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domingo, 20 de janeiro de 2019

Visita ao Brasil - causos cariocas #2 (ou "Taxista abre o coração a caminho da Urca")

"-...aí eu falei pra ele: se você ficar pegando minhas mulé você sabe, vc vai acordar um pedaço aqui, outro ali. Um não acorda mais e outro acorda na cadeia. Eu era pulícia mêrmão."

Me disse o taxista, a caminho da Urca.

"-O cara é meu amigo mas vem ficar com as minhas ex? Porra, onde já se viu? Tá certo não. Começou a sair com um travesti que eu saia... eu gostava de sair com travesti, é bom e tal, apertadinho... E o cara é meu amigo, ele sabia. Aí vem pegar a mulher quando não estou perto? Não, aí não dá. Da próxima eu mato mesmo."

[Taxista abre o coração a caminho da Urca]


[Nota: guardei o detalhe sórdido do "apertadinho"]
[Foi realmente uma conversa surreal]
[Ainda mais quando ele começou a descrever os remédios que tomava pra dormir]

Visita ao Brasil - causos cariocas #1 (ou "Taxista abre a boca a caminho do Catete")

[erros gramaticais visando reforçar a oralidade]

"-Tá vêno aquela barraquinha ali? Tá vêno?"

Entro no carro, e já nos 10 primeiros metros, ali na curva que liga o aeroporto Santos Dummont à zona sula, o motorista já me diz isso, na maior intimidade do mundo.

"...Tá vêno?"

"⁻Sim, tô vendo." 

"-Então... ali tá rolano u' chá de bebê de uma moça da cooperativa... gente bôa. Tá toooodo mundo lá:  comêno, levânuns presentes... uma festa."

"-Ahhh legal" -disse eu, meio sem saber o rumo que a conversa tomava.

"-'tra coisa legal tamém é qui o pai é tamém da cooperativa. Trabalha todo muno juntu"

"-Ahh que coincidência"... acrescentei

"-É sim, bastante, né? Só que vou te contar um detalhe: o cara... ele é casado! E a esposa dele é púlicia civil. Já imaginou o B.O.? Amigo, eu num quero nem estar perto quando isso acontecer. Vou te levar ali e na volta comprar um presentinho...assim, um pacote-de-fralda ou algo assim, mas é só: vou é sair de perto. O pessoal fica co'essas fotinhos em redes sociais, instagram...daqui a poco essa mulher descobre ...mêrmããão.... vai ter tiro pra tudo que é lado."


[Taxista abre a boca a caminho do Catete]

sábado, 20 de janeiro de 2018

Rafaello K.

Ontem fui ao médico. Meus olhos, avermelhados, davam sinal de conjuntivite.  Entro no hospital, ninguém me entende. Até que ouço "Yasumi" (dia de descanço) e vi que ali não haverá médico pra mim. Como sempre, as pessoas tentam ajudar: uma senhora sai do seu posto pra me levar num outro hospital, numa quadra logo ali. 

E lá vamos nós!

Chego, lêem a carta que a secretária da empresa escreveu, explicando meu estado. "Esse hospital não é aqui". Com muita boa vontade, a enfermeira deixa seu posto e me leva pro outro hospital. Andamos algumas quadras até que...

Você já deve ter imaginado: chegamos no primeiro hospital (que estava fechado em dia de descanço). 

Volto no segundo hospital. Assino coisas, preencho nomes "Romaji, OK?" (caracteres romanos). Sim, OK. Aí sigo por uma séries de coisas e pessoas ininteligíveis, ninguém me entendendo, até chegar num médico que não fala uma palavra que entendo.

E se eu entrar ali pra me curarem os olhos e me operarem de uma apendicite que não tenho?

Me desespero. Oque será que essas pessoas estão dizendo e fazendo? 

Nada faz sentido. "Chotto mate, kudasai"... me pedem pra aguardar.... devem estar a preparar a sala pra me operarem de hérnia, ou desobstruirem minha aorta não obstruída (que eu saiba :). 

"-Monteiro-san", diz uma enfermeira de voz bem fina.

Ainda sem entender, me entregam um papel com sinais e símbolos em japonês. "Prescription?".... Ninguém me entende. "Ok, Ok"... primeiro homem na lua, pago com moeda que trouxe da Terra. Me pedem pra aguardar de novo... e a mesma enfermeira que me levou ao primeiro hospital pede para seguí-la para fora do hospital... "será que vão me levar pra coréia do norte? Ou vender meus órgãos?"

Entramos num prédio... uma farmácia. Antes que as cortinas se fechassem, tudo começou a fazer sentido.

[Esse dia me lembrou muito de um livro do Kafka, "O processo" (The trial)]
[Nele, um cara chamado Joseph K. está sendo processado, só que ele não sabe o por que]
[Aí o livro inteiro é isso, as pessoas o abordando pra falar da gravidade do caso dele e ele sem saber do que se trata]
[Ontem eu senti um pouquinho do que o Kafka queria passar... acho que nunca tinha entendido muito bem aquele livro até então rsrs foi no mínimo interessante]

terça-feira, 12 de abril de 2016

Faça chuva ou faça sol

Há tempos não batia uma dessas: vontade de voltar ao Brasil... mas dessa vez não é como nas vezes anteriores, em que a vontade tropeçava em diversas impossibilidades como terminar estudos, arrumar oque fazer depois: eu tenho pensado seriamente em voltar.

Acho que esses dias todos aqui na Europa... essa quantidade enorme de mudanças de casa no último ano (até agora, 6). Estou em todos os lugares mas não estou em lugar nenhum. A impessoalidade enorme de casas em que você está mas não é tua, das cidades em que está mas só de passagem, dos dias que vive mas que - por dentro - tem dúvida se quer que passem rápido ou devagar. Parece-me que há uma necessidade fora do comum em me manter compacto e coeso, enquanto o mundo me pede para ceder e deixar acontecer, viver etc. Parece bonito, poesia, romance, mas não é: a realidade me exige presente a todo o momento e não há instante para ceder e me deixar largado por aí.

Vulnerabilidade? Hummmm.... talvez. Sempre penso duas vezes quando chego a situações assim. Uma realidade "hostil" aumenta e muito a nossa sensação de fragilidade/vulnerabilidade. Mas há outras coisas boas nisso: talvez eu comece a me sentir satisfeito com o que tenho construído, com o que tenho buscado pra mim mesmo. Isso tudo é um processo. É não só aceitar aquilo que o mundo me dá, mas também aquilo que  carrego dentro de mim. 

É curioso que essa dúvida - "volto-não-volto"- oprime, mas não há muito como dividí-la com outras pessoas. Mais e mais sinto que o desenvolvimento emocional das pessoas que amo é frágil demais pra atender minhas dúvidas e angústias bestas, meu cotidiano no qual fazer frio ou fazer calor tanto faz: meus maiores dilemas moram dentro de mim, e não lá fora. Nessas horas é melhor o silêncio. Assim você poupa os outros de micro-mágoas, de hostilidades gratuitas que poderiam destruir qualquer forma de relação mais adiante.

Peço pela paciência dos que estão longe querendo estar perto, e tento me fazer presente praqueles que estão próximos (no caso, ninguém hahaha). Seja presente, esteja presente e se faça presente. 

Últimos dias na Alemanha. Não sei quando posto de novo (e de qual país o farei). 







terça-feira, 1 de março de 2016

Alligators

Nessa época de oportunismo e gente falando do que não sabe, eu preferi esperar pra falar sobre o David Bowie. A coisa mais legal que posso falar das lembranças que tenho dele e das músicas que ele fez, além do filme labirinto, é o começo do Ziggy Stardust. Quando ele grita "I'm an alligator" hahaha Eu sempre achei um ato de coragem enorme, de uma bravura poética poder se dizer um alligator quando na verdade você não passa de um cantor de rock. Eu achava hilário e admirável ao mesmo tempo. Enfim... quisera eu ser um alligator também.



terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A máquina do abraço

Ouvi dizer recentemente que autistas têm dificuldade de se sentir como unidade. Muito comum com entre eles o fato de, para se sentirem como unidade, terem maior idéia de onde começam e onde terminam, eles se escondam em lugares pequenos, debaixo de mesas, lugares estreitos, coloquem pesos em cima do corpo. Imagina, você sentir que seu corpo escapa de ti?

Eu sempre professei a teoria de que existe um espectro para tudo: masculinidade/feminilidade, inteligência, propensão a maldade, comportamentos neuronais atípicos etc.

Uma das coisas que descobri no final de 2015 foi que eu deveria implementar uma máquina do abraço para mim; algo que nutrisse o feedback de mundo do qual preciso para me sentir confiante, algo que me desse a entender que oque tenho feito está na direção certa, que (me ) é o bastante.

Resolução de 2015 que persistirá nas resoluções de 2016

Feliz ano novo a todos!

Próxima parada deste grande circo: Alemanha :)