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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

No olho do furacão (visita à antiga casa) - parte 3

Hoje no café da manhã, mesas e mais mesas de pessoas caucasianas com 4, 5, 6, 7 filhos e famílias, sentadas todas comendo suas pancake, bacon, fruit-salad-with-no-fruit-taste-at-all.

Um homem da mesa ao lado reconhece a conversa minha e de uma amiga, em português. Se apresenta, diz que fazia capoeira, e que adora português: 

" - smoother and more mellow than spanish...". Promete-nos que da próxima ira nos dizer oi e umas palavras em português.

Penso no que era viver aqui, no que era viver tão preso a uma coisa, a um título, como foi viver por 5 anos nessa terra. 

5 fuckin' longos anos!
Eternidade!
Years!
Yeah... it was hard!

Minha amiga fala do relacionamento, de como é ser acolhida por uma outra família que não a sua em terra tão distante. Fala das dúvidas, do break-up que antecedeu a vinda à terra do tio sam. Penso em mim, no mei trajeto, no eu barquinho que aqui chegou desconhecendo tudo, ignorante quanto a tanta "selvageria" que regia o país mais rico do mundo:
A riqueza
O conforto
A sujeira debaixo do tapete

Não consigo vir, ver e viver sem me lembrar dos dias aqui.  Penso no Brasil:
A riqueza
As frutas
A sujeira debaixo do tapete

E penso que é tudo igual, fruta de plástico ou não, conforto ou não, 8% of your taxes going to the military ou não, 8% of your taxes going to bribes and politicians in Brasilia ou não... logo me vendo preso no grande rabo-preso da lógica de uma pessoa que não sai do lugar, que descobre que os predicados tinham um rabo-preso com a conclusão, que por sua vez dependiam do predicado...que por sua vez....

Nessas horas eu paro, por que me é claro que estou sentindo falta de algo: de alguém, de alguma coisa que me preenche
-Alguém viu minha rotina? A perdi no caminho, há mais de um mês não volto pra casa... ela é uma menina magrinha e atarracada, que não gosta de luxos, e tem um cachorro e um aquário com um polvo...

Penso na minha rotina, perdida no aeroporto, chorando num cantinho até ser encontrada por um adulto responsável que a leve de volta para os seus.
Esse adulto: eu, que não volto pra casa nunca
Casa... quero voltar pra minha. 
Pra ser sincero, quero encontrar casa.... e ter vindo visitar a antiga só me fez ver que há anos, e anos, e anos, eu não tenho uma própriamente dita 

E pra variar, isso me lembra algo, the great, ela se não outra: Ella

" a chair is not a chair....

A room is a still a room, even when there's nothin' there but gloomBut a room is not a house and a house is not a home
When the two of us are far apart
And one of us has a broken heart"


[A house is not a home, Ella Fitzgerald]

Na verdade pensei nisso tudono café da manhã hoje cedo, enquanto ouvia minha amiga e, no fundo, pensava em mim, com ais ou menos a mesma idade vivendo aquelas coisas todas, e a acalmava, cheia de dúvidas de tudotodotipo. 

Isso tudo pra dizer que.... andei em círculos, e cheguei no café da manhã de novo. 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Direto da Terra do Sol Nascente #51: "shituation"

Vocês sabiam que os japoneses têm uma dificuldade enorme em falar "si" ou "se", falando ao invés "shi" ou "shê?

Éééé pessoal..quando falam inglês, não é incomum ouvir coisas como "Can I shit here?" te diz um japonês super educadamente.

Mas ok, pareço um adolescente besta falando. Sei que não é necessariamente engraçado, o ponto não é esse (ainda!). Queria contar um "causo" relacionado.

A última se trata de um acontecimento super Leminskiano1, neo-concretista,  digno de nota, onde quase morro de rir e me coloco num embaraço enorme.  Ocorreu o  seguinte: estava eu, na terapia, sentado num sofá e falando com minha terapeuta do outro lado. Aí digo

"-These last days, looking for a job, have been really complicated... I know that I have no control over the whole process, so I can only try to stay calm... but sometimes it is very difficult"

Aí a terapeuta vem com

" I understant.... I understand. This shituation..."

Aí não deu rsrs eu fiquei pensando na poesia daquele momento, em como uma construção daquele me havia passado despercebida, e em como descreve de maneira profunda a "shituation" que eu tentava descrever hahaha me segurei para não rir e dividir a piada, mas acho que dividir aqui tudo bem :)

Apesar da graça, consegui me equilibrar entre a piada e a admiração pela construção desse novo termo que agreguei ao meu  pobre vocabulário (é pessoal, esse sou eu: expatriado, esquecendo a língua materna...).




Sobre oqual vc pode ler mais em varios dos meus posts antigos: este aqui de 2016, este aqui de 2015, este outro de 2012...e este mais velho ainda, de 2010!

sexta-feira, 1 de março de 2019

A raposa e o porco-espinho (parte I)

 πόλλ' οἶδ' ἀλώπηξ, ἀλλ' ἐχῖνος ἓν μέγα 
"a fox knows many things, but a hedgehog one important thing"
 [trecho atribuído ao grego Archilochus]

Era uma vez uma raposa que caiu de amores por um porco-espinho.
O porco-espinho, reciprocamente, amava a raposa.
E assim o relacionamento dos dois seguiu.

Os dois eram muito diferentes: a raposa possuía uma visão de mundo fluida e desapegada, sendo até um pouco frivola por possuir tantas perspectivas simultâneas sobre tudo.
O porco-espinho, por outro lado, era de uma consistência admirável, embora de uma inercia insuplantável no que tange a agregar novos valores: inerte, embora sólido como uma rocha.

Mesmo assim, lado a lado, eles se amavam.

A raposa, em seu instinto de busca por aventuras, aprendeu a ver o mundo sob os olhos do porco-espinho, aprendeu a gostar de unidade e consistência.
O porco-espinho, por outro lado, se esforcava em depreender o olhar multi-facetado da raposa.

Os dois ao sol, um repousando na sombra do outro, cresceram por bons anos.

Mas o tempo passou.

O porco-espinho precisava de seguranca que uma raposa não conseguia dar, e tentava ao máximo se esquivar das barreiras que o mundo parecia lhe impor.
A raposa, dedicada ao ninho que os dois construíam mas volátil em seus interesses, buscava navegar pelas turbulentas águas do mundo animal sem se machucar e assim, intacta, remar até chegar são e salva ao porco-espinho, de cuja companhia tanto gostava.

Vítimas das vicissitudes da vida, foram cada um pra um lado, em busca não de alguém, mas de algo que desse um mínimo de sentido ou razão pras suas existências.

[Fim da parte I]
[Escrito em algum momento de Dezembro de 2018]

domingo, 11 de junho de 2017

A arte de se receber e de se dar (ou "A supresa")

Li por esses dias uma estorinha "Frog and Toad", de um canadense chamado Alfred Loebel, que aqui descrevo (em minhas palavras). As personagens principais são dois sapos, super amigos; convenientemente um se chama Frog e outro Toad hehe :)

Num dia de outono Frog acorda e olha pela janela: há folhas tomando o quintal inteiro. Ele pensa no amigo Toad e diz pra si mesmo:

-Vou fazer uma surpresa pro Toad: vou varrer seu quintal escondido.

Frog pega seu arado e sai escondido pela floresta pra ir até a casa do Toad.

Na mesma manhã, Toad acorda e olha pela janela. Folhas e mais folhas. Ele pensa no amigo Frog e diz a si mesmo:

- Que surpresa Frog teria se ele acordasse pela manhã e não tivesse folhas pra varrer.

Ele pega seu arado e sai escondido pelo pasto em direção à casa de Frog.

Ambos chegam nos respectivos destinos e descobrem que estão sozinhos. Rapidamente começam a varrer as folhas, e depois de muito trabalho as têm empilhadas num canto.

- Que surpresa Toad vai ter quando voltar pra casa, diz Frog a si mesmo.

- Ahhh gostaria de ver o sorriso de Frog ao se deparar com seu quintal limpo, diz Toad.

Serviço feito, ambos pegam o caminho de casa.

Já no meio do caminho, nenhum dos dois percebe o forte vento que bateu e desfez as pilhas de folhas que ambos haviam feito. Os quintais que haviam varrido estão, de novo, uma bagunça!!

Toad chega em casa e olha pro seu quintal todo cheio de folhas:

- Amanhã eu me preocupo com isso... ao menos Frog não terá esse problema.

Quase ao mesmo tempo, Frog chega em casa e vê o quintal tomado por folhas.

- Depois dessa trabalhão na casa do Toad eu vou deixar meu quintal pra amanhã. Ao menos fico feliz em imaginar a cara do Frog ao se deparar com seu quintal limpo.

Essa noite, Toad em Frog dormem tranquilos e satisfeitos imaginando a felicidade um do outro diante das surpresas que se fizeram.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Things in life: o sonho de Rafaello/the dream of Akinosuke


    [Dennis Brown - things in life]

Acordei essa manhã bem cedo... e continuei com sono. Continuei dormindo e tive um sonho: sonhei que me olhava no espelho e que havia algo entre meus dentes (achei que estivesse sujo). Aí tentei tirar e... quando vejo é uma borboleta. Me esforço e esforço para tirá-la da minha boca mas ela lá fica. Até que, surpreso, a deixo de lado e a observo.

Acordei logo na sequência pensando sobre o assunto e procurando desesperadamente no google oque um sonho do tipo poderia significar. Na grande maioria dos sites diz que borboletas são associadas a momentos de transição... me lembrei do personagem de cem anos de solidão que, pra onde quer que fosse, um bando de borboletas ficam ao seu redor (pro ódio de quem ia ao cinema com ele por perto rsrs). O mais interessante talvez tenha sido esse texto 


The Dream of Akinosuke tells of Akinosuke, a gōshi (yeoman or land-holding farmer) living in feudal Japan. Akinosuke often takes a nap under a great cedar tree in his garden. One day, Akinosuke is sitting under this tree, eating and chatting with friends, when he suddenly becomes very tired, and falls asleep.

Upon waking, he finds himself still under the tree, but his friends have gone. Coming toward him, Akinosuke sees a great royal procession, full of richly dressed attendants. The procession approaches him, and informs him that the King of Tokoyo (a dream world that Hearn compares to Horai) requests his presence at his court. Akinosuke agrees to accompany the procession, and when he arrives at the palace, he is invited before the King. To his astonishment, the King offers Akinosuke his daughter in marriage, and the two are wed immediately.
A few days later, the King tells Akinosuke that he is being sent to be the governor of an island province. Together with his beautiful wife, Akinosuke goes to the island, and rules it for many years. The island is idyllic, with bountiful crops and no crime, and Akinosuke's wife bears him seven children.
However, one day, without warning, Akinosuke's wife becomes ill and dies. The grieving Akinosuke goes to great trouble to hold a proper funeral, and he erects a large monument in his wife's memory. After some time, a message arrives from the King, saying that Akinosuke will be sent back to where he came from, and telling him not to worry about his children, as they will be well cared for. As Akinosuke sails away from the island, it suddenly disappears, and he is shocked to find himself sitting under the cedar tree, his friends still chatting as if nothing has happened.
Akinosuke recounts his dream. One of his friends tells him that he was only asleep for a few moments, but while he was asleep, something strange happened: a yellow butterfly seemed to come from Akinosuke's mouth. The butterfly was grabbed by an ant and taken under the cedar tree. Just before Akinosuke awoke, the butterfly reappeared from under the tree. His friends wonder if the butterfly could have been Akinosuke's soul, and the group decides to investigate. Under the cedar tree, they find a great kingdom of ants, which Akinosuke realizes was the kingdom he visited in his dream. Looking for his island home, he finds a separate nest, and investigating further, he finds a small stone that resembles a burial monument. Digging beneath it, he finds a small female ant buried in a clay coffin.

Só pra constar: minha borboleta não era amarela, mas sim  laranja com detalhes pretos (talvez seja uma reminiscência de uma camiseta do Jimi Hendrix que eu tenho e usei há alguns dias atrás)... enfim, se alguém tiver algum insight ou comentário...

[ninguém parece entrar nesse blog há tempos... então eu deixo como um post pra mim mesmo rsrs]
[Em todo caso, eu continuo intrigado]

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Esperando Rigoberto

Eua. Cheguei no aeroporto. Uffa. Desembarque. Ainda preciso pegar minha mala. É... não é bem uma conexão: eu que dei um jeito de fazer minha própria conexão, que me sairia mais barato. Preciso correr ainda pra descobrir onde fica a tal scandinavian airlines. Alguém aí sabe?

"Esteira #3"

Lá vou eu pegar minha mala. 

Passo pelo desembarque. Vejo um grupo gigante de pessoas com cartazes. Todas animadas. Num deles, um cartaz numa cartolina azul, lia-se

"WELCOME
RIGOBERTO!!!"

Eu olhei na primeira e me passou batido. Mas o nome... não pude deixar de olhar de novo, meio que perplexo. Rigoberto????!!! Aqui, no meio dos eua???

Por um acaso, minha esteira era logo ali. De canto de olho, eu olhava aquele grupo que esperava Rigoberto chegar. Grupo enorme, como já disse antes. Todos felizes. Riiiindo. Aposto que falavam de Rigoberto. Contavam histórias sobre ele. As pessoas se olhavam felizes, cartazes, um, dois, três, todos de cores diferentes. 

E nada da minha mala.

Uma vontade enorme de voltar lá e esperar Rigoberto também. As pessoas riam mais ainda. Vai ver contavam aquele caso do rigoberto... daquele dia que ele pegou carona num caminhão de maracujá na fronteira do Paraguai pra andar 5 quadras, caiu no sono e foi parar na Argentina. Ou daquele dia em que ele saiu vendendo biscoito globo na praia e não deu outra: voltou casado! Ou do dia em que ele vendeu o apartamento que o pai lhe deixou de herança no Meyer, comprou uma combi e saiu pelo mundo. Vai ver foi com esse dinheiro que ele veio pros Eua, e agora os amigos lhe esperam. Eêêêê... Rigoberto. As pessoas riam de felicidade e o esperavam.

Minha mala ainda nada.... espio de canto de olho: as pessoas estão agitadas, mas se abraçam. Uma criança segura e agita o cartaz azul no ar. Seria Rigoberto quem vem lá?

Não era. 

[Apito da esteira]

Chega minha mala. Olho pra trás. Fico entre me juntar ao grupo, pois me sobra tempo, e comer algo antes da jornada de 8 horas que me separa do meu destino. Penso com mais cuidado: talvez Rigoberto não apareça. Seria como um "esperando Godot", versão aeroporto. É... talvez seja melhor ir embora.

Esperançoso,  ainda olho pra trás mas uma vez. Não vejo muita coisa... só uma cartolina enorme e azul.



terça-feira, 20 de maio de 2014

Life beyond a barbed wire fenced sky
































[No final do inverno eu andava e ficava olhando para a copa das árvores, sentindo os galhos ganhando dimensão à medida que as folhas iam crescendo e brotando. Me pareciam em muito com cercas, arame farpado que crescia cobrindo o céu... talvez tentando impedir o inverno de regressar]

[Diversas vezes eu parei minha bicicleta pra ficar fotografando a copa das árvores por baixo] 

[Depois de um tempo eu larguei mão: me tomava um certo tempo parar, tirar o celular do bolsto e tentar capturar algo minimamente decente]

[Passei só a apreciar]

[Ficava pensando então em como seria um país em que o céu fosse feito de arame farpado: oque não impediria sol e chuva de entrarem, mas ainda assim seria um céu de cerca. Imaginei que, se muito alta, não seria vista e que, mesmo se as pessoas soubessem dela ela ainda estaria lá] 

[Não tive como não associar com a cerca que separa os EUA do México.. da qual pouca gente sabe e/ou vive sem nem mesmo imaginar que ela lá está. Fiquei pensando na analogia céu/terra, EUA/México, as pessoas cruzando o deserto pra procurar uma vida "melhor", o país da liberdade MAS com um céu feito de arame farpado ...etc.. o pensamento indo longe quanto à história na cabeça...aí desencanei e resolvi só postar as fotos]

domingo, 16 de março de 2014

O fim de uma era(?)


Um caramujo segue por uma estrada de terra. No corpo, somente a poeira dos lugares pelos quais passou. Às costas... digo, acima de sua concha, uma pequena mochila. Acostumado a seguir sozinho pelo mundo, ele conversa em voz alta consigo mesmo... às vezes se dirigindo à sua concha:

"-Me disseram uma vez que nós caramujos viemos todos do mesmo lugar... na verdade é uma história mais longa, que conta a origem de todos os bichos."

[pausa]

" - Nela, se diz que os caramujos vieram do umbigo de uma deusa... é curioso pensar por que do umbigo, né? O umbigo é só um botãozinho... como a gente sairia enrolado de lá?! Mas, ao que parece, era uma deusa com um umbigo meio engraçado, que parecia uma concha de caramujo... aí a gente saiu assim..."

O caramujo pára e pensa. Talvez devesse fazer um lanche, talvez devesse tentar ir mais adiante. 

"Então... não se sabe muito bem quando isso aconteceu....  As pessoas acreditam ter sido no fim da era mezosóica e que, com a criação de todos esses bichos, nós marcamos o começo de outra era...  quando, na verdade, o fim de uma era não implica o começo de outra... acho que são momentos de transição, em que as coisas procuram seu próprio lugar, de maneira a se ajustarem de novo, a se equilibrarem. É um processo... as coisas levam tempo para tomarem seus devidos lugares... isso se um devido lugar pras coisas ficarem de fato existir... quem sabe? "

[uma risada boba e breve]

O caramujo olha para um grande lago e pensa.. 

["será que é a baía de guanabara?" ]

" ...ainda acho que, ... não.. pérai... deixa eu pensar melhor.."

Olha para a paisagem... que talvez não seja nada mais que um grande pântano:

" acho que transições se fazem em grandes escalas... por que a transição se dá naturalmente com a chegada de mil possibilidades, de mil novos caminhos para serem seguidos. E todos eles, de certa maneira, parecem ser testados quando só um é escolhido... no começo ninguém sabe em que direção às coisas vão mas ...isso por que se todos os caminhos fossem pegos não se chegaria a lugar algum, não? "

[silêncio]

"... é... não se chegaria a nada. Desistir é, em muitos casos, ter que começar do zero, ter que começar de novo.. aí sim uma nova era começa... mas antes é preciso não ter medo de deixar esses projetos... ou mesmo sonhos, de lado... "

[pausa longa]
[pensativa]

"Não... não... acho que cada um desses caminhos talvez persista e ressôe nesta rota final .... Por que eles não foram abandonados, eles só não foram tomados como curso por alguma razão.  Mas enfim... são apenas sonhos, projetos que não vingaram... uma nova era seria o não medo de se começar do zero."

[O caramujo pára pra tentar entender oque disse...]
[Mas desiste, e se aconchega debaixo da sombra de uma folha]
[Quando sai, se depara com um sapo.]

Vendo-se entre a vida e a morte, o caramujo sente o silêncio e o vento frio a sua volta. O sapo lhe encara... mas depois de alguns longos segundos, salta para longe de sua vista. 

[respira]
[respira]

E segue viagem, carregando mais dessa vez em seu corpo um pouco da lama do chão por onde acabara de passar; seguindo adiante, ele continua sua peregrinação, mesmo sem saber muito bem pra onde vai.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Petúnia fugiu de casa

Callejón de la luna by Vicente Amigo on Grooveshark


[Play]
[Lugar árido]
[Ruas empoeiradas e sujas de terra]


Petúnia fugiu de casa.

Não havia jantar: foi quando os filhos se deram conta de que não havia alguém para alimentá-los. O marido, por ter dormido no sofá,  só se deu conta na manhã seguinte, quando fora tomar o café da manhã, pra depois receber seu costumeiro "bom trabalho" e um pacote com seu almoço. Petúnia havia sumido.. embora já estivesse ausente há muito.  

Petúnia nunca foi de dizer muita coisa.

Há um tempo sua cabeça entrou em parafuso, suas conexões aparentemente deixaram de funcionar: lhe faltava o carisma de sempre, seus amigos sentiam faltar nela o vigor "daquela Petúnia da época da faculdade". Às vezes sucediam-se breves tilts, como se a cabeça entrasse em choque.  Procurava o amor de todos, algo que lhe colocasse de volta nos eixos. Seria muito buscar o suporte dos amigos, seria pedir pouco o suporte da família? Era esparar demais, depois de todo esse tempo... amor negado, a cabeça desajustada, descabelada de vaidade, desafinada.... não conseguia pensar claramente, sua voz saia distorcida, alterada... (isso quando saía)

Sozinha e esquecida, Petúnia colocou alguns poucos pertences numa sacola e saiu de casa pra procurar uma nova vida.. e para nunca mais regressar.

sábado, 9 de novembro de 2013

Universo multiculturalista numa casca de banana (ou "Êsopidianas")

Essas cidades universitárias ao redor do mundo têm uma coisa que é legal e ruim ao mesmo tempo: o multi-culturalismo. Vc saí à noite e conversa com gente de Angola, da Turquia, Islândia, Hungria... e de quando em vez tropeça nas diferenças culturais entre elas. Esbarro nisso quase toda vez que vou ao lounge do departamento de matemática pra almoçar: as vezes vejo umas reuniões de estudantes de um país Z, sentados todos comendo umas comidas com cheiros esquisitos e comendo de boca aberta; no país deles isso é normal. 

[me pergunto oque eles acham dos meus hábitos ]

Há poucos dias eu estava nesse mesmo lounge, mas dessa vez sozinho. Esperava o microondas esquentar meu almoço quando, passando o olhar pelos arredores me deparo com uma estante cheia de livros velhos, folhas/rascunhos/rabiscos, uns potes velhos, um tabuleiro de go etc. No meio dessa bagunça, uma embalagem de macarrão feito de cartolina, com um plástico em cima, no qual havia uma banana cortada ao meio, já escurecida, aparentando algo não muito apetitoso. "-Isso deve estar aqui há dias", pensei. Já tendo visto o descuido de alguns estudantes com essas e outras coisas, resolvo jogar a dita embalagem com a banana cortada ao meio no lixo.

Livre de tais inconvenientes, devorei o meu almoço, escovei meus dentes e subi para minha sala. Não muito mais tarde, me chega este email 

[este é o email que eu recebi]

"
Did you throw a  macaroni paper carton on the lounge shelf into the trash bin today?
If no, sorry for disturbing you.
If yes, please note that I contained my banana into it and temporarily put the carton there at 12:17pm and picked it back at 2:28pm. There are plenty of space on the shelf. Please don't throw stuff that is not yours away. It gives an impression to the others that you think the shelf is your own shelf!"

Me senti meio mal pelo garoto  e envergonhado pelo que fiz. Fiquei pensando no que havia feito. Achei esquisito isso: pra mim aquilo era uma comida intragável, um resto não digerível de algo. Me pôs a pensar na quantidade de desentendimento que há nesse mundo por acharmos que nossa visão de mundo é imparcial e imbuída de respeito por tudo e todos. Não, não é.... 

Me fez lembrar de duas histórias, uma pessoal:  quando eu era criança minha família ia visitar um tio no interior do Paraná. A pobreza nos arredores existia, mas era difícil de detectar a meu ver: eu brincava com as outras crianças, elas brincavam entre elas e ninguém se importava com nada. Então teve um dia que eu voltei pra casa com um sorvete. Na rua da casa do meu tio estava o vizinho, que a gente chamava "Adaltinho": um menino magriiinho, que sempre só andava descalço e sem camiseta, que se aproximou e me pediu um pedaço. Não quis dividir, e nem mesmo pensei no caso. Aconteceu de eu tropeçar e deixar o sorvete cair no asfalto. O Adaltinho olhou pra mim, olhou pro asfalto -meio cinza meio marrom do barro dos pastos e arredores - e sem pestanejar, se jogou no chão e começou a lamber o sorvete que ali derretia, tentando desfrutar daquilo que, para mim, já não era um sorvete. 

[Não me lembro do que pensei dessa história na época... mas sempre me lembrei dela]


A outra história é um conto que ouvi; talvez da minha mãe, quando eu era criança. Será que era uma fábula de Êsopo? Não sei... mas creio que sim :

[Na verdade, nem sei se os animais eram esses mesmos... whatever]

Uma coruja, com medo de que sua prole seja devorada por uma águia que sempre voa nos arredores atacando os ninhos, chega para a águia e diz

"- Dona águia, dona águia... por obséquio, não devore meus filhotinhos como vc fez com os da minha última ninhada. Não posso ficar com eles a tarde toda pois preciso sair à caça para que eles tenham oque comer. Sem falar que trabalho meio expediente... não há como: eles passam a noite desprotegidos"

A águia, misericordiosa, virou para a coruja e disse: 

" -Certamente não os devorarei. Mas como hei de saber que são seus os filhotes? Para mim são todos iguais.... são todos comida."

Nessa hora e a coruja se viu às voltas com um grande problema: pior do que Copacabana e sua numeração de casas e nomes de ruas, era a numeração das árvores... ou melhor, a não numeração delas: deprovida de gps, de endereço ou de qualquer outra forma de localização, a coruja percebeu que sua casa era muito menos que um ponto no espaço euclidiano, mas sim uma poeira-quase-ponto num universo que só pertencia a ela que, não sabendo como,  sempre para lá voltava. 

" dona águia... não sei onde moro... mas sei como lhe descrever meus filhotinhos: são 3 pequenas corujinhas, doces e lindas. "

A águia disse que lhe bastava a informação,  reiterando que não haveria mais problemas ou mal- entendidos. A coruja deu-se por satisfeita e voou para casa mais tranquila.

Alguns dias depois aparece a coruja na casa/ninho da águia, chorosa, desolada:

"- Dona águia...como você pode!!??? Eu lhe disse quem meus filhotinhos eram!! E mesmo assim de nada bastou: cheguei ao meu ninho agora à noite e eles não estavam mais lá, só suas penas, para todos os lados"

A águia vira pra coruja e diz: 

" - Me desculpe... me desculpe. Sinto muito pelo acontecido. Saiba que me esforcei muito, mas todos os filhotinhos dos quais me alimento me parecem iguais."

[Pedi desculpas pro garoto do país X e lhe ofereci uma banana "nova".]
[Ele a recusou]
[No dia seguinte, de qualquer maneira,  eu levei uma outra pra ele.]

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O bêbado e a fada ("The drunk and the pixie")



Um bêbado jogado numa calçada como umas dessas tantas calçadas mundo a fora... assim como também são tantos os bêbados quaisquer jogados pelas calçadas por este mundo. Este, no entanto, viveu uma história muito particular numa noite de quarta feira na cidade de... numa cidade qualquer, como tantas outras que existem mundo a fora =)

Depois de muito beber e ter todo seu dinheiro tragado pelo fervor de sua necessidade por álcool e  máquinas de caça-niqueis, nosso personagem cai a duas esquinas do bar onde bebera e a não muitas  de sua casa, onde esposa e filhos o esperavam (àquela hora, já dormindo).




Assim, caído e sem rumo, ele arfa, como se lhe houvessem enfiado a cabeça num balde cheio de um viscoso  rum... o silêncio da noite só existe dentro dele... lá fora os pássaros cantam vigorosamente pelo começo da primavera: é noite, mas eles a atravessam cantando e piando. Nosso amigo murmurumina qualquer coisa...

[Aparentemente ele cantarola desafinadamente um Carlos Gardel]





Uma fada passando por ali e vendo a cena lhe dirige a palavra:

"- Oque se passa, amigo?"

O bêbado lhe responde:

" - Ehrrraaaae esss  dbdvsvjcme  ellliiia ..."

[Suas palavras soam mais como grunhidos]

"-Como?"

"-Wehggjjdienbbkk jnnn laaaaaalala"

"-Hummm... pelo visto o senhor bebeu muito dessa bebida que vocês homens tanto gostam. Ahhh vocês, homens... "

[ela termina a frase num sorriso irônico]
[...quase maroto]

-Faremos o seguinte então.... eu limparei o seu sangue e te darei a pureza da sobriedade de volta...só que pra isso terei que lhe transformar numa lagarta.

[O bêbado tenta levantar a cabeça...]
[ parece estar tentando entender quem ali está menos sóbrio]

Num balançar de mãos e braços suave - como num passe de mágica - nosso amigo é metamorfoseado.

Subitamente sóbrio, ele tenta tatear seus bolsos. Logo, descobre que não tem mãos.

-Ó, céus... sou uma lagarta agora!... como terei uma carteira de agora em diante?

A fada, logo ao lado, lhe responde:

-Se enxergue!!! Você é uma lagarta!!! Lagartas não usam carteiras e muito menos têm bolsos!!

O homem se olha, dá algumas voltas procurando pela própria cauda...e diz.

"-Estou sóbrio... estou sóbrio..."

[A fada assiste àquilo em silêncio]
[Ainda mais por que o homem parece falar consigo mesmo e não com ela]
[...]
[mais silêncio]
[Passam-se alguns minutos, os quais a lagarta passa dando voltas caçando sua pŕopria cauda]

Até que a lagarta, antes um bêbado, diz

"-Obrigado, senhorita fada.... agora poderei voltar ao bar para uma nova rodada."

E seguiu adiante, rastejando e assobiando enquanto a fada mexia os braços e gritava 

"Vai pra casa, lagarta!!"


[Fiz esses bonecos com massa de fazer macarrão...]
[...enquanto meus amigos trabalhavam fazendo macarrão para todos no grupo comerem eu ficava lá, esculpindo esse bêbado]
[Devo agradecer a um amigo meu que disse que o boneco parecia estar bêbado, já que ele só caia e não parava em pé]
[A partir disso a história meio que seguiu naturalmente...e ele acabou se metamorfoseando em uma lagarta]
[ No final, como ele tinha que virar macarrão para alimentar aqueles glutões, tivemos que sacrificá-lo naqueles rolinhos de preparar spaguetti]
[O mesmo amigo então sugeriu que filmássemos o nosso amigo "caterpillar" (prefiro a palavra em inglês) sendo deglutido vorazmente por aquela máquina...mas a luz estava muito fraca e não saiu nada no vídeo: nosso amigo caterpillar ( o "real") morreu sem honra ou glória alguma...]



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O flamingo e o coelho

Ao olhar pra baixo já se podia perceber: os rios estavam todos congelados. Ele voava, voava e voava... talvez com mais intensidade por querer se afastar daquilo, que mais lhe pareciam artérias coaguladas.

 " -Embora rios congelados não morram... ou seria como morrer e desmorrer logo mais?", disse em voz alta.

O coelho pensava/refletia enquanto voava. Suas asas recém adquiridas podiam lhe levar longe e lhe fazer voar alto. De qualquer maneira, depois de tanta distância, achou melhor se quedar no alto de uma montanha para um breve descanso.

[Barulho de pouso de coelho]
[Como os coelhos em geral não voam e não têm asas, imagine um ser bem estabanado tentando pousar]


O coelho pousa e se senta ao pé de uma árvore. Ouve um barulho ao longe de algo que caminha em sua direção. 


[Um flamingo...]
[ ... um flamingo vermelho, muito vermelho]


"
- Quem diria que te encontraria por aqui - disse o coelho."

"
- Não é?" - disse o flamingo. "- E vejo que agora você também tem asas!!"


[Risos]

[Os dois se abraçam, como velhos amigos que parecem ser]

"
- Péraí..." - diz o coelho


[O coelho cospe nos pés do flamingo]
[O flamingo, ri desenfradamente]
[Passam-se alguns longos segundos-quase minuto  - em pleno riso]


"
- Ai ai...pelo visto você não mudou nada. Bem sabe que o seu cuspe me queima a pele."

" Ihhh é... me desculpe, " diz o coelho.

" - Que é isso, Eu até gosto. Soubesse eu cuspir sairia cuspindo em todo mundo que vejo lá embaixo enquanto vôo."


[Os dois riem novamente]
[...como antes, por alguns bons segundos-quase-minuto(s)]


"-Entããão... até mais!! ...", diz o coelho

"-Inté", diz o flamingo

O coelho sai em vôo - estabanadamente, como quando do pouso - enquanto o flamingo o observa de longe até que ele suma de sua vista. O flamingo s
uspira... olha os arredores, olha pra copa das árvores e todos os seus verdes ... olha o céu azul com suas poucas nuvens... e diz em voz alta: 

"- Acho que vou à pé" 

E segue andando calmamente por uma trilha no meio da mata.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Quelônio-errôneo-errante ( cartoonizado)

[Um amigo me relembrou dessa estória durante uma viagem de carro em Mallorca]
[Havia pensado inicialmente em fazer uma camiseta sobre essa história,]
[mas como estou dando uma desanimada de desenhar camisetas, acabei só desenhando no meu caderninho mesmo]
[Os desenhos foram feito durante o atraso do meu vôo Eua- Brasil.]
[Eu reli o post do quelônio errante, do qual nem me lembrava, e fiquei rindo sozinho]
[Os risos me motivaram a desenhar/ilustrar a estória, como vcs verão abaixo]
[Eu vou colocar aqui oque escrevi na época pra acompanhar os desenhos]



É fato, velho e sabido pelos habitantes do mundo afora, que algo não cheira bem no reino da polinésia francesa.

Por este e tantos motivos, seus habitantes, como muitos outros animais, de lá têm saído para procurar novos lares (para não dizer novos ares, o que nos levaria ao mesmo ponto de antes - na linha de baixo apenas). Diante de tais proposições, à princípio descabidas, admito, mas que fazem sentido, devo me explicar para que o leitor, no aconhchego do seu lar quentinho nos trópicos,  posso me entender. Tudo começou na última manhã de domingo, quando eu, o sr R, fui ao mercado comprar frutas e verduras.


Interlúdio: Essa é uma história verídica
Interlúdio #2 : tirei essa introdução dos programas policiais norte-americanos..eles adoram isso =)


Manh
ã de  domingo - 12 de setembro de 2010 - Itapopoca - Indiana - U.S.
Saí para fazer a acima mencionada compra do lar. Não sei se posso chamá-la "do lar", pq a compra só diz repeito à mim. Eu, por mim mesmo, não constituo um lar... e o indiano que mora aqui em casa não é bem o que eu chamo...tá...voltando... eu estava indo de bicicleta pro mercado que considero o melhor de todos para os produtos vegetais que crescem nas prateleiras. Lá fui eu, com a minha bicicleta vermelho-preta com uma "caixa de cerveja" na garupa (não se trata bem de uma caixa de cerveja, mas é parecido..qdo tiver uma foto eu posto aqui). Desci a rua na manhã fria de Itapopoca de maneira veloz, de maneira que o vento gelado, de tão gelado, quase arrancou-me o nariz. De fato, o arrancou, mas eu tinha outro no bolso e coloquei no lugar.

Segui viagem. A sabedoria dos amigos que andam pelo mundo me fez virar à esquerda no fim da descida, e assim eu encontrei o/um atalho. Isso iria fazer toda a diferença...pois isso me levou a encontrar o que adiante eu vou descrever.

Peguei o atalho de maneira sensata, sem grandes arroubos sobre a minha bicicleta. Não poderia bater de frente com o vento, pois não haviam mais narizes no meu bolso caso eu perdesse o que eu tinha no vento gelado. Fui, cauteloso e sensato...até chegar na 10th street. Lá, como de costume, pedalei, como nunca pedalei antes..mentira, como pedalo sempre: até encontrar o farol fechado.




Parei na grande esquina da 10th com aquela outra rua gigante que nunca lembro o nome. Mas é enorme, e já parece uma estrada, pois nos arredores não tem quase nada (além de uma loja estranha que nunca vi aberta e a linha do trem.








Olho para o alto e vejo o sol, que me importuna. Sol que importuna os que andam pelo mundo..queria eu estar do lado de dentro do carro que ao meu lado estava. Sob o sol somos diferentes, mas sob o farol, os mesmos: os dos parados, esperando o farol abrir. Eu, no frio que virou calor repentino de Itapopoca; e o dono do carro no ar condicionado da Hiunday, esta de algum lugar do mundo (da China, provavelmente).







Olho para a continuação da estrada que terei que percorrer. Subida grande.

"PQP...merda de subida..."



[Inventaram a bicicleta com marcha, ma nada que substitua minhas pernas para que elas não tenham que fazer este trabalho todo]

Olho mais atentamente.. o sol me ofusca a vista. Apesar disso, vejo algo se movendo no asfalto, logo depois da rodovia que cruza com a avenida que espero para atravessar (maldito farol).

[Deve ser um esquilo (um que não foi morto pelos moradores de Itapopoca que têm licença para caçá-los)]

Farol verde.

Sigo adiante, enquanto o dono do carro ao lado vira à esquerda ou direita.. de forma que não segue na mesma estrada que eu, que pedalo então sozinho e resignado, em direção ao desconhecido....que de perto, já não é tão desconhecido..





"CARALEO!!! UM QUELÔNEO!!!!!"



Disse isso bem alto...mentira..não disse isso porque não tenho certeza do que é um quelônio...Mas o som teria sido agradável, por que soa bem..
CARALEO < QUELONEO < QUADRADO < PERITÔNEO < NEURÔNIO

Disse, isso sim:

"CARALEO!!! UMA TARTARUGA!!!!!"

Não sabia o que fazer diante do meu espanto... ela estava atravessando a rua, com o pescoção esticado. E parecia que estava se esforçando para atravessar a pista rápido. Não sei como ela havia conseguido chegar quase ao meio da pista sem ter sido atropelada, por que a outra faixa estava completamente movimentada: não parava de passar carros.









Joguei a bicicleta no acostamento, e parei pra ver se algum carro vinha ao encontro da pobre tartaruga ( e de mim, que tentava fazer algo por ela).

[Nenhum..não na minha, ops, faixa dela]










Corri em direção a ela e pensei:

[puts..será que morde?]


"Bom, foda-se!"










E peguei o bicho pelo casco. Foi engraçado, por que ela se escondeu na hora.. fez até um barulhinho

[puffffff][.....]




como se fosse uma almofada que alguém senta em cima... fiquei rindo sozinho. Ela ia ficar ali, no meio da pista, dentro da casa dela? Eu hein...se eu já acho viver em Itapopoca complicado, que o diga morar numa casa, no meio de uma faixa numa estrada, com um monte de carros passando. Levei ela até um gramado enorme que havia no mesmo lado que eu havia deixado a bicicleta. Ela, ainda escondida dentro de casa (provavelmente estudando meus movimentos pelo olho mágico que deve haver no casco); eu, rindo de todos estes artifícios dela para fingir que todos sairam pra jantar, volte outro dia.









E então segui, deixando a tartaruga para trás. Mas a dúvida veio ao meu encalço (acho que ela pulou dentro da minha cesta de cerveja): porque eu não a ajudei a atravessar a pista? Será que eu fiz certo em tê-la colocado do mesmo lado que ela havia começado?





Uma merda isso de ter consciência.. e isso que eu tenho pouca perante os meus atos e comportamentos. Fui pro mercado pensando no quanto o bicho deveria me odiar pelo que eu fiz.






E se ela tinha marcado com um tartarugo do outro lado da pista e, no meio da viagem, eu cheguei pra atrapalhar? Caramba, o tartarugo pode ter ficado puto com a demora dela (já que ela teria que atravessar metade da pista de novo) e foi embora. Vai que ela estava tentando um suicídio e eu, no alto do meu altruísmo, estraguei o seu intento.








Estas e tantas outras perguntas coerentes passaram pela minha cabeça enquanto estava no caminho do mercado, no mercado, e na volta do mercado... ao menos até o cruzamento, já que voltei pelo mesmo caminho que fiz.








Nenhum sinal da tartaruga.
Nenhum rastro na pista.
Nem de pneus,
Nem de casco,
Nem de casa/casco.






Então parei no cruzamento, olhei pra minha cestinha de cerveja na garupa e falei:

"Consciência, vc está muito pesada. Desce agora, nesta mesma esquina que te encontrei"











Se ela desceu da cestinha ou permaneceu escondida, eu não sei dizer a vocês.
Mas não podia deixar de lhes contar essa história.















ps: na polinésia francesa, presumo, deve haver muita tartaruga. E no geral, as tartarugas devem sair de lá por que os franceses comem elas ( e os caramujos tbm).





ps2: a polinésia francesa deve ser francesa mesmo, por que se fosse minha eu ia colocar "polinésia do Rafa, aquele menino legal do carnaval"
ps3: qual o nome da sua polinésia? Ela tem programa pro próximo sábado à noite já? =P




[ps4: há um adendo ao post do quelônio errante aqui, ó]