domingo, 25 de outubro de 2026

Perdas ambiguas #1

Descobri há alguns dias um termo que desconhecia: "perda ambígua". Ok, é uma tradução minha pra um termo que talvez estivesse procurando há tempos para descrever tanta coisa que se passou comigo nos últimos tempos. Mal sei por onde começar - parece que as palavras me fogem, que os dedos esqueceram como digitar. Ainda assim, vou tentar começar de um começo. 

Ano passado foi um ano de muitas perdas:  um relacionamento que terminou, descobrir que meu pai tem Alzheimer e, logo no começo deste ano (mas como uma continuação do ano anterior), perder meu emprego. Até antes de digitar a frase anterior achava que o termo se aplicasse somente ao primeiro e segundo desses eventos. Agora me parece que se aplica a todos, de uma maneira ou de outra.

 Uma perda ambígua se dá quando há uma separação entre corpo e sentimento. Como nos relacionamentos em que há uma entrega ao outro, o coração se abre, cumplicidade existe, sentimento, embora haja distância que impossibilite o contato físico. Ou, em contraste, quando se há presença física, mas o sentimento e troca parece estar dissociado, em qualquer outro lugar que não naquela relação. No caso de um ente com Alzheimer, trata-se de ter a presença de uma pessoa cujas experiências e sentimentos já não estão mais presentes: um se vai, o outro fica. O mesmo se passa em alguns relacionamentos, ou em um trabalho, quando se perde o interesse nele.

No que diz respeito ao meu pai, soube da doença durante uma conversa. Na verdade, suspeitava do que viria: minhas irmãs (por parte de pau) haviam me dito que ele andava esquecido, mas que não havia diagnóstico. Como não falava com meu pai há tempos (por diversos motivos que não vem ao caso agora), me aproximei para conversar com ele. Após alguns minutos de conversa, percebi algo estranho: "- Você sabe com quem está falando?", perguntei. "-Claro! Com meu primo Rafael!", ele respondeu. A isso se sucedeu um punhado de evidências outras que mostravam o quão fragmentada sua memória estava - no espaço, cronológicamente... foi como se uma corda rompesse, mas se rompesse de um lado só: um dos corpos a flutuar no espaço enquanto o outro permanecesse ali, estático, preso no seu tempo. Curioso esta imagem me vir à cabeça, pois até hoje não sei em qual dos lados estou; sou a pessoa que flutua no espaço, ou a que ficou estática, a esperar o próximo mover do mundo ao meu redor?

 

[Continua] 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Do outro lado da mesa.... ou quase

Foi na sexta-feira. O acaso e a falta de comida em casa me levaram aos restaurantes de sempre. Na verdade, levariam, pois acabei passando na frente de um outro no qual nunca havia almoçado e por lá fiquei para matar a fome.

 

Sentei, comi... o ambiente claro... uma familiaridade distante.. porque será? Logo me veio a lembrança da ultima vez em que ali fora: eu e ela ali sentados, assistindo um amigo tocar bateria num show. Olhava pra mesa com aquele casal, cheio de sonhos e perspectivas, sem saber que alguns amos mais tarde lá estaria eu, do outro lado do salão, quase do outro lado da mesa, os observando. Me senti como naquele conto do Borges, onde ele senta em um banco e, no extermo oposto dele, senta-se ele mesmo, só que mais velho. O que conversariam? Que conselhos o Borges mais velho daria ao Borges mais novo?

 

Fiquei me imaginando naquela situação. Atravessaria o salão para alertá-los dos perigos, para dizer que era melhor se adiantarem e se separarem ali mesmo, sem se prolongarem tanto? Chamaría os dois de canto pra dizer para tomarem cuidado, que o perigo morava logo ali, nos detalhes, nas palavras, no beijo negado, na atenção não compartilhada, nas palavras atravessadas, na falta de paciência e carinho?

 

Talvez ficasse só em silêncio mesmo, observando os dois caminharem para o destino que tiveram. Como numa profecia mitológica, onde nada que se tentasse prevenir o fatídico de uma previsão pudesse ser feito. Era pra ser, era pra ser...  

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Licking my wounds #10 - gratidão

Tentando me lembrar de ser mais grato pelas oportunidades que tive… mesmo as desperdiçadas.

Licking my wounds # 9 - insuficiente

 Uma amiga me disse no telefone esta semana: “- sério que tava assim, Rafa? … é… só amor não é suficiente…”

Me pareceu uma obviedade bem profunda. Fiquei pensando sobre a semana toda.

Licking my wounds #8 - Tia sereia

 Meu sobrinho veio conhecer minha nova casa neste final de semana.

Pula daqui.

Pular de lá.

Se joga no chão.

Se e  s  p  a  r  r   a  m  a no sofá.

No final, já cansado e colocando o tênis pra ir pra casa, ele vira com a voz bem triste e fala: “tio Rafa, cadê a tia sereia?” 

[ não falou sereia, mas o nome dela.]

Na hora eu fiquei meio sem saber o que dizer e achei graça… mas foi de cortar o coração.

domingo, 13 de julho de 2025

Licking my wounds #7 - flores, jardins e orquídeas

Passo na rua e converso com uma senhora jardineira que toma conta da pracinha. Conheço flores, variedades diversas do verde-roxo da folha que ora vem ao mundo de um jeito,’ora de outro. Penso na orquídea que hoje brota e marca um ponto baixo do relacionamento: uma amiga reativa me injuriando, pintando-me com cores que não mereço e posições que não sustento. Em suma, o cúmulo da ignorância e estupidez. Nos deu a flor que, por mais bela que seja, há de ser devolvida… me dói pensar nesse dia.


Volto pra casa, as milhares de caixas ainda fechadas, a parede ainda por receber demāos de tinta, tudo de pernas pro ar. A saúde, que parece debilitada e frágil, o possível princípio de pneumonia, as feridas na boca (preocupações?)… como pode, tanta vulnerabilidade, tanta fragilidade aflorando assim de repente? Pareço precisar de colo, de atenção… seria saudade? Seria a ausência?


Enquanto isso, as redes sociais acusam mais um vídeo de um final de semana feliz pós o fim. Evito assistir. Me pergunto se só eu tenho encarado e vivido esse fim, ou se é isso mesmo: todo dia a mais de rompimento é um grande dia, a ser celebrado com sol, fotos, sorrisos, tudo está bem, olha como estou feliz. Tento aceitar e ficar feliz em sabê-la bem… mas olho pra esse lado e penso que, agora, o melhor é nem olhar, ficar distante…. você quer bem, você deseja o bem, mas no momento você precisa se cuidar e somente isso. Ponto. 

A angústia, você pensa no quanto algumas palavras te machucaram, acusações de que a casa a dois não era uma casa a dois, a voz elevada ressaltando o esforço em mantermos uma vida junto e distante do trabalho dela (que logo após o término, soube, passou a procurar apartamento no mesmo bairro em que vivíamos!), as portas que foram batidas pra frisar a raiva, as humilhações públicas em filas de supermercado ou shoppings quando se tentava ajudar, a invocação da palavra da terapeu te “diagnosticando” dos quadros  mais disparatados possíveis…. tudo parece vir à tona, como uma tristeza-violência que fere,  uma memória de ferro em brasa que corta a carne e marca a alma à fundo. Você se pergunta o quanto amou pra deixar que as coisas chegassem onde chegaram, o quanto tentou e cedeu acreditando que o outro lado mudaria ou se abriria, cedendo aos seus esforços pra aplacar as diferenças abismais que se abriam entre os dois. Nessas horas todas as lembranças boas parecem evaporar da memória e só te sobra a dor, uma ferida aberta de ver o outro lado fingindo (ou não) que nada aconteceu, a aparente indiferença diante de tudo que você tentou e se esforçou para oferecer. Dói, dói, dói… e você não entende se tudo foi um engano, ou se você foi simplesmente ludibriado.

domingo, 6 de julho de 2025

sábado, 28 de junho de 2025

Licking my wounds #5

 Viver e andar sobre a terra com sentimentos tão contraditórios é como um martírio. Mais fácil seria odiar, ou só ter amor, ou só ter saudades, ou só sentir alívio. Mas não é nada disso. Ou pior, é tudo isso ao mesmo tempo. 


A razão tenta esconder o sentimento como uma peneira tenta esconder o sol. Daqui a alguns dias nenhum laço mais entre os dois lados existirá: o apartamento alugado junto, o sonho de que tudo desse certo, será devolvido. Como um cordão umbilical que se quebra e une dois seres, este se rompe e nos separa. Para nunca mais. Não sei o que sentir, não sei se sofro mais, não sei se respiro aliviado, não sei… tudo me dói ainda , assim como tudo me parece razoável e necessário. Não há mal maior que a ruptura, que por si só também é uma redenção. 


Paciência… devem vir dias melhores adiante, espero. 

domingo, 22 de junho de 2025

Licking my wounds #4 - It ain't me, babe

Go away from my window
Leave at your own chosen speed
I'm not the one you want, babe
I'm not the one you need
You say you're looking for someone
Who's never weak but always strong
To protect you and defend you
Whether you are right or wrong
Someone to open each and every door

But it ain't me, babe
No, no, no, it ain't me, babe
It ain't me you're looking for, babe

Bob Dylan, It ain't me, babe 

   

 

Parte do processo de "cicatrização" ao fim de um romance passa pela aceitação de que aquilo que se tinha não existe mais, de que não era pra ser ela, de que não era pra ser você. O luto pelo que se perdeu. Não sei muito bem como caracterizar isso, mas sei que minha cabeça fica esquisita nesses dias: um misto de solidão com uma sensação estranha, como se um balão esmagasse teu cérebro, não te deixando pensar direito.

 

Com a aceitação vem também várias coisas: a certeza de que não era pra ser, a certeza de que poderia ter sido, a certeza de que você está se contradizendo em diversas coisas que elabora, teorias sem pé nem cabeça para justificar algo sobre o qual não se tem controle nenhum: a vontade do outro. Acabou. C'est fini. Foi. Vaza. 

 

E assim tudo se desenrolou. Tem um mês e 4 dias já. Quanta coisa mudou de lá pra cá. Por dentro, ainda aquela saudade, dividida dentro de você com as dúvidas, com a sensação de injustiça, com a sensação de que havia um impeditivo mais profundo a tudo aquilo que gostaria de ter feito... estrutural: não há como mudar certas coisas ou pessoas. Você tenta ser paciente e aceitar... mas ainda é difícil.

 

 

sábado, 21 de junho de 2025

Licking my wounds #3

Hoje era pra ela ter estado lá, junto, ouvindo música junto e segurando minha mão: quentinha, me protegendo do ar condicionado. Às vezes ela faz falta e só pareço fazer sentido do término quando conto pra alguém como era. A razão escorre pelas palavras e justifica este como o melhor caminho. Por dentro… fica a lembrança da risada, das piadas, dos momentos de calma (que também existiam)…

Nesta semana a mudança de casa finalmente se fez. Ainda me é estranho imaginar uma casa só minha, algo que nem de perto imaginaria. Ainda fico com aquela sensação dela voltando pra casa, o final do dia, o acolhimento, as conversas… é uma lembrança tão misturada de sentimentos - bons e desconfortáveis- que nem tudo ainda faz sentido. Como fragmentos que se esforçam pra se juntar numa figura única, o passado ainda não me dá uma visão clara do que foi, nem daquilo que sinto agora, esse misto de alívio com saudade.