"Since I had nowhere permanent to stay, I had no interest whatever in keeping treasures, and since I was empty-handed, I had no fear of being robbed on the way"
[Matsuo Bashô , The records of a travel-worn Satchel]
Há algumas semanas conversava com um amigo indiano que estava pra voltar à India pra casar. Havia enrolado a namorada uns 5 anos, até que ela e as famílias dos dois deram uma pressionada e ele cedeu. Eu, curioso, resolvi perguntar mais sobre o caso.
- Mas pérai... como as pessoas se conhecem e casam no teu país se você não pode chegar numa pessoa diretamente?
- No meu caso, eu falei pra minha mãe o tipo de esposa que eu queria.
- E que tipo que era? - perguntei.
- Tinha que ter mais ou menos a minha idade, e ter um mestrado.
- What!!! Mestrado? Pra que que você quer um mestrado?! Tanta coisa boa pra procurar em alguém e você quer um mestrado?!
- Ahhh deixa a vida mais fácil. Seja por conta das conversas que podemos ter, ou caso a gente mude de país... Aí ela pode aprender outra coisa mais facilmente, ou encontrar um emprego com mais facilidade.
Na hora fiquei pensando a respeito e vi que, de alguma maneira, até fazia sentido... Me perguntei então se também tenho exigências do tipo. Ou pior, exigências implícitas, que nem me dou conta! Será? Fiquei pensando na hora e cheguei à conclusão que sim, estudo conta, claro. Mas, no meu caso, acho que a combinação "letrada e safada" seria o melhor dos dois mundos :)
Fiquei me imaginando num mundo em que eu fosse indiano, falando isso pros meus pais:
"-Olha, mãe. Olha, pai.... pra inteligência a conversa basta. Agora... ser safada... é mais difícil, né? Safadeza é química, jeito de olhar, de desejar, de se doar". É... o tipo de coisa que é fácil de saber quando está ali, mas difícil de descrever pra alguém... e meus pais, os conhecendo bem, certamente errariam na escolha: se dependesse da minha mãe, casaria com alguma filha de amiga dela, fofinha, meiga, etc. Por outro lado, se dependesse do meu pai, acabaria com alguma mulher bem barraqueira, sem juízo algum.
É, pessoal.... independentemente do cenário dos horrores acima, ainda fico feliz por poder fazer tal escolha e "errar por mim mesmo", pois se tivésse nascido na Índia teria sido um celibatário sem salvação. Ou, se dependesse dos meus pais, bem mal arrumado no amor.
Esqueci de dizer: o post Garotas de Ipanema nasceu de um fato curiosamente desconfortável: ao fim de uma entrevista de emprego na semana passada o entrevistador me diz:
"-So, you are brazilian... you know... I like your president, Bolzonaro..."
[Nessa hora já sabia que viria merda pela frente]
"-...he's a funny guy,"e deu uma risadinha.
Aí fiz um meio campo, sem abertamente divergir dele. Falei que era uma pessoa controversa, impulsiva, que não é muito racional em suas atitudes e falas... mas o senhor que me entrevistou não parecia querer me ouvir, e falou um pouco me atravessando
"- did you see what he sad about Sarkozy's1 wife? He showed a picture of his wife and said 'that's why he is envy of me'... hahaha he is funny"
Aí não deu mais, comecei a divergir mais abertamente dele: disse que não gostava do Bolsonaro, que era uma pessoa perigosa a democracia do Brasil edo mundo, com atitudes pró ditatoriais e pró violência. E que ele [entrevistador], vindo de onde veio [Bósnia], um país devastado por uma guerra-civil horrível, deveria ter profundo despreso por esses tipos de líderes, com atitudes tão anti-democráticas2.
Ainda assim, divergia com tato, com a clareza de que o entrevistado ali era eu. Essa parte que tornou o evento algo incomum, e me fez refletir bastante sobre o tema: uma das reflexões, em virtude da piada idiota que o entrevistador achou engraçada, deu origem ao post anterior; a outra foi sobre essa assimetria de forças, origem da nossa conformidade com tanta coisa ruim que acontece por aí. Lembrei de um dos candidatos a presidência dos EUA, o Andrew Yang, falando sobre um plano de assistência básica a todos. Dizia numa entrevista algo como:
"-Imagine alguém que sofre assédio constante no trabalho, mas não tem condições de dar um basta naquilo por diversos motivos - filhos, doença etc. Esse auxílio serviria para isso, para dar uma possibilidade das pessoas terem uma vida melhor, para liberá-las desse tipo de coisa".
Quando o ouvi achei incrível: realmente, ao longo da vida ouvimos e fazemos muita coisa que não queremos pura e simplesmente por sermos o elo mais fraco nessa grande cadeia que move o mundo. Me lembrei de uma época em que descobri (por minha ex) que um conhecido meu havia abandonado a academia - um americano, que já era tenure track há anos - e estava trabalhando na área pra qual estou indo. Apesar da insistência de alguns pra que o procurasse, lembrava das poucas interações com ele e, acima de tudo, de um acontecimento que havia virado motivo de asco entre algumas amigas de onde estudei durante uma época: uma delas me mostrou um poster sobre um evento chamado "O papel das mulheres na matemática", ou algo assim, no qual havia a foto de 5 palestrantes... claro, todos homens (e brancos).
"-Do you know this guy? What an asshole", ela me perguntou.
Já o achava bem diferente de mim quanto a valores científicos, mas depois daquilo eu realmente fiquei com um (ou vários, na verdade!) pé atrás quanto a ele: como assim, trabalhar com alguém pelo qual não tenho admiração alguma, com o qual divirjo em assuntos tão fundamentais?
Claro, penso no meu chefe atual, com o qual divirjo em gênero numero e grau em diversos aspectos, mas com o qual trabalho (well... melhor dizendo, sob a chefia de quem trabalho mas com o qual, felizmente, raramente interajo). Viver é realmente caminhar por uma corda bamba... me admiro de sair de 5 minutos de uma conversa bizarramente desagradável e tirar tanto dali. E ao longo do caminho há de ser assim mesmo: vamos estar cercado de pessoas que discordam e pensam diferente da gente, que tem valores muito díspares dos nossos. E isso é normal, pois eles também devem se chocar com os nossos valores e modo de vida. Mas... é escolha nossa não cmopartilhar nossa essência com algumas delas, e enquanto eu puder eu farei o máximo pra não trabalhar para uma pessoa com a qual, préviamente, já sei que discordo.
Paciência... paciência...
1 Provavelmente ele quis dizer Macron. O fato, infelizmente, foi motivo de profunda vergonha para mim e para muitos brasileiros (link do Washington Post)↩
Ouvi isso do meu chefe esta semana, ao comunicá-lo sobre uma viagem para ver minha família. Na hora, fiquei desacreditado."-WTF.... será que respondo a uma pergunta tão idiota?", pensei. "-Vou no Brasil pegar concha na praia e comer tapioca, sua anta!".
Me calei, contido: não disse nada.
Fui desenrolando a conversa. Abordei o xis da questão, o workshop idiota da empresa acontecer quase no final do mês de dezembro (oque antes acontecera no começo do mês). Me senti afrontado diante disso: onde já se viu, uma empresa com um monte de estrangeiros, fazer um evento desses no final do mês, ferrando todo mundo que pensa em viajar e ver a família?! Fiquei simplesmente puto, e fui conversar mais puto ainda com ele, disposto a construir uma outra ponte além das que já tento construir no momento; dessa vez uma ponte que me permita não participar dessa palhaçada: será que realmente tenho que ir nesse evento?
"-Claro que tem!", disse meu chefe.
Claro!!!!! Sim!! Justamente!! Faz todo o sentido mesmo: trabalho na empresa, então tenho que ir no evento, mesmo que ele seja totalmente em japonês (num japonês super formal, do qual entendo quase nada), e no qual eu devo falar - melhor, me apresentar- por no máximo 2 minutos, se é pra ser como foi no ano passado (frisando: 2 minutos num evento de 5 horas).
Sem sombra de dúvidas.... faz muito sentido! 😋
Diante dessa conversa absurda na sexta, passei o domingo meio estranho1... logo debaixo do coração parecia haver uma pedra, daquelas que não deixam o rio fluir em paz, sabe? Minha cabeça embebida em raiva, eu imaginando belicosamente como abordaria a questão na segunda de manhã, numa outra reunião. "-Se as coisas não saírem como eu espero eu viro a mesa, 'chutopaudabarraca'", pensei por boa parte da tarde.
Foi interessante, me pegar assim raivoso, chutando pedras e abatendo nuvens a tiros: raramente sinto isso, essa hostilidade por alguém ou algo. Assim que senti isso e não pude me desenredar dessa pedrinha dentro de mim, sabia: "- eu não estou agindo racionalmente..." Foi o momento de parar pra tentar entender melhor oque estava rolando, a não me precipitar, a ver oque está em jogo, a ver como, em uma possível conversa, não me deixarei levar pela raiva em me sentir roubado, mas sim ouvir e falar com tranquilidade, e aceitar oque devo aceitar, sem fazer do chefe, pelo qual não nutro admiração alguma, um indesejável inimigo.
É complexo isso: quando achamos que alguém se põe no nosso caminho por maldade ou por pura falta de consideração, agimos como bicho: voltamos a ser instintivos, protetores de nós mesmos. A sensação é tão desagradável, que hoje saí de casa só para tentar difundir isso no meio, me sentir menos preso e definido só por isso. Enquanto caminhava, me lembrei de que esse sentimento, que mais parece um veneno, já havia me visitado: uma vez, enquanto na pós nos eua, puto que estava com o departamento onde estudava, com os docentes pros quais trabalharia naquele semestre. Sim; havia ali também oque havia notado neste caso: alguém, me roubando de algo. No caso, me roubando do meu tempo com minha família. Incrível como temos uma memória emocional que funciona como músculo: em situações semelhantes, (re)agimos e interpretamos o momento da mesma forma.
Me custou dividir a questão. Me custou olhar pro outro lado. Me custou abrir mão da minha belicosidade, da minha vontade de ir à guerra e fazer meu chefe ouvir tudo aquilo que tenho a dizer e que acharia justo ele engolir goela abaixo... não: entrar em guerra não é a melhor maneira de se resolver um embate.
Meditei um pouco. Amanhã, antes do trabalho, tentarei meditar mais um pouco: logo cedo terei outra reunião para abordar a questão da ida descabida ao workshop desnecessário... desconforto que espero, com calma e sabedoria, poder remover daqui de dentro do meu peito, onde ainda sinto que ele me cutuca.
[Como dizem mesmo no serenity prayer:] [God, grant me the serenity to accept the things I cannot change, Courage to change the things I can,And wisdom to know the difference.]
1Curiosamente, pulou um dia, pois o sábado foi relativamente tranquilo, e mal pensei na questão.↩
Acordo cedo, vou ao banco. Na tv, uma parada militar. Pelas cores do uniforme chuto "coréia do norte". Aí aparece o presidente gordinho deles, que mais parece um virgem de 30 anos, mimado.
Não entendo nada, só vejo bombas e tanques.
Chego no trabalho hoje e me perguntam:
"- Você recebeu o J-alert essa manhã?"
"-O J... oque?"
"J-alert!!"
Aí me contam, que a coréia do norte lançou um míssel pela manhã que sobrevoou o Japão.
Eu tive um amigo nos eua que vivia me dizendo que brasileiros, quando se encontravam, era uma festa: começavam a dançar, se abraçar e tudo o mais. Mas isso mudou pra mim em algum ponto: uma conversa no elevador em português e você se faz de desentendido... uma prosa num restaurante e você nem aí... oque há em comum além da língua? Clarom há muito, mas ... não não, não é o bastante. E então, encontrar brasileiros perdidos ao redor do mundo se tornou um pouco desconfortável... ainda mais quando eles insistem em falar do Brasil.
É interessante ver alguns condenando o modo de vida brasileiro... "simples", alguns dizem. Eu acho que é o contrário. O modo de vida europeu é tão simples quanto. E, sinceramente, se você mora na américa e quer ter um padrão/modo de vida europeu você vai ter que ter muito dinheiro. Da mesma forma, se você mora na europa e quer ter um padrão de vida "tropical" (café da manhã com frutas variadas, viagens à praia etc) vc certamente vai ter que ter muito dinheiro. A diferença toda está no que as pessoas consideram como simples e no que elas consideram como luxo. Infelizmente as elites dos países latino americanos têm os olhos voltados pra europa e eua.... por outro lado, a elite européia e americana têm os olhos voltados pros próprios umbigos (vide Donald Trump... meu deus, que foi aquele último debate republicano!??! )
E acho que isso volta um pouco àquilo que eu reparei assim que pisei aqui: a funcionalidade. Acho que a idéia toda da alemanha está nessa simplicidade, nessa funcionalidade sem fancyness, evitar o rebuscado desnecessário, o excesso. E o Brasil, de certa maneira, têm um pouco dessa virtudo, de maneira não consciente. É incrível o viralatismo brasileiro: nunca vi povo que se une tanto pra falar mal, pra esculhambar, pra açoitar tanto sua história e seu povo.
Acho que começo a fazer as pazes comigo mesmo, de alguma maneira. A Alemanha e o frio norte americano me têm sido uma lição de humildade sem fim.
Quando vc mora sozinho você acaba desenvolvendo uns hábitos muito estranhos. No geral eles aparecem pra que vc se entretenha. Eu descobri que isso não era tão não usual depois de ler nos livros do Amir Klynk que ele também fazia isso durante suas expedições. Uma das coisas que faço, meio que por acaso, é inventar músicas sobre coisas estúpidas que acontecem. No geral o processo e composição acontece na cozinha, enquanto lavo a louça ou cozinho. Então o post de hoje é dedicado a isso: todas essas canções maravilhosas que já compuz hahaha Aqui vai uma lista de títulos:
# 1) You forgot to buy tomatoes
# 2) You have enough kiwis for the week.
# 3) Laundry, sweet laundry
Bom...melhor parar por aqui e ir curtir meu halloween =)
Carnivoris danishiusmanholeous: discovered in the early XXI century by the Brazilian explorer Raffaello Monterius (1984- ), this fine specimen was first found hidden in the asphalt of a calm Copenhagen street (Denmark) while it tried to bite defenseless tourists in the surrounds of the Danish Royal family castle. According to specialists in urban jungle fauna/flora of the University of Danish Columbia, there were strong evidences that the plant/animal was running away from the Royal family garden across the street; the spokesman of the king and queen vehemently denied all the assertions of this kind. Later on, the king himself contested the discovery while other members of the Amalienbourg palace supported the theory that Raffaello had brought the animal from Brazil; the explorer was never found to confirm these assertions.
[Meu primeiro "graffiti"]
[Feito durante visita a Copenhagen no começo de Julho de 2015, perto do palácio de Amalienborg]
[Fiz morrendo de medo de ser pego pela guarda do palácio]
Não ficou tão bom quanto eu gostaria. O bueiro original foi avistado durante um passeio de bicicleta, o quel eu tive que interrromper pra tirar uma foto desse monstro que havia avistado =) ]
[Sinto-me feliz de ter sobrevivido para relatar a história a vocês, leitores ]
[O bueiro original tinha alguns remendos de asfalto ao redor. Na hora
avistei oque era o tão misterioso bixo/planta (foto abaixo)]
Não sei ao certo como se deu a história toda: estava na sétima série e meu grupo - eu e mais dois colegas- devería procurar sobre o conceito "democracia" no dicionário e tecer comentários sobre como e se as definições lá encontradas concordavam de alguma maneira com o a forma como eram empregadas.
Chegamos na sala, e lemos a definição que havíamos encontrado: [vou fingir aqui que era a do Wikipedia, por que não tenho dicionário de português aqui]
"Democracia("demo+kratos") é um regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), direta ou indiretamente, por meio de representantes eleitos — forma mais usual. Uma democracia pode existir num sistemapresidencialista, parlamentarista,monárquico constitucionalerepublicano.As Democracias podem ser divididas em diferentes tipos, baseado em um número de distinções. A distinção mais importante acontece entredemocracia direta(algumas vezes chamada "democracia pura"), quando o povo expressa a sua vontade por voto direto em cada assunto particular, e ademocracia representativa(algumas vezes chamada "democracia indireta"), quando o povo expressa sua vontade por meio da eleição de representantes que tomam decisões em nome daqueles que os elegeram."
e concluímos que sim: o Brasil era um exemplo de democracia.
O professor olhou pra nossa cara - estarrecidíssimo - e perguntou ( nítidamente puto), certificando-se do que acabara de ouvir:
"-Como? "
Demorei mais uns dois anos pra entender aquela reação e o discurso que ele fez na sequência.
Em tempos como os de agora, em que o Brasil anda buscando "algo", deixo uma música de cunho político e que fala da surdez dos governantes e daqueles que tomam conta do poder (acho que o contexto em que foi feita era o de uma guerra: Vietnã, Iraque, não sei). É uma versão da qual gosto muito e que, embora não seja minha favorita , talvez seja do agrado do público jovem-ma non-troppo que visita o site.
[A idéia desse show foi muito boa:]
[ os caras gravaram um monte de músicas com intrumentos de brinquedo...]
Incrível pensar nisso, mas hoje faz um ano que cheguei a esta terra. Eu, Rafael A M Staden, acreditando que seria devorado por selvagens nesse dysneylândinóspito país, acabei resistindo.
É pessoal... um ano....
Depois das férias no Brasil, em que eu li o livro do Amyr Klink, eu passei a ver essa minha passagem por aqui como uma longa jornada em que eu tenho que remar e remar pra atravessar um oceano de conhecimento, saudade, pessoas, junk food e outras coisas.... para poder aportar enfim em alguma terra e encontrar algo que eu não sei oque pode ser.
[ou seja... futuro vago e incerto =]
A saudade, chega uma hora, deixa de vir tão frequentemente; os selvagens locais já não são mais tão hostis a você, que começa a se adaptar melhor e a ver o que te cerca mais amigavelmente. Acho que aquela frase do Old Boy:
ria e o mundo rirá com vc, Chore, e vc chorará sozinho.
[acho que era isso]
expresa bem essa mudança de perspectiva. Ter isso em mente faz as coisas fluirem mais facilmente....e então você pode seguir remando, remando...
Embora já há um ano por aqui, sempre me lembro da supresa inicial, do choque, e da angústia. Não houve muito deslumbramento, oque me fazia pensar muito em Pero Vaz quando se dirigiu ao rei de Portugal na sua carta em que descrevia essa terra chamada Brasil.
Termino o posto roubando as palavras de despedida de Pero Vaz:
[meus poucos leitores: a vocês deixo o papel de alteza =]
"Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé! E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo."
[a parte em que ele fala em "salvar a gente" local é demais] [ hahahaha]
Passando pelo miúdo então, me despeço por hoje
[mentira...não vou passar pelo miúdo não, mas ir ao supermercado, isso sim ]
Olha.. o vídeo de hoje é meio peconceituoso... mas eu vou colocá-lo aqui por conta do seguinte fato: ele exemplifica muito bem meu argumento (vcs verão e hão de me dar razão). Mas, acima de tudo, o vídeo é um desenho, com uma crítica política.
Então tá valendo =)
O ponto é que, eu estava, há muuuuuito tempo atrás, esperando pra fazer meu exame de proficiência na lingua do p..qdo comecei a trocar uma idéia com o pessoal na sala de espera. Um cara - não sei de onde - e uma chinesa.
[papo vai] [papo vem] [fala mal do clima] [papo de elevador]
e o cara é chamado pra entrevista. Sobramos eu e a chinesa, que, depois de mais conversa me perguntou:
"-Whe p re p are p you p from?"
Aí eu falei
"-Bra p zil"
[espero que vcs entendam a lingua do p]
[eu sei, é complexa]
Aí ela falou (traduzido) um:
"- Wow.. I though you were from Europe....actually, all of you are similar.. you all look the same"
Aí eu ri, mas não falei pra garota que, toda vez que eu vejo um filme do Kar Wai (sul coreano) eu me perco todo, por que o cara que morreu na cena passada parece ter sido assassinado por ele mesmo (com uma outra roupa)...e então, na cena seguinte, ele aparece (ou seria o cara que o matou?) com outra roupa, e o filme continua.
A cena abaixo é de um filme do Kar wai que eu curto muito ("in the mood for love"). A trilha sonora tbm é mto boa. Não sei como descrever o filme: as cenas parecem rolar numa velocidade mto particular: não há necessidade pra correr, parece que toda a informação está nos gestos dos atores. Aqui não tem aparece mta gente, mas já dá pra ter uma idéia
Bom, voltando... teve tbm uns dias (nossa...incontáveis vezes eu fiz isso) em que eu saí conversando com uma pessoa aqui pensando que era outra. Engatava naquela conversa de elevador acadêmica (vou traduzir ):
" -porra.. a gte vai ter um exame mó foda em duas semanas. Prof fdp..."
e o cara me dizia que não estava fazendo a matéria. Cheguei a perguntar uma vez pq que o cara estava assistindo a aula então, se ele não estava matriculado.
Ele me falou que não estava... eu ainda tive a coragem de dizer que tinha uma cara parecido com ele na minha sala....
Hoje durante a aula a galera começou a me questionar sobre o Brasil, onde eu estudei e tal...eu, um bicho exótico e estranho (só faltava a galera me cutucar com um pedaço de pau, sei lá)
Aí uma doida virou e falou que também morava no "Brazil", que fica há uma hora daqui, ao sul...uma cidade de uns 8 mil habitantes
Rolou a pergunta basica que não quer calar e que eu, no alto da minha sobriedade, tinha que fazer:
"what about the carnival...do you have something like that?"
porra, fiquei curioso!!!! Será que eles têm???!!
Ela disse que sim, e que no carnaval deles eles
" instalam um parque de diversões no meio da cidade, com algodão doce, montanha russa etc"
... acho que minha cara de tristeza e desaprovação diante da descrição dela foi evidente
Não sei oque acontece: se não estou num bom dia, se o mundo parece estar mostrando mais sua cara hoje... comecei a manhã discutindo com meu roomate indiano por que a gente não deve deixar um pano pra limpar a pia pendurado no mesmo ''treco de pendurar panos'' (me fugiu o nome agora! Acredita?) que um pano de prato fica. Pra ele não faz o menor sentido. Bom, diante da rispidez e idiotice da resposta que eu recebi, eu abri mão: só não deixo mais os panos de prato pendurados lá.
Pqp... o ser humano é tão idiota qu eme estarrece. E não estou sendo especifista, e sim generalista. Todas as vezes que eu me vejo enredado no meio de uma discussão tão pequena como esta eu penso que a natureza do ser humano é a vaidade, elevada ao orgulho de ser ignorante. Talvez seja por isso que ainda existam guerras, faixas de gaza, baseball, mc'donalds....
Me lembro de quando eu tinha uma namorada (faz teeeempo pra caraleo), em que a gente discutia por causa da cachorrinha dela, que não conseguia segurar a vontade de fazer xixi quando ficava muito alegre. Era eu chegar na casa da minha ex que lá vinha a cachorrinha, se mijando inteira (e na sala, consequentemente). Ocasionalmente a gente brigava por conta dos mimos exagerados da minha ex à cachorra. Eu sempre tentava fugir das brigas, mas ela vinha toda toda... querendo um duelo. E toda vez que a gente discutia, vinha um balãozinho na minha cabeça, com a seguinte frase:
''-Por que eu perco o me tempo discutindo uma coisa tão idiota como essa? Será que ela também não vê isso?''
Bom... perdia a porra do meu tempo e a cachorra continuava mijando em mim e na sala quando me via.
Isso me faz me lembrar de um filme que, acredito, é um dos melhores que eu já vi. Fala sobre relacionamentos, sobre a sociedade americana e sua competitividade em tudo - o mais rico, o maior q.i., o maior pênis, os maiores seios, o que chora mais rápido, o que serra mais rápido: eu considero esse filme, junto com aquela série do Bergan "cenas de um casamento" fotos panorâmicas de relações homem-mulher. (In)felizmente, nunca fui casado pra poder acrescentar aqui o relato de tal experiência.... mas do (pouco) contato social que eu tenho já dá pra ver que lidar com os outros não é fácil .... nem agradável, na maioria das vezes.
Ria, e o mundo sorrirá com você. Chore, e você chorará sozinho.
Vou na casa dos brasileiros comer um pão de queijo. Talvez isso me deixe menos desesperançoso de tudo e de todos.
Sai da fac agora a noite à noite e o que aconteceu? Adivinha? A porra do pneu saiu do lugar, travando a roda!!! Tive que voltar à pé, o que o fiz da maneira mais calma possível. Só faltava ter chovido. Aí era caso de tomar banho de sal grosso! Mas tirando essa parte do azar, foi algo medievalesco o que eu vivi hoje. Por que a gente não nasce com rodas? De que nos vale:
ipod's + viagem à lua + calculo estocástico + projeto genoma+ diabo verde
se eu ainda ando à pé? É tudo inutilidade e uma grande farsa! A gente não evoluiu nada, pelo visto!!!
Mas toda essa história me fez lembrar de um desenho mto foda: "Das rad" - a roda, se não me engano. Que fala sobre a evolução, a roda..etc
O caso da bicicleta roubada no bicycle project me fez lembrar de um poema de Camões, se fizermos as (poucas ) devidas alterações - como trocar anos por dias, já que por uma semana - de um sábado a outro- foi o tempo que esperei pra continuar o trabalho e receber o meu ''prêmio'', mas ele não veio.... na verdade veio, mas só depois de mais sete dias
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
E prometo que não falo mais do bycicle project!!!! Até eu enjoei =P
.... e eu ainda esqueci de contar essa, que rolou na mesma sexta do post anterior e me deixou muito abismado: depois de terem forçado os estudantes internacionais a levantarem de suas cadeiras no auditório e os fazerem cantar o hino de guerra do time de futebol americano daqui, a instrutura que estava no palco disse:
" Ahhh ... we will also have a soccer event this year!!!"
Aí alguém perguntou:
"What is soccer?!!"
Caramba, até eu fiquei revoltado!! Vou lá...preciso voltar a estudar
Oque é oque é: um ônibus cheio de chineses numa sexta-feira à noite?
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... =P
Eu, indo fazer compras.
Haha...vc pode pensar que era piada. E das mal contadas!! Mas não é. Primeiro porque eu não sei contar piadas... esta ia ficar igualmente horrível, certamente. Segundo, por que eu nao disse que estava no ônibus de inicio, oq eu não ia fazer muita diferença.... se a vc fosse dada a opção de chutar se eu estava ou não lá, com 99% de certeza vc diria que eu não estava. Claro! Eu era uma única partícula desorientada naquele universo grande e mandarinhesco.
Precisava , e muito, comprar um óculos para nadar... sério, faz quase um mes que não nado, isso anda me tirando o sono. Devo ter engordado uns 50 quilos desde que cheguei: se eu aparecesse no Brasil de novo ninguem me reconheceria mais =P
Fui até uma loja que eu já conhecia. A loja se chama "dick's"...pqp...dick, ate onde eu saiba é pau, piroca... vc lembra daquela musica que sua irmã mais velha ficava cantando na hora da janta e seus pais achavam bonitinho ela cantando em ingles? Pois é, aquela mesma.... (meio prosaico isso, mas tá valendo...pra vc sentir o clima do lugar, dê um play :)
fui no "Piroca' s sports goods" (rindo sozinho ... mas disfarcando). Lembrei do dia que estávamos eu, James e hanson rindo das possíveis fantasias que poderíamos usar numa festa a fantasia. Havia uma, que o hanson sugeriu, que era a do "falhaço firoca". A gente estava bêbado e rindo muito aquele dia, foi muito engraçado.O engraçado é que a música me remete muito ao estilo de vida da galera aqui....tudo a ver
Aí entro no supermercado e ..puts..acho que as vezes eu estou no purgatório. Tbm, se não estiver não deve ser mutio diferente daqui. No mercado veio um chinês dar em cima de mim. Eu estava lá, inocente e centrado, olhando pras pastas de dente e ele veio, de calça, com uma havaiana (versão chinesa, creio) rosa no pé, falando todo espalhafatoso e serelepe:
'' Oh!! The brazilian guy!!!''
Eu falei um...
'' Yeah dude, it's me... ''
e continuei lá, compenetradíssimo na busca pela melhor pasta de dente... ele ainda falou umas coisas que eu não entendi bem... (deve ter sido um '' vc vem sempre aqui, no supermercado?). Eu olhei pro céu...pro teto do lugar que eu estava, rpa ser mais exato, e disse:
''Eu não mereço isso!!! Pq!?!?? Pq!!!??? Eu queria algo mais do que estudar quando saí do Brasil...''
Ok, vou virar um ermitão. Ou um daqueles bichos que têm uma concha e só saem de casa de vez em quando.
E hj de manhã foi a mesma coisa: estava esperando sentado no chão, fora da fila de chinêses... e veio um e me perguntou se eu era turco. Aí o cara sentou e começou a contar a vida dele. Fui legal com o cara. Tudo bem, não tem nada de mais ser gay. Acho que muita gente é e nem sabe. Mas enfim... o cara falava muito baixo e vim se estirando pro meu lado... aí comecei a ficar meio sem graça: o cara estava abusando da minah boa vontade.. me perguntando se eu tinah vindo pra cá só pra estudar, se eu queria sair pra fazer algo.... e eu só levando na flauta. Aí o cara, não satisfeito com a minha boa educação, começou a roçar o joelho na minha coxa (eu estava sentado no chão e ele havia se ajoelhado do meu lado pra conversar comigo)...
foda..
eu não mereço:
as americanas não me agradam,
as chinesas não me querem (não devo ser o tipo delas.. .tbm, não faço mta questão das que eu vi),
os chineses, qdo não me ignoram, me bulinam.
Deve ser o purgatório mesmo.
Afff... estou meio verborrágico hj: acabei de ler o que escrevi... o texto está me lembrando o clima de diário que "o apanhador no campo de centeio" tem. É um livro muito bonito: a primeira vez que o li ele passou extremamente despercebido por mim, nem dei bola. Achei idiota e repetitivo. Pude lê-lo recentemente e percebi outra coisa: o quanto somos confusos e perdidos, e como aquele ''retrato'' do Holden é algo familiar a mim e a muita gente que conheço; quantas portas se abrem pra nós e são ignoradas pro pura e simples besteira da nossa parte.
Pensando melhor sobre o livro, talvez ele tenha uma medida ''certa''de repetição, oque o faz muito bom; cada vez que nos repetimos, tentamos nos fazer mais corretos e mais dignos de seguir adiante. Não, não deve existir uma medida exata pro que se repete e pro que se acrescenta.... por que ao acrescentarmos algo, deixamos de repetir, mas ao se repetir, deixa-se de acrescentar.... Talvez a cena que seja a mais bonita que eu ja vi descrita, a qual parece que pude tocar com as pontas dos dedos, é uma contida num livro do Garcia Marquez (cem anos de solidão), onde ele fala que um dos personagens (nao me lembro qual) passa suas tardes numa oficina, esculpindo peixinhos de ouro... quando ele os termina, ele os derrete o os esculpe de novo, para tentar esculpi-los mais belos e mais perfeitos.
Hummm....talvez não exista uma medida da perfeição tbm.. ou a perfeição que a gente busca está na repetição.. ou em repetirmos para nós mesmos que nunca seremos capazes de atingir isso, pois tudo o que é exato, belo e perfeito vive nos nossos ideais e cabeças somente... a musica do françois couperin tbm me lembra muito isso...
É... esta sexta pareceu-me e muito a anterior... repetindo e repetindo, ''claramente''. Voltei pra casa pensando em tudo isso e já não rindo mais sozinho: não tinha mais tanta graça em se pensar no''dicks''. Meu riso facil havia sido deixado na prateleira do supermercado.
Acho que não deve existir medida pra saudade tbm... embora a de hoje pareça ser a saudade boa, e não a que corrói por dentro.
Bom, da próxima vez eu posto uns desenhos... o pessoal deve estar de saco cheio das minha histórias por
aqui... nem eu mais aguento
Saudades de todos! Fiquem agora com o ataque das cobras!!! =P (alguém lembra disso?)
Pqp.... estava dormindo, depois de ter acordado cedão hj... aí me acordaram (roomates ..) na sequência: telefone pra mim. Odeio ser acordado assim, no meio de um sono tão tranquilo e sereno
afff...to me recuperando ainda, me perdôem
Meu coração se sentiu como a mudança de andamento que há no concerto italiano... o dia nublado (tarde - 0:00), depois vai pro momento do sono (calmaria --> friozinho --> chuva - 4:10), seguido da acordada brusca por uma mão estranha (telefone --> batida na porta -->cérebro embaçado e confuso: 7:19)
....pior é que nem consigo voltar a dormir; tenho uma cidade da qual me despedir, passar a noite de sexta dormindo é besteira.