçosamente de maneira que todo aquele que os outros têm deva ser anulado ou extirpado.

O Brasil desses brasilianos me assusta. 

Daqui até janeiro, quando o governo muda, falta um mês. Até lá, menos angústia do que antes. Ainda assim, me dá coceira imaginar oque há de acontecer nos 4 anos que temos adiante. Mais loucura? Donald Trump reeleito? Steve Bannon dando mais consultorias pra extrema direita tupiniquim? Scary...

Olha pro Brasil do futuro com menos medo do que tinha antes. Claro, não deixei de ver o abismo insuplantável que separa o país onde vivo agora do futuro pro qual o mundo parece seguir: o Brasil há de chegar lá... com muito atraso, uns 1000 anos depois de todos os outros países do Norte. Acho que temos que perder umas mil copas do mundo antes de nos entusiasmarmos de maneira besta com gols de jogadores milionários e idiotas, ou dançarmos como se não houvesse amanhã a cada carnaval, tudo enquanto o congresso vota na surdina as leis mais estapafúrdias e que só exacerbam a desigualdade e corrupção nesse país.

É triste admitir, mas o brasliano deveria sofrer mais, ter que assistir mais 7X1 em pleno Maracanã, ter que admitir sua pequeneza diante do resto do mundo... acho que isso nos tornaria mais adultos, mais realistas, desmistificando essa ilusão absurda que muita gente compra: de que o Brasil é o país do amanhã. 

Não, gente: não é.

Ok, Ok. Vocês devem me ler e pensar: "-Caramba... Rafaello tá amargo hoje!" Vai ver sim... mas a culpa é da Copa: só se fala nisso, só se vê isso, em shoppings as pessoas colecionam figurinhas, adultos tentam entrar numa máquina do tempo e completar seus álbuns... Neymar, Richarlison e outros tantos... 

Sei lá... peguei bode dessa copa do mundo. Mas admito que há coisas boas nela, como um respiro no meio da semana pra ver os amigos, pra dar uns beijinhos, pra ver algo verde (uma tela verde com aquele gramado lindo) no meio de uma cidade tão cinza como as que vivemos. É.... melhor parar por aqui: acho que estou pra lá de amargo hoje. 


domingo, 30 de outubro de 2022

O final de semana mais sombrio

Depois de uma semana difícil, cheio de violências e um primeiro turno no qual eu ainda  acreditava que os brasileiros nunca mais seriam coniventes com a barbárie que estes últimos 4 anos viram, lá vamos nós: hoje é dia de eleição. 

Estranho demais estar aqui e ver essas pessoas nas ruas com a camiseta da seleção de futebol brasileira (hoje em dia, o símbolo das pessoas que votam  na extrema direita). Oque será que essas pessoas vêem que eu não vejo? Oque elas estão dispostas a comprometer para que possam votar em um cara tão indigno e incompetente quanto o Bolsonaro? Fosse esta uma eleição entre todos os outros candidatos, eu acho que estaríamos ok. Mas justo ele? 

A extrema direita me estarrece e surpreende pela sua destreza em conseguer extrair oque as pessoas têm de mais primitivo: as respostas impulsivas, a desumanização daqueles que divergem em opinião, a falta de projetos claros, o excesso de pautas morais, a maneira esguia pela qual conseguem fugir de qualquer responsabilidade gerencial que têm. É uma tristeza estar aqui no Brasil e assistir esse teatro enquanto sentado no picadeiro.... por que sim, é uma grande palhaçada.

Hoje é domingo e acabo de descobrir que peguei covid. Mas estou bem, ou oque é que isso signifique. Fui votar pedalando: está um dia lindo lá fora. Quero sair, mas quero me refugiar desse mundo de balbúrdia e incompreensão em que vivemos. Quero descansar.. quero poder virar as costas e dizer que esse problema não é mais meu como, de alguma maneira, fiz por uns bons anos.

Agora não.

Agora estou perto. Vejo as entranhas do país mais de perto e como este sofre e se debate em tremores, frágil. Me pergunto oque posso fazer. Será que algo? Só esperar? 

Tenho dito a amigos que apesar de ter ojeriza à extrema direita, ela nos ensina muitas coisas. Por exemplo: o nível de engajamento e participação deles é muito grande. Claro que isso não vem de graça: há o apoio incondicional, os questionamentos jogados pra debaixo do tapete, a corrupção da qual ninguém fala (ou, em muitos casos, pode falar). Bom...talvez retire oque escrevi acima... por que não dá pra dissociar uma coisa (boa) da grande maioria daquilo que a extrema direita representa (algo ruim).

Fico me perguntando oque o amanhã há de nos trazer.. será, mais 4 anos? Me pergunto se ver isso lá de fora seria mais fácil.... ou se me deixaria igualmente angustiado. Páro e me lembro do dia em que soube que Trump ganhou enquanto nos eua: "Trump triumphs", dizia o new york times... fiquei com uma ressaca gigantesca. 

O Brasil, em 2018, não chego a mim. Claro, fiquei triste, mas... de certa forma já imaginava que o elegeriam: o Brasil, país da novela, adora algo desconhecido, uma trama (olha a facada!), alguém que se clame fora do sistema para salvar a pátria. É um povo que não se baseia em métrica alguma pra tomar decisões (well... sendo honesto, que povo é?) Mas agora, depois de 4 anos de desarranjos e desgovernos, quem, em sã consciência, ainda votaria num cara assim? Sei lá se é a covid que me derruba e deixa prostrado, mas acho que não, é a política mesmo: difícil engolir. 

Nessas horas eu me pergunto, mais do que se vai  ser aqui mesmo que eu vou ficar, se há algum lugar no mundo onde se esconder. Não há! Tá tudo muito parecido. E OK, ressalvas sejam feitas: a qualidade de vida em vários lugares onde morei é muuuuuito melhor que em São Paulo. Em sendo assim, que diferença faz passar por isso longe, ou perto? 

Não sei...voltar foi difícil, mas me parece fazer muito sentido. Por que não é algo que se vê por uma única perspevctiva, mas sim diversas delas ao mesmo tempo. Somente quando estamos satisfeitos com nós mesmos  só sei que está sendo uma delícia estar aqui, ter contato com o melhor que o Brasil pode me dar, me perder diante de tantas possibilidades, não entender as piadas que se referem a coisas que perdi enquanto não estava aqui, ter dificuldade para entender memes, poder abraçar as pessoas, pegar covid, votar pra tentar tirar esses extremistas fdp do poder etc. O Brasil e suas mazelas, às vezes um gosto amargo, noutros momentos um gosto agridoce... isso que nem falei que aqui é a terra do bolo de rolo... 

... ai Brasil.... olho pra você, olho pros EUA e sua bagunça, olho pro Japão e sua apatia, a Europa com sua xenofobia... e fico confuso... vai ver o melhor é ficar parado e tentar mudar oque puder por aqui mesmo. 


sábado, 7 de maio de 2022

30 dias entre o oriente e o ocidente: ancoragem

Caramba… menos de um mês… chegou? Ainda não… Olho pela manhã pra esse mar de saudades até a costa… muitas remadas… estou chegando…

Tanta coisa pela frente ainda: os perrengues da burocracia japonesa, documentos, as entrevistas de emprego, continuar fazendo networking, finalizar um artigo + experimentos … acho até estranho sentir (e admitir pra mim mesmo) que a saudade é aquilo que tem sido mais difícil de administrar… a vida e suas rasteiras… realmente, me desestabilizou bastante. Por outro lado… só oque é realmente grande e de muito valor pra gente é capaz de gerar tanta comoção… tento aceitar essa dualidade da situação: vai ser bom… mas quando deixar de ser bom ou de ser parte de você, vai doer. E tem doído, muito

Às vezes tento olhar pro futuro sem me apegar às incertezas que rondam essa saudade: como seria estar na mesma cidade que uma pessoa que você ainda quer, mas não te quer? Como será poder me comunicar efetivamente com quase todo mundo que encontro? Como será ter amigos e família por perto? No todo, me pergunto: oque vai ser, ser um adulto na mesma cidade em que quero viver? 

Isso porque, em geral, sempre associei estar aqui fora a trabalho, como se a vida e seus prazeres ficasse meio jogada de lado. Acho que somente na Mini-apple essa dinâmica foi diferente, quando estava num relacionamento: a cidade se mostrava diante de meus olhos de uma outra maneira; os tempos livres tinham outro valor. Antes e depois… o mesmo estresse de sempre. Quem quer viver assim?

É curioso que eu conseguia antecipar que essa transição seria difícil, mas não pelos motivos que hoje me tiram o sono. A maior lição disso… talvez seja a de não contar com certos laços como dados (?)… ou, acima de tudo, ser mais capaz de me mostrar ali, presente… comparecendo, ouvindo e sabendo dar segurança àquilo que precisa - ou já é parte - de mim? 

É estranho e curioso esse processo… não me acho um mal ouvinte, ou cabeça dura… consigo acolher, me abrir pra tanta coisa nova… mas como assim, não conseguir assegurar ao outro que estou aberto, que estou disposto, que quero, que gosto, que sonho, que sonho junto, que quero perto, que tenho medos e receios, que… sou humano e falho? Pequei em não dizer ou em dizer do meu jeito? Faz diferença (a alguém) eu dizer isso agora? Pareço viver um enorme paradoxo, do qual eu sou a grande causa de desconforto cognitivo: como assim, tanta contradição junta?

Mais um, dentre tantos “não sei”, cabe aqui. Talvez devesse serenar um pouco, assossegar-me de que tudo isso é uma construção. Nunca deixei de dizer que queria junto, que gostava, de cantar em poemas, de celebrar em músicas, de compartilhar o quanto pude… se pequei, talvez tenha sido por … ter sido humano? Por ter tido medo? Por recear a incerteza de algo que hoje desconheço: minha própria terra? Ou… incerteza diante de alguém que também me deixava com receios (de que era genuíno, de que não era idealização etc)? 

Preciso ser justo comigo mesmo…ou ao menos tentar… e deixar de me culpar tanto. Ao menos disse, ao menos venci a insegurança e quando a névoa baixou mostrei a direção na qual - e com quem a meu lado - quero seguir remando, ao menos sigo firme e confiante no que quero, acredito e sinto. Talvez o maior dos erros teria sido ser grato, abrir mão, e virar as costas… perder sem tentar, errar sem nunca admitir o erro, silenciar quando há tanto a se dizer, engavetar planos e projetos de construções que não se criam sozinhos… a vida segue um curso, e muitas vezes o curso de nossos acertos passa pelo caminho dos nossos erros.

Tenha confiança… faça oque tiver que ser feito, sem deixar arrefecer teu candor. Seja paciente diante daquilo que não tens controle, e sereno diante de intempéries. Leia mais Rilke… coma mais chocolates… abrace mais, flexibilize mais… acolha-se mais.. acolha mais… ame-se mais …  Ouça mais do que falas… aproxime-se … não tenha medo de dizer oque sentes… ame mais… doe-se sem esperar nada do mundo em retribuição… saia debaixo do forninho, espalhe ternurinhas… contemple o absurdo das coisas como se fossem plausíveis… mude, que o mundo há de ou mudar contigo, ou se moldar à tua mudança. Viva. 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #132: dormindo em resignação, acordando determinado (noite #5 + mudanças estruturais #2)

Ontem tive duas conversas com pessoas mais experientes que ou já passaram por muitas coisas - divórcios, ou por reentradas no Brasil depois de anos fora, um monte de outras coisas e perrrengues. Primeiro, e nem preciso dizer, que sentir essas pessoas estendendo a mão pra me ajudar e ouvir significou muito, muito mesmo. Segundo que os papos em si foram incríveis.

Contextualizadas as coisas, conversas e relatos de acontecimentos recentes, as duas pessoas me disserem unanimamente: "Rafaello, essa mudança é maior que esse fato/estória... ao que parece você se abriu -  "unlocked" - para servir de ponto de apoio a um par, para viver e querer construir algo mais especial que planos teus somente.... pelo que você descreveu ao longo dos anos, essa pessoa é certamente muito especial, ainda mais por ter sido eleita por você para ser parte neste projeto... mas isso é maior, isso é uma busca tua que, se não for com ela, vai ser com outra pessoa, porque você se abriu a isso e está em busca disso". Em linhas gerais, foi isso.. algo que não esperava exatamente ouvir.

Achei que o Brasil fosse estabilidade, em algum sentido; paradoxalmente, isso me estarrece ainda - encontrar ordem em tanto caos - mas meu lado matemático me diz que isso é possível. Mas o Brasil é parte de um novo capítulo.... que "a alguns a que tal graça se consente... é dado lê-lo" (vai...me ilumina,  Caetano!).

Não sei... fiquei feliz.. e me acalmou... sentintendi um pouco de onde minha determinação está brotando...

Na hora que ouvi eu pensei, honestamente, em pedir desculpas pras pessoas que não puderam contar comigo, ou ume viram pela metade (ou seja, um quarto) em diversos projetos... mas não achei que fazia sentido. Talvez não agora. Fui dormir com uma certa calma, consciente (e lembrado em todas as conversas) de que agora não cabe a mim fazer nada. Na verdade, cabe: aceitar que as coisas levam um tempo para seguir o seu curso... e que o que posso fazer é isso que já estou fazendo: estar ali, pra me doar e receber o outro.

Bom.. hora de entrevistas... amanhã escrevo no diário de bordo... mais muitas remadas até a costa brasileira.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #131: dormindo saudades, acordando ansioso (noite #4)

Ontem, logo cedo, tava precisado: uma dose de leve de Jorge Ben pra alegrar o dia. Coloquei, começa a tocar no random.... "o telefone, tocou novamente... fui atender e não era o meu amor"... afff... até você, Jorge? 

Coincidentemente, ontem me vi deparado nessa questão do silêncio (da qual falei anteriormente). Oque me leva a ficar quieto? Oque me faz ser uma pessoa que não vai e  liga ou envia uma mensagem, rompendo esse estado de luto?  

Vai ver estou é esperando uma ligação... não, não vai vir.

[Rafa, você tem um "não" em mãos... me diseram há uns dias]

[... a frase ecoa na cabeça e reverbera na alma]

Ontem contemplei essa possibilidade-questão, o telefone aberto diante dos olhos, a útilma conversa monossilábica, cheia de "ok", "sim"... até que surgiu um Online que fez meu coração pular peito afora pela minha garganta, quase me matando em sufoco..

"-Caramba...  isso não pode acontecer... é algo que é bom, não pode me fazer mal assim... ", digo a mim mesmo, assustado.... fico em desespero só de pensar que a última lembrança dessa relação será isso: esses dias sem ar, em angústia, ansiedade... Isso acaba me lembrando de uns experimentos (sobre os quais o Daneial Kahneman fala no livro dele) em que uma avaliação sobre o quão ruim uma experiência foi ser totalmente distorcida pelos últimos minutos dela. Coerentemente, fizeram o estudo com coisas relacionadas a dor em intervenções cirurgicas: se a dor é no final, a pessoa tende a achar que a intervenção foi horrível e invasiva; na direção oposta, se os últimos 10 min são de alívio, as pessoas tendem a achar que não, que não foi tão ruim assim.... 

Fico com medo, sabe... de nunca mais conseguir chegar perto (e vice versa)... injustiça... "só quero que reflita que nada que falaremos invalidará tudo de bom que já tivemos"... será que ela já sabia que esse processo aconteceria? Vai ver o mesmo acontece com ela... bate minha preocupação... não sei oque fazer... mensagem? Uma grande pena desse blog é a unilateralidade dele: parece que só eu sofro, só eu me fragmento, quando na verdade todos dóem.. "everybody hurts"...indeed... infelizmente, mais frequentemente que só às vezes.

Acho que não procuro por ter dado minha palavra. Respeitar, acima de tudo. A maior forma de amor por alguém é saber deixar essa pessoa ir quando é isso oque ela quer. O foda é que em geral eu desisto pra poder abrir passagem... mas não aconteceu nesse caso (não ainda). Não desisti... não esqueci... então, cabe a mim aguentar as consequências. Curioso que, em geral, quando isso acontece eu tendo a puxar o plug da tomada e tirar a energia disso. De certa forma, havia começado a fazer isso... mas... sei lá... algo me parou no meio do caminho-processo...não consegui/consigo desistir...

O dia acordou em anseio, pílula de Jorge Ben... toca a mesma música... dessa vez resolvo ir até o fim... vou lá, 5:30 AM, hora de correr pra entrevista...

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #130: dormindo ciúmes, acordando saudades (noite #3)

 Ontem, no meio da noite, achei que a batalha do dia estava vencida: braços cansados de tantas braçadas, cabeça sob o pescoço depois de meditar, ainda cheio de suspiro, fui pro meu closet-cama (longa estória, conto outra hora) e.... 

... me vem uma sensação bizarra dentro do peito... "cacete.... "

... curiosamente, no meio da tarde havia passado na minha playlist "to lift me up", havia passado uma música que a Elza Soares canta. O ciúmes ardendo ao sol do fim do dia... até pulei... mas não escapei...

Uma amiga psicóloga me falou há uns dias "Rafaello, será que não é ego?".. Imediatamente disse a ela que havia cogitado essa hipótese, mas que não acredito ser o caso... Por que não se trata de mim: não acho nada do que está rolando uma afronta a mim, ou algo que me diminua ou diminua oque vivemos... é sobre ela, sobre o quão especial ela e a conexão com ela foram/são. 

O ciúmes bateu, e tentei sentar com ele e ver do que se tratava: ciúmes de corpo? De contato? Em menor grau, pode ser... mas, honestamente, todo mundo faz isso (outra música da Elza, que não pulei... na verdade, do Cole Porter).. isso é de menos. Corpo, contato, mecanicidades, isso até é vendido por aí (e muita gente paga)... agora, o carinho, o cuidado, as risadas, as sacadas geniais, o sorriso, o mel, a inteligência de me apontar para aquilo que não vira até então, a doçura na forma de me corrigir, a maneira incisiva de me dar broncas e - ainda assim - ser fofa ... mas, talvez acima de tudo, aquela capacidade única de me desarmar diante de mim mesmo, de me fazer rir do que penso e faço ou acredito, de me fazer mudar debaixo de sol, ou imerso em sombras.. putz... Virando na cama, percebo então que o ciúmes não vem de um outro cuja existência ignoro e para qual não ligo: é, na verdade, saudades... saudades dessa construção-monumento cujas paredes caem a olhos vistos, sem que eu possa fazer nada senão continuar acreditando que não há de colapsar.

....afff... escrevo isso e penso nesses "eventos de probabilidade zero", essa "sorte-azar" que permeia tudo de bom que a vida nos mostra.... suspiro... 

Levou um tempo. Dormi. Acordei envolto em saudades... desses detalhes, de uma notinha deixada na caixa de remédios daqui de casa, de uma piada que insiste em vir à cabeça e me fazer rir enquanto ando na rua... como pode, algo tão leve se transformar em dias tão ... suspiro.... melhor começar meu dia.

terça-feira, 26 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #129: dormindo dor, acordando angústia (noite #2)

Logo que esse processo todo começou eu pensei: "preciso registrá-lo...".. Isso porque não quero somente sair verborrágico, falando pelos cantos, mas ter uma maneira de acompanhar e comparar meu eu de ontem com meu eu de hoje. Não quero me comparar com os outros: quero ver e sentir o quanto eu consegui mudar (ainda mais) nesse ínterim.

Às vezes acho que esse blog é um pouco isso: eu, colocando pequenas "selfies" de mim mesmo, ao longo dos anos. Fotos que dizem um pouco de como vejo o mundo, do que acho graça, de como mudei, de como meus valores eram e hoje já não são mais. 

Ontem foi estranho. Em diversos momentos do dia parecia que o ar faltava e eu tinha que dar uma respirada funda pra poder vencer essa sensação de sufocamento dentro do peito. Em diversos momentos eu dava um suspiro longo e alto (tenho dado ainda.. já dei uns vários enquanto escrevo esse texto)... como um lembrete de que não estou afogando.

O Japão perdeu todo o sentido, até meus últimos 5 dias em Tokyo (pois fui ouvir que "deveria ir conhecer o Monte Fuji"... adivinha quem sugeriu?). Tentei ver se conseguia mudar meus planos e antecipar minha volta.... aí vi a merda de planejar as coisas tão bem: tudo tão "amarradinho" em datas e horários que agora está difícil de tirar uma única coisa do lugar.... ahhhh Rafaello.... De alguma forma, esse foi outro grande momento do dia: ficar sendo revisitado pelos meus erros, e tentar não me defletir deles; sentar com os mesmos e ver que, se for pra ser assim, então... 

Nesse processo de ser revisitado por sentimentos hostis, vêm uns ecos de coisas antigas. Duas coisas me passam pela cabeça: perder minha ex (que ficou nos EUA) e o medo de perder minha mãe durante a pandemia (em especial, após uma amiga daqui ter perdido a sua, em Honduras). Lembro-me que falava sobre isso com minha terapeuta, dizendo que não sabia exatamente como iria viver sem essas pessoas. Ela, calma, me dizia: 

"-Mas Rafaello, você já vive sem essas pessoas...."

Achava aquilo tão Japonês... essa cultura de olhar pra atitude ao invés de palavras.... me soava como uma verdade inaceitável, tamanha, que não tinha como discordar dela. Ainda assim, poderia viver sem, mas que ficariam buracos, ahhh ficariam... E claro, fisicamente é uma grande verdade - vivo sozinho; agora, emocionalmente... há laços e conexões tão fortes entre pessoas que se estendem por um mundo... e nunca se rompem.  

Talvez seja isso que eu esteja tentando mensurar agora. Vivo sem várias desses pessoas que fazem parte da minha vida há tempos, mas vivo com elas dentro de mim. E algumas poucas dessas conexões aconteceram tão ao acaso... que, pra mim, sortudo ganhador da loteria, fico grato só de tê-las encontrado.  E cada pessoa é diferente também... umas, quando se vão, nos deixam dor, mas essa acaba se arrefecendo por já sabermos que não fazia sentido mesmo (caso da ex): são perdas nas quais você consegue ver o quanto  - ao mesmo tempo - elas abrem o mundo pra você. Agora, noutras.... no presente momento... a química, a sinergia.... tão grande que não via outra possibilidade senão crescer junto... a aceitação da perda aqui é diferente. 

Uma amiga me falou que oque eu tenho à minha frente é um beco sem saída, um "não"... eu ouço em silêncio, mudo.... penso se estou a tentar agarrar o impossível com as mãos. Será que chamam isso de "ter esperança"?

Sei lá... sabe.... e isso é minha lucidez "kicking in"... reatar coisas em meio a dor não é bom.... acho que vai ser bom pra todos os lados se fortalecerem para poder, adiante, dar um passo com mais clareza. Eu estou cansado, essa mudança tem sido estressante, meu corpo carrega medo, ansiedade, empolgação, saudades... pareço levar tantas coisas dentro de mim ao mesmo tempo que me estarrece não ter sucumbido diante de mais esse tropeço, ajoelhado diante desse sentimento gigante como uma duna. E acho que não só eu estou assim agora.

Talvez esses desvios, esses "momentos de respiro" estejam aqui para nos reenergizarem...para nos restaurarem... para nos fazer lembrar que, em princípio, nada era dor e tudo era riso.... se for isso, então eu espero pra ver oque o futuro há de trazer.

Mudanças estruturais

Sempre penso, enquanto nado, na analogia entre cada braçada e um grão de areia que culmina numa duna: no fundo, nadar uma longa distância é o mesmo que concatenar um monte de braçadas inexpressivas. A grande questão em se percorrer uma grande distância então está em mantermos a calma, a respiração e aceitarmos que grandes mudanças/transformações podem levar, sim, muito tempo.

Páro pra reflitir no que as mulhers que passaram na minha vida me deixaram... delas e com elas aprendi muito (assim como aprendo dos amigos, mas é diferente). Sem sombra de dúvidas, todas fizeram de mim uma pessoa melhor (não que eu seja lá grande coisa..). Algumas, no entanto, causaram mudanças muito, muito grandes. Nuns casos, em personalidade - em me fazerem ver que posso sim me engajar num relacionamento e construir conexões; noutros, que deveria contemplar outras possibilidades - como sair da academia. E, mais recentemente, me apontarem que muito do que eu preciso agora não tem a ver com minha carreira somente, mas sim com a minha vida pessoal.

Há 12 anos estou fora do Brasil. Há 12 anos sinto que desenvolvi e me dediquei a uma parte de mim que contempla somente parte da minha personalidade: o meu lado introspectivo, de fazer coisas sozinho, de saber me deparar com a solidão e, em face a ela, encontrar maneiras de encará-la com serenidade. No entanto, carrego um outro lado, mais "carnavalesco", mais leve, que sempre fez com que me conectasse com as pessoas, as ouvisse, e fizesse amigos por onde passasse. Esse último Rafaello, infelizmente, ficou meio apagado nesses últimos 12 anos. E é nele que eu quero investir de agora em diante. 

Me levou muito tempo pra acordar pra isso. Muito tempo pra ver que essa resposta sempre esteve debaixo do meu nariz. Me puno, me machuco, chego até a me auto-flagelar  emocionalmente um tanto por isso. Mas... sei que todo processo de mudança nasce primeiro em termos consciência de que uma mudança é necessária... com essa consciência em mãos, cabe a nós a ignorar tal verdade (por medo ou algo assim), ou abraçá-la. Eu escolhi a última opção.

Tenho escrito mais ultimamente porque realmente preciso verbalizar tantos pensamentos. A mente parece seguir lúcida e clara nesses dias, mas os sentimentos parecem tentar me inundar de quando em vez como um tsunami atingindo um farol costeiro: a cada onda, eu receio o quanto há de sobrar de mim, e imagino que a dor há de ser pior e não arrefecer. Mas eu sei... eu sei que arrefece.... eu sei que passa... 

Meu maior medo na vida, talvez, seja o de um dia parar de mudar ou de me abrir pra ouvir os outros. Sinto muito por levar tanto tempo para fazer isso. Mas... esse sou eu: dificilmente jogaria tudo pro ar por idéias que não me parecem plausíveis de imediato... mas as ouço. E, como pequenos grãos de areia que vão se acumulando na minha orla interior, um dia elas se empilham em dunas gigantescas,  intransponíveis como um deserto. A maior prova disso, talvez, seja o fato de que esse ciclo hoje parece se completar da maneira mais inesperada que eu poderia imaginar: com o caminho mais óbvio.

Humildade talvez seja isso: se abrir pra aceitar e acolher, se silenciar diante de algo que nos parece duvidoso mas pro qual não temos argumentos: se abrir para mudar e, então, abraçar tais mudanças.  

Como uma amiga escaladora que, tradutora e envolvida em diversos projetos  - que, de acordo com ela, "só a deixam mais pobre, mas muito feliz" - me disse recentemente: "let's keep things interesting...that's what drives me". Na hora que ouvi isso, me vi naquela frase: vai ver, no fim das contas, é isso que tenho buscado ao longo da vida...

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #124: a maior das distâncias

Muito provavelmente é a palavra sobre a qual mais falei em todos esses anos de blog: distância. 

E ciúmes...falei de ciúmes? E de se sentir substituído?

Acho que não... mas, de alguma forma, num universo não muito distante, esses termos todos se emaranham.

Estar longe... a sensação horrível de impotência, como se fossem mulhares de borboletas a se debatem na nossa barriga, fragilidade em erupção, o estado de não-presença exacerbado também, o coração longe, a cabeça mais longe ainda... 

Em suma: uma merda.

Acho que não foi nem uma, nem dias, mas várias as vezes que senti isso. Em todas, é difícil: a dor parece intransponível, o tempo parece se dilatar, dilacerando a alma como cacos de vidro ... você deseja que tudo passe rápido pr'aquilo acabar, mas não, o tempo se mantém longo e vagaroso, alfinetando cada segundo da nossa existência com um "eu te disse", ou "a culpa é tua"....

Perder alguém é muito difícil.... Ver essa pessoa se distanciar, imaginar que foi culpa sua...sem falar em saber abrir mão por não poder mudar a situação, ao menos não ali, naquele derradeiro segundo em que você quer que sim, tudo mude e seja diferente.

Caramba..sempre penso sobre isso: já perdi tantas pessoas que considero especiais, tantos amores, e sempre sofro da arrogância de achar que da próxima vez será mais fácil. Não: sempre me dói como se fosse o primeiro, como dura como o último fosse nada.... É um estoicismo de amor: "sofra cada amor como se fosse o último a te rasgar a alma", e lá vai você, vendo que todos os remendos do break-up anterior não serviram de nada.

Pensando bem, talvez serviram: pra racionalizar a situação de perda e ver que, num horizonte sabe-se lá quão distante, essa dor passa.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Faz zum-zum pra mim

Saudações, leitores amados.

Aqui quem vos escreve é seu abelho-carneirinho preferido. Agora, fazendo zum-zum pra vocês.

Ou melhor, pra mim mesmo.

E olha que antes achava que quem fazia zum-zum era meu refrigerador (declamando um eterno e repetitivo "o meu refrigerador não funciona").  

Mas não. Descobri que o tal zum-zum é tinnitus. Bem que esse som que ali não está - mas insiste em aparecer - poderia ser de aplausos, ou pessoas me ovacionando enquanto ando na rua, mulheres me professando desejos indizíveis em público, ou pessoas dizendo o quanto me gostam ou admiram... mas que nada: sons que só me visitam no silêncio da noite, entrando de baixo das cobertas comigo e me dizendo suavemente ao pé do ouvido.. "zuuuuuuuuuuu".. 

Afff... esse amor monótono que nada de novo me declara. Falasse, antes fosse, que me quer, que me gosta, me deseja, que vai me abandonar assim que eu deixar de ter um sustento... mas só fazer zum-zum pra eu ver, fazer zum-zum pra mim? Não... assi-sim ni-ninguém aguenta. Assi-sim ni-ninguém dorme direito (eu muito menos). 

Me ame: ok, faça como queira.
Mas me deixe.
Ainda mais agora que sei que você está por perto, indesejadamente.


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #118: carnaval japonês (ou "quebrando o contrato")

 É agora... respiro fundo, vou dizer tudo oque penso.  Dizer que me cansei, que vou embora, que de hoje não passa... 

..bato na porta, "shitsure-shimasu", come licença já entrando... 

...ninguém na sala.

"-Maybe our boss is hiding under his desk... we just don't want you to leave us", me disse a secretária.

Vai saber... tento de novo mais tarde.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Pessoa-estátua

Por estes dias fiquei a me perguntar oque havia me deixado perplexo nessa vida. Na verdade me perdi um pouco mais, me perguntando como avaliamos um evento que nos atinge, previsível, ou algo inesperado, fora de qualquer horizonte de possibilidades vislumbradas. Me lembrei de uma surra que quase levei de um colega de escola que, eu então jurava, não seria pário para meus golpes fajutos de karate. Ou a prova de programação linear (otimização) durante a faculdade: fiz piada de todo o drama dos meus colegas de sala (que diziam que a matéria era difícil), disse que eram medos infundados, que a prova fora mais fácil do que imaginava, e até razoável.... e que jurava ter tirado no mínimo 8. Fui contemplado com um inesquecível 2.2., que carrego até hoje na memória.

Perplexidade, meus amigos...perplexidade. Um balde de água fria que nos demonstra o quanto nos aferramos a crenças infundadas, a idéias que no fundo não têm lastro. Talvez,nesse aspecto, a perplexidade seja um pouco como estarmos desnorteados: perdemos a total dimensão da direção que estamos indo ao nos darmos conta de que o compasso que nos guiava apontava na direção errada.

É curioso ter consciência da minha perplexidade. Talvez mais ainda é ver a perplexidade alheia. Vejo por estes dias a queda de Kabul, no Afeganistão, e a surpresa de todos que até então diziam que isso não aconteceria tão cedo (mesmo os jornais, até 2-3 dias atrás diziam que talvez demorasse um mês ou mais): Kabul jaz aos pés do Taleban neste momento. 

Me compadeço, me dói ver tudo isso.  Penso nessa surpresa toda e me pergunto o quanto dela não se dá por vermos as coisas superficialmente. Como as pessoas-iceberg que somos, assunto que discorri sobre no post anterior, há situações-iceberg, das quais achamos que se trata de um pequeno gelo mas que nos rompe o casco e nos naufraga em um piscar de olhos. Será que nos pautamos tanto assim em ver as coisas pela superfície? Nos aferramos tanto a imagens e a crenças que no fundo não tem valor quantitativo, qualitativo, ou causal, algum? 

Me lembrei de algo que ouvi o José Saramago falar há alguns anos, e que ele cita numa palestra que deu. Ele fala sobre suas obras, e faz umas referências ao livro Ensaio sobre a Cegueira:

"....durante catorze anos, me tivesse dedicado a descrever uma estátua. O que é a estátua? A estátua é a superfície da pedra, o resultado de retirar pedra da pedra. Descrever a estátua, o rosto, o gesto, as roupagens, a figura, é descrever o exterior da pedra, e essa descrição, metaforicamente, é o que encontramos nos romances a que me referi até agora. Quando terminei O Evangelho ainda não sabia que até então tinha andado a descrever estátuas. Tive de entender o novo mundo que se me apresentava ao abandonar a superfície da pedra e passar para o seu interior, e isso aconteceu com Ensaio sobre a Cegueira. Percebi, então, que alguma coisa tinha terminado na minha vida de escritor e que algo diferente estava a começar. 
O ensaio sobre a cegueira é a história de uma cegueira fulminante que ataca os habitantes de uma cidade. Poderia tratar-se de uma epidemia, de uma praga, isso não está explicado no livro nem importa, a única coisa que se diz é que a gente perde a visão. As consequências de uma cegueira com estas características são óbvias num mundo que, no fundamental, está organizado por e para o sentido da visão: todas as catástrofes imagináveis, e outras que nem queremos imaginar, acabariam arrasando a vida não apenas de um ponto de vista material, mas também destruiriam da noite para o dia todos os valores de consenso social, todas as regras, todas as normas. O homem converter-se-ia definitivamente em lobo do homem. Mas o autor crê que já estamos cegos com os olhos que temos, que não é necessário que nenhuma epidemia de cegueira venha a assolar a humanidade. Talvez os nossos olhos vejam, mas a nossa razão esteja cega. Não somos capazes de reconhecer que foi o ser humano quem inventou algo tão alheio à natureza como a crueldade. Nenhum animal é cruel, nenhum animal tortura outro animal. Têm de seguir as leis impostas pela vontade de sobreviver, mas torturar e humilhar os seus semelhantes são invenções da razão humana. O livro já não se empenha na descrição da estátua, é uma tentativa de entrar no interior da pedra, no mais profundo de nós mesmos, é uma tentativa de nos perguntarmos o quê e quem somos. E para quê. Provavelmente não existe uma resposta e, se existisse, seguramente não seria eu a pessoa capaz de oferecê-la. No fundo, o que o livro quis expressar é muito simples: se somos assim, que cada um se pergunte porquê."

Sabemos que somos propensos a uma infinitude de enganos, de apego a superficialidades, de jogadas de poeira pra debaixo do tapete, de apego a superficialidades... uma espécie de cegueira diante das atitudes dos outros, de situações, de nós mesmos, de fatos que ou  insistimos em negar ou que simplesmente não nos estão disponíveis naquele momento. Seria a superficialidade parte da condição humana? Parte da sua condição de pobreza intelectual, ou subserviência do seu pensar diante do seu sentir? Parte do avaliar só por cima, do achar que as pessoas são felizes pelas fotos que têm em rede social? De acharmos que alguém é importante pelos títulos que tem? 1

Em geral não existem miopia ao olharmos em retrospecto. Infelizmente, só quando olhamos pra trás, pois a cegueira parece ser algo intrínseco a nossa natureza... e vive nos nossos olhos a todo o momento.


1 Recentemente, lendo um jornal brasileiro, encontrei uma coluna de um "bonitão right-wing", presidente de um instituto do qual eu nunca ouvira falar (que, pelo vim a saber depois, é insignificante mesmo). Instituto este que ele mesmo fundou. Anyway, pelo visto a idéia atrai olhares, e sempre vai bem no Linkedin te o título de "head of", ou "presidente/CEO" 😛  

  

 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Adultescência

Pensei há alguns dias em perguntar pra minha mãe quando ela havia se dado conta de que era uma adulta. Quando saíra de casa? Quando teve o primeiro filho? Quando uma conta de telefone chegou no nome dela? Mas mudei de idéia.... acho que minha mãe sempre foi adulta, não consigo imaginá-la criança...

Acho que, dessa pandemia, vamos todos levar algo: todos ficamos mais velhos e adultos depois dela. Será que por conta da nossa proximidade com a morte? Por termos sido lembrados constantemente de como somos finitos, de como todos os que amamos um dia vão morrer? A pandemia foi isso: um balde de água fria em todos, nas horas mais inoportunas. É vírus isso, é virus pegando no pé de jovens, de adultos, de idosos e crianças.... se você lê isso agora, acredite: você, assim como eu, só sobreviveu por sorte. 

É... eu fico meio assim de aceitar tal idéia. Acho que minhas medidas ultra higiênico-sanitárias foram uma barreira intransponível que vírus algum poderia vencer... quando na verdade não: bem provável que, se estivesse em algum outro país (por ex., Brasil, EUA, Índia) estaria lá eu, na maca do hospital, doente, temendo pela minha própria existência, e pensando em todos os 5 filhos que não tive. "-Eu pelo menos deveria ter casado e deixado um livro pra eternidade", aposto que pensaria. 

Pois bem... aqui me encontro com a sorte de um náufrago que passou pelo pior, mas agora se vê cercado de água, água e mais água. O desconhecido que nos cerca e no qual nos mergulhamos de corpo inteiro chamado... vida. 

Mas nem era bem por isso que comecei a escrever.... era mais pra comentar a sorte de estar aqui, e em como envelhecemos. Divagação não de agora, pois me colocou a lembrar de outra que tive quando adolescente, vendo aqueles livros de História com aquelas fotos antigas do Brasil, com aquelas pessoas de 30 e poucos anos usando bengala, barbas tão grandes que mais pareciam velhos de 60 anos. Por que será que eles queria envelhecer? Ou oque será que fez que envelhecessem tanto? Será que daqui a 100 anos alguém vai olhar pra nós e dizer "-Nossa... olha como eles eram antiquados...será que eles não tinham vergonha, gente de 20 anos andando com essa geringonça desse celular... mexendo no instagram?

Em suma: será que nós já usamos bengalas e não sabemos?

Fiquei na dúvida... ainda mais quando me peguei no espelho há alguns dias com a barba mal feita.... vi ali um prenúncio de Prudêncio de Morais ou algo assim (well... mais pareço aquele meu comparsa da pringles)... a vida me pregando uma peça, puxando meu tapete...e me envelhescendo sem que eu nem mesmo perceba. Talvez isso tudo explique essa dorzinha nas costas que ando sentindo...


quarta-feira, 3 de março de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #109: uberização

Desde o começo dessa pandemia uma das coisas que mais tem cortado meu coração foi ver o aumento no número de entregadores de comida: várias pessoas de idade fazendo isso, além de várias pessoas bem novas também. 

Alguns vêem nisso um sinal de que estamos caminhando a uma era onde tudo fica mais online. Não discordo, mas tenho um viés um pouco mais pessimista de que a uberização dos nossos skills chegou para ficar.

Médicos terão seus skills leiolados por apps, assim como engenheiros, advogados. Quem tem menos conhecimento técnico então...  nem se fala: pra tudo no qual se pode trabalhar haverá a intermediação de algum app, por trás do qual umas poucas dezenas de "entrepreneurs" de Stanford estarão sentados, coletando dólares sem muito esforço. 

Onde está o erro nessa equação? Claro, tecnologia está aqui pra dinamizar nossas vidas, nos servir. Mas quando se torna cada vez mais claro que a mesma só vem exacerbando a desigualdade em distribuição de renda e levando ao nosso empobrecimento (como um todo, como sociedade), passo a me perguntar: será que, iludidos pela cantiga da "tecnologia", caminhamos para nosso colapso? Para uma sociedade menos inventiva, com poder de escolha diminuto e de decisão cada vez mais concentrado nas mãos de uns poucos?

Uma vez um amigo biólogo me "puxou a orelha" durante uma conversa sobre Darwinismo, dizendo que evoluir (por pressão do ambiente) não necessariamente significa que há uma "melhora" do indivíduo, ou um aumento na sua complexidade. "-Pode acontecer do indivíduo menos complexo ser o mais apto para se desenvolver num meio". Infelizmente, talvez seja sob essa toada que estejamos caminhando...



[Acrescenta-se a isso tudo o crescente número de lojas fechadas.]
[Recentemente uma fábrica de cookies aqui perto de casa, antiga que só e que passou por poucas e boas nesse Japão, fechou. 💔]
[Torço por dias melhores, embora essa "esperança" não tenha respaldo algum em fatos.]

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Dias anti - carnavalescos

 Quem diria... há um ano atrás mal conseguia falar com ninguém no Brasil. Todos na rua, em bloquinhos, ou fugindo das cidades em busca de sossego: um dilúvio carnavalesco tomava o país, sem deixar nada intocado.

Esse ano vejo fotos de tapumes, bolhas de vácuo pela cidade, vespeiros anti-foliões. Carnaval + Corona = Coronarval? 

É... faz um ano já...