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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Entre os emaranhados da verdade e da confiança ("Chain of trust" & "chain of truth")

Uma das coisas que sempre achei interessante quando alguém descreve estelionatários e outros golpistas está em como estes constroem uma "rede de verdade" com falhas, buracos enormes, mas nas quais uma pessoa está disposta a se jogar ao se sentir "em segurança". Tais buracos correspondem àquilo que consideramos difícil de acreditar logicamente, "gaps" lógicos que dificilmente convenceriam, ou se sustentariam, por si só. No entanto, ainda assim, as pessoas acreditam neles, caem em golpes, se jogam, se estrepam. 

A meu ver, há algo maior nessas estórias: a cadeia de confiança que estes vigaristas são capazes de construir. Essa linha tênue, tenebrosa, e enevoada entre a verdade e a confiança.

Mas aonde quero chegar com tudo isso? Talvez tudo tenha começado no texto abaixo: nele  um médico relata o caso de um paciente soropositivo (Mr B, um morador de rua) que não acredita no HIV. O médico tenta e tenta com que o paciente tome o remédio retroviral mas não, o paciente não toma porque não acredita que o vírus do HIV causa a doença. 
"Covid denialism, like AIDS denialism, reveals that many of doctors’ assumptions are incorrect. We overestimate the value of reasoning and facts. We believe in our clinical authority. We expect patients to behave rationally. But we all develop our beliefs through interactions with other people — what you believe depends on whom you trust. "

[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

Calhou de esse artigo "resolver" um desconforto que senti numa outra conversa, ao ouvir que "a ciência é uma fé, assim como a falta dela também o é". Não, não concordei. Na verdade me causou desconforto pensar nisso, apesar de não saber bem oque dizer na hora. 

Essa frase me despertou uma memória sobre um post antigo, A estalagem da razão: sobre agulhas, alfinetes, Index theorem e linhas, de 2010, no qual cito:

"A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível."

Fernando Pessoa - Livro do desassossego

Há alguns anos eu até brincaria com esse tema, concordaria com F.P. até. Sim são todas fés. Mas hoje minha visão sobre o tema mudou: verdades não são idéias que flutuam no ar e adotamos as que nos apetecem. 

Mas se já ficamos desconfortáveis com a idéia de toda crença ser uma fé, imagine então a idéia de podermos agir em função de qualquer coisa que acreditemos. Pensemos neste cenário dos dias de hoje: pessoas sem máscara, sem vacina, um perigo de saúde pública. E se esse paciente (Mr. B) fosse um "spreader", um cara que saísse transando com meio mundo passando AIDS pra tudo e todos, dizendo que não era HIV que causa oque ele tem? Trata-se então do direito de não só terem fé, mas de exercê-la da maneira como bem entenderem? Certamente, não ligo que as pessoas acreditem no que queiram: enquanto eles tomam atitudes que impactam a vida deles somente, eu lavo minhas mãos, sigam na direção que quiserem, eles são livres pra tanto. Agora, são livres pra sair espalhando as "verdades" nas quais acreditam? Não, não são.

Uma parte considerável deste embróglio então está nisso, nessa disputa pelo correto ter virado uma disputa de "crenças". As pessoas julgam que tudo, toda visão de mundo contém erros, então são todas iguais. Dessa forma, tudo vira uma religião: futebol, cloroquina, ciência. Cito então algo que li num texto do Asimov:
This particular thesis was addressed to me a quarter of a century ago by John Campbell, who specialized in irritating me. He also told me that all theories are proven wrong in time. 
My answer to him was, "John, when people thought the Earth was flat, they were wrong. When people thought the Earth was spherical, they were wrong. But if you think that thinking the Earth is spherical is just as wrong as thinking the Earth is flat, then your view is wronger than both of them put together."
[Isaac Asimov, "the relativity of wrong"]

Sim! Aí está parte da chave pra esta questão. Existe assim gradações de erro, algo que Asimov foi muito sábio em apontar nessa frase. Há uma "relatividade do errado". E isso acaba tangenciando oque o médico relata. Isso porque existe uma "chain of trust" (cadeia de confiança) da qual o médico fala, que talvez preceda oque chamo de "chain of truth" (cadeia de verdades): adotamos, acolhemos a ciência em princípio por confiarmos naqueles que nos levam a ela. Posterior a isso, vê-se que existe sim todo um arcabouço de idéias e sustentáculos que seguram esse edifício em pé. Claro, não sem contradições internas, mas com amarras muito mais firmes e auto-consistentes do que uma "fé" religiosa, por exemplo. Sendo assim, não desmereço ou nego que a fé exista de alguma forma, mas ela é somente um "ticket de entrada" pra essa casa onde a ciência reina. É talvez oque o médico ressalta do texto do NEJM quando diz
"I am part of what anthropologist Heidi Larson calls a “chain of trust” in a social system that has treated me fairly and generously — a chain that did not reach Mr. B. I realized that the chain’s links consist of lived experiences and relationships, not data in scientific journals. I believe what my colleagues say because of my proximity to their experience: I work with people like the scientists who conducted the earliest studies, and I know them to be generally honorable and credible. Mr. B. did not believe — ultimately, not because of quibbles with the scientific method, but because the sum of what society, and “expert” professionals like me, had offered him in life seemed more like lies than the truth. "
[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

Achei incrível ver que, no fim das contas, a atitude do médico foi a de ter empatia, de ver ele mesmo aquilo que o paciente estava professando/fazendo. Ele sacou tudo aí, quando viu que este Mr B, marginalizado, vivendo às franjas da sociedade, nunca participou do que era discutido nessa "grande casa" (aristocrática talvez?) na qual a ciência impera. Sendo assim, ele mudou a abordagem: simplesmente convidou Mr B a ela. O ticket de entrada: simplesmente tomar o anti-viral. Foi uma sacada genial ele perceber que não era uma questão de convencimento por argumentos, mas uma outra coisa.... talvez resultados? Não exatamente... 

Aliás, esse "chain of trust" é algo interessante: recentemente o "this american life" fez um episódio sobre um republicano, âncora de televisão, super conservador, se reunindo com pessoas ati-vax pra tentar convencê-las do valor de tomar a vacina (episódio 736: The Elephant in the Zoom). O programa vai por linhas incríveis, até chegar ao convencimento (ou quase) daquelas pessoas.

De alguma forma, depois desses redemoinhos que se sobrepões, pensei em mim mesmo, em algum momento lá em 2010, mais confortável com essa idéia de que a ciência, mesmo a matemática, é sim uma ciência que envolve uma certa fé, ou intuição. Será que o que me movia era a fé? Era a crença de que aquilo que via era a verdade, uma única verdade, ou forma de verdade? 

Não sei.. se era fé, acho que a perdi em algum momento. Mas já era tarde: já fazia parte do "clube", me via parte da engrenagem, membro desse grupo "fechado", que não admite outra religiões... em especial, parte de um grupo que muitas vezes não admite outros que nunca foram convidados a ele, pra essa "festa" regada a lógica e leis universais, onde a ciência impera.

E pra terminar esse grande círculo: tudo bem termos compaixão por pessoas negacionistas, mas não acho "producente" confundirmos esse sentimento com o de "liberdade que essas pessoas têm", ou mesmo confundir as crenças deles com "a mesma fé que temos na ciência". Acho que, a alguém que diga isso, ou equalize as duas "crenças", só posso dizer: "your view is wronger than both of them put together".

Acredito, isso sim, que esse artigo indica que a paciência, a escuta, precede a razão em alguns debates onde existe sim um lado que está correto. 
Instead of arguing about the veracity of science, perhaps I could simply bear witness, as one human to another. 
[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

É isso, pessoal. Crescer para melhor ouvir. Ouvir para mais alto crescer.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Democracia em ebulição

 Há quatro anos atrás escrevi sobre o tema de hoje em "good morning, mini apple" Ainda me lembro de estar na cama e olhar o site do NY times mais uma vez antes de tentar dormir: como caldeiras em ebulição, os ponteiros de "probably Trump", que até poucos minutos atrás apontavam 95% de chance de Hillary Clinton ganhar, agora apontavam o oposto. 

Os ponteiros em vermelho, parecia um prenúncio de lavas e destruição. Olhava pr'aquilo como se estivesse diante de uma caldeira em ebulição, fora de controle, prestes a explodir. Como se dormir fosse resolver o problema, tentei cair no sono, pra acordar e ver um grande "Trump Triumphs", na primeira página do mesmo nytimes que dias antes apontara uma vitória improvável do republicano. "Trump Triumphs", como uma brincadeira de mau gosto, um trava lingua anti-democrático, um Trump que triunfa apontava para o pior dos medos de muitos que eu conhecia, e que junto comigo até aquele dia pareciam ignorar que o mundo que nos cercava.

Ir pro trabalho foi difícil. A cidade parecia a mesma, embora o mundo parecesse diferente de alguma maneira. Onde estariam escondidas aquelas  pessoas que corroboraram com aquilo? Será que me olhavam por detras das cortinas de suas casas? Seria aquele aluno que reprovei no semestre passado? Seria um amigo, ou alguém que considerara um amigo, mas que no fundo.... apunhalava-me, "imigrante" que era, pelas costas?

Hoje me bate o mesmo medo ao ver esses ponteiros indicando a mesma coisa na Flórida, Carolina do Norte e Geórgia. Me pesa escrever isso, mas talvez menos do que da primeira vez. Talvez eu esteja, como muitos dos meus, "numb", anestesiado diante de tanto ódio, discursos divisivos, diante de uma democracia que se diz englobar todas as faces com uma face só. 


Aguardo... embora não espere muito mais do que o mesmo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Vice-Lord of the flies

 It was on a weekday. Mike was feeling dizzy. Could it be corona virus? Possible... "-The president has got it, so what if...". He shrugged it off. 

He got up, went to the toilet, and by the time he went out his wife was up. 

"Ohh my Jesus! Mike, you became a fly!!", she said.

Immediately, she started crying, saying that it could not be any other thing than a democratic plague. "-Those monsters!! They killed my husband." Mike, struck by the scene, flew to his wife and sat by her nose. 

She slapped him... but apologized:

"-I'm sorry, husband... I haven't got used to you ..yet.. My faith will keep our love strong", she said, looking to her own shoes.

He didn't bother: he had been faster than her, and was not hurt. 

"-Bu..but, babe", she said, "I'm worried... how are you going to the debate tonight?"

He pondered... flew around a bit, sat on some disgusting things, but... at night there he went... and indeed, nobody noticed a damn thing.

... except for a few strange things that people in the audience couldn't avoid seeing

All the newspapers the next morning talked about that, amused: 

"- What was that little dandelion stuck on this eyebrow??! It was there for more than 2 minutes and he didn't notice", said a Republican supporter.

-"First, his words were sounding strange and noisy... I couldn't understand him sometimes... ", said a Democrat that was in the debate's audience.

Already in the car with his wife, heading home, he said: "-You see? I told you, nobody noticed a thing... american people can't see beyond their own navels".

Full of happiness, he flew towards his wife's face, inteding to kiss her (or whatever a fly things kissing is). 

He was, however, surprised with another slap.

This time, he flew out of the window.

He fell dead on the highway's floor.

[Lembrei de Kafka ao ouvir sobre o último debate de vice-presidentes nos EUA.]

[Veja Nytimes , ou este video]

[ps: aliás, não custa dizer que Lord of the flies é um livro incrível, recomendadíssimo pelo board of directors do blog Matemáticos Marcovaldos :P]


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

No olho do furacão (visita à antiga casa) - final

Talvez a coisa mais difícil nessa viagem à antiga casa no norte, o sentimento mais estranho que senti, foi conversar com a esposa de um amigo e sentir a estranheza na prosa dela. Como um barco que perde a âncora e passa a flutuar cada vez mais distante do seu porto, a loucura deve causar um distanciamento entre pessoas inimaginável: é perder alguém, tendo esta pessoa ainda ao seu lado.

Curioso eu dizer isso, na verdade.... isso por que tenho uma amiga de infância (mais amiga da  minha irmã) cuja mãe bem cedo começou a sofrer de esquizofrenia: um belo dia ela saiu e não sabia como voltar pra casa. Depois  os incidentes foram se acentuando, e em um momento ela deixou de ser ela mesma.

Injusto talvez dizer isso... porque a pessoa é a mesma ainda, de alguma maneira, mas corpo e mente se desprendem, e nos resta só essa carcaça da qual somos feitos.

Não sei por que isso me tocou tanto. Acho que a compaixão pela dor que meu amigo, se conseguiu perceber o problema (acredito que sim), deve sentir. Perder alguém pra um inimigo maior, que dorme com a esposa o tempo todo, acorda com ela o tempo todo, é seu maior confidente e é, no fim das contas, uma parte indivisível do que a pessoa que ele ama se tornou. Me tocou muito a fragilidade daquela relação, madura e com filhos, com tantas estórias, festas entre amigos, e viagens. Me tocou relembrar das minhas relações em que senti o barco desancorado visto da praia, sem chance de ser resgatado senão com muito esforço, ou mesmo sob o risco de se afogar no mar bravio que tudo leva, que tudo que ali flutua um dia clama.


domingo, 26 de janeiro de 2020

No olho do furacão (visita à antiga casa) - parte 5

Sabe oque talvez seja o mais estranho de estar aqui, de volta a um lugar que foi tão importante na minha formação como adulto? Sentir que faço e não faço parte disso: ando pelas festas e sinto o quão legais são,  suas teses, seus intentos, interagir, falar mais mil vezes sobre oque trabalho - e que tem pouquíssima relevância pra maioria delas, e no fundo, lá no fundo, achar tudo meio sem graça.

Uma coisa que é bem comum a mim é precisar de um tempo de repouso, um tempo de silêncio. Ohhh man.... I need a break! Sim, esse sou eu. Preciso de um pouco disso, de não terem que me forçar a interagir, a acharem algo sobre uma peça, a sentir algo pelo condutor da ópera e a maneira como ele rege, a pensar à respeito de qualquer coisa.

Das duas uma: ou eu sou um chato, ou eu estou cansado.

Sabe... acho que um pouco dos dois: esses dias têm sido bem intensos. Acima de tudo, sinto essa mistura de medos que parecem me percorre por debaixo da pele, em procurar aquele emprego que eu procurava ano passado e ainda não apareceu, em terminar meu artigo (cuja idéia foi bem recebida por aqui, felizmente). Me pergunto: pra que que eu vim? Talvez pra poder olhar pra tudo desde o começo, e poder tentar traçar o começo dessa jornada: ter ido ao Rio, depois pros EUA, e depois pra mini-apple, depois terra do sol nascente.... foi a mesma pessoa que percorreu todo esse caminho? Mesmo?

Reencontrei uma amiga de escalada, que não põe uma gota de álcool na boca por conta de drogas (das quais largou há anos). Me conta sobre o porque usava, por conta de uma visão muito negativa sobre si mesma, muita pressão pra sempre ser "melhor" de alguma maneira.
A ouço.
Ela me ouve.
E me diz: "- you have not changed much in that sense... you still have a very distorted view of yourself."

E saio da conversa de maneira não-euclidiana, refletindo sobre essa palavra/frase que tantas vezes ouvi - de amigos, de terapeutas - em que as linhas paralelas do meu pensamento parecem se encontrar mil vezes, se emaranhar, e se distorcer .... sendo, desde o começo, apenas paralelas.

Vir ver não ajudou de maneira alguma nisso. Ter vindo talvez não tenha tido um propósito 100% claro... Mas quem disso que era pra ter algum propósito? Quem disse que era pra ajudar?

sábado, 25 de janeiro de 2020

No olho do furacão (visita à antiga casa) - parte 4

No fim do dia eu estou simplesmente exausto... caindo aos pedaços

Esssa semana foi cheia de vírgulas, de reuniões, de voltar a uma vida que eu tinha, a problemas que eu gostava (ou achava que gostava) de resolver... terminar coisas, crescer e dizer pros que me "criaram" (ao menos academicamente) que estou de partida.

Au revoir! Tchau! Adios! Bye!

É... por mais que insistam em me convencer em ficar um pouco lá-um pouco cá, um pé dentro-outro fora, essa saída é definitiva: there's no way back. I'm leaving you, babe.

Uma curiosa visita, onde cumpri, "completei" (na verdade eu completei sem completar ainda 😬) um ciclo, em que me me permiti - e me abri- a mudanças, e volto para o "mesmo" lugar, que por sua vez é outro também.

Outra cidade sendo a mesma: ando por ela, vejo a riqueza, a mudança, ouço sobre os problemas, suas misérias, seus white supremacists que parecem brotar em todos os cantos -na mídia, na feira de produtores locais, na cidade... e penso no que cresceu, e no que parece ter se corroído e deteriorado.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

No olho do furacão (visita à antiga casa) - parte 3

Hoje no café da manhã, mesas e mais mesas de pessoas caucasianas com 4, 5, 6, 7 filhos e famílias, sentadas todas comendo suas pancake, bacon, fruit-salad-with-no-fruit-taste-at-all.

Um homem da mesa ao lado reconhece a conversa minha e de uma amiga, em português. Se apresenta, diz que fazia capoeira, e que adora português: 

" - smoother and more mellow than spanish...". Promete-nos que da próxima ira nos dizer oi e umas palavras em português.

Penso no que era viver aqui, no que era viver tão preso a uma coisa, a um título, como foi viver por 5 anos nessa terra. 

5 fuckin' longos anos!
Eternidade!
Years!
Yeah... it was hard!

Minha amiga fala do relacionamento, de como é ser acolhida por uma outra família que não a sua em terra tão distante. Fala das dúvidas, do break-up que antecedeu a vinda à terra do tio sam. Penso em mim, no mei trajeto, no eu barquinho que aqui chegou desconhecendo tudo, ignorante quanto a tanta "selvageria" que regia o país mais rico do mundo:
A riqueza
O conforto
A sujeira debaixo do tapete

Não consigo vir, ver e viver sem me lembrar dos dias aqui.  Penso no Brasil:
A riqueza
As frutas
A sujeira debaixo do tapete

E penso que é tudo igual, fruta de plástico ou não, conforto ou não, 8% of your taxes going to the military ou não, 8% of your taxes going to bribes and politicians in Brasilia ou não... logo me vendo preso no grande rabo-preso da lógica de uma pessoa que não sai do lugar, que descobre que os predicados tinham um rabo-preso com a conclusão, que por sua vez dependiam do predicado...que por sua vez....

Nessas horas eu paro, por que me é claro que estou sentindo falta de algo: de alguém, de alguma coisa que me preenche
-Alguém viu minha rotina? A perdi no caminho, há mais de um mês não volto pra casa... ela é uma menina magrinha e atarracada, que não gosta de luxos, e tem um cachorro e um aquário com um polvo...

Penso na minha rotina, perdida no aeroporto, chorando num cantinho até ser encontrada por um adulto responsável que a leve de volta para os seus.
Esse adulto: eu, que não volto pra casa nunca
Casa... quero voltar pra minha. 
Pra ser sincero, quero encontrar casa.... e ter vindo visitar a antiga só me fez ver que há anos, e anos, e anos, eu não tenho uma própriamente dita 

E pra variar, isso me lembra algo, the great, ela se não outra: Ella

" a chair is not a chair....

A room is a still a room, even when there's nothin' there but gloomBut a room is not a house and a house is not a home
When the two of us are far apart
And one of us has a broken heart"


[A house is not a home, Ella Fitzgerald]

Na verdade pensei nisso tudono café da manhã hoje cedo, enquanto ouvia minha amiga e, no fundo, pensava em mim, com ais ou menos a mesma idade vivendo aquelas coisas todas, e a acalmava, cheia de dúvidas de tudotodotipo. 

Isso tudo pra dizer que.... andei em círculos, e cheguei no café da manhã de novo. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

No olho do furacão (visita à antiga casa) - parte 2

Sabe oque é engraçado de visitar os eua e vir numa conferência? Me sentir meio peixe fora d'água. Ok, ok, vim logo num evento que nada tem a ver com minha área, apesar de uma técnica aqui e ali ser aproveitável. Mas no todo é isso mesmo: mesmo no que faço sou um pouco "outsider".

Curioso isso, porque na vida me sinto um estrangeiro. No meu país me sinto um estrangeiro. No meu trabalho me sinto meio isolado.E quando vou em busca de um evento onde me sinto mais em casa, me sinto perdido.

Que coisa, não? 

É curioso isso, pois recentemente (digamos, há uns meses) eu tive um momento meio catártico, em que virei a mesa, e disse pra mim mesmo que não trabalharia mais com ninguém que não sentisse remar o barco na mesma direção ou com o mesmo entusiasmo. 

That's it, babe: resolução de 2020 antes mesmo de 2020 pousar na Terra. 

Outra coisa interessante dessa vida aqui é sentir essa vida "fake plastic tree" norte americana: onde a manga não tem gosto de manga, o mamão não tem gosto de mamão, as árvores foram desenhadas no autocad, e as focas domesticadas que visitam a praia não são mais animais e sim animais hooked-on-junk-food.

A vida aqui tem um gosto estranho.... 

...um gosto estranho de vida estranha. De comida estranha... de gente estranha....

Recentemente, após livro do Kahnelman, li sobre um experimento que diz que pessoas que são lembradas sobre dinheiro (por imagens, ou sugestionadas de alguma outra forma a lembrar sobre dinheiro) exibem traços mais evidentes de egoísmo. E, como era de se imaginar, todo o tempo, toda imagem, é dinheiro: 
- teu acidente de uber é dinheiro pra um lawyer que é especialista em pegar dinheiro de gente que sofre acidente
- teu parking está comendo teus quarters enquanto você respira
- o donut da esquina, é mais barato e vem mais
- a música alta no restaurante te dá uma sensação de academia de ginástica, em que a vida segue no 220V, assim como teu trabalho, teus amores, teu salário, teus amigos, teu coração, e tudo tudo mais

Não sei se onde morava era muito diferente disso... me lembro de lá de uma maneira diferente, não como L.A... mas posso muito bem estar enganado.

Será que eu vivia numa bolha, fake-bolha, fake-food, fake-everything, e nunca percebera?

 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

No olho do furacão (visita à antiga casa)

Estar de volta aos EUA depois de tanto tempo me traz uma sensação ainda estranha. Não consigo estar aqui sem contrastar as escolhas que tenho feito pra minha vida e a vida que levava.

Realmente, em vários momentos me parecem caminhos totalmente divergentes.

Envolto no "20-20" life-style de ver as coisas por outros olhos (ou com mesmos olhos que enxergam melhor o mundo) acredito que nada há de mudar enquanto não tomar uma atitude que me tire um pouco do conforto em princípio, pra depois me colocar de volta numa melhor posição (curiosamente, há uma teoria matemática, algo chamado "reforço de aprendizagem", que enfatiza isso: explore versus exploit). Me pergunto então oque aprendo: se algo que não está nos livros, algo emocional.. ou mesmo se nada aprendo, e apenas leio a mesma página de um velho livro.

Visito numa condição muito mais clara, onde consigo delimitar meus interesses bem, e distinguir oque faz sentido explorar, oque faz sentido deixar de lado. Diferentemente da outra visita, não há mais aquele desconforto de olhar pra traz com pesar, em ver a vida que deixei pra trás com olhos de dor e pesar: na última vinda  tudo estava embaçado, por dentro+namoro+academia+tudo que me cercava.

Dessa vez, sinto que só me falta mesmo a confiança (que às vezes parece me vir sei lá de onde) de que o futuro há de ser agarrado com as mãos, sem aflição, sem medo, conhecendo cada nuance de como o mesmo me arrasta pela vida, como uma correnteza.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Direto da Terra do Sol Nascente #67: mais um dos mesmos dias de um pesquisador

É sexta-feira. O dia amanheceu coberto de cinza, o céu esbranquiçado que nunca parece ter visto sol e azul na vida.

O dia me enche de sono.

Persisto no trabalho, tentando aprender algo, tentando me interessar por algo. Mas sou atacado pelo torpor dos finais de semana, que me impede de fazer muito, que o diga de fazer algo de útil.

Olho para os colegas ao redor: um lê notícias; outros, com uma máscara nos olhos, tira uma soneca vespertina. Produtividade à la Nihon: um tanto diferente do que se ve no ocidente. Enfim... não posso dizer muito, pois entre uma crítica virulenta e um olhar de soslaio, olho pro meu note e me dou a liberdade de escrever sobre a vida como funcionário no Japão de uma empresa japonesa.

Os últimos dias me trouxeram mudanças. Abri um pouco mais os olhos para olhar ao redor e pude tirar umas lições. Adicionei cores, cortei palavras, poli até chegar a um estado mais "vendível" de mim mesmo e meus skills. Vai ver a melhor maneira de se sair do Japão é substituir o tempo da soneca sagrada que eles tiram por horas dedicadas a olhar pro mundo lá fora em busca de atenção. "-Eiii!!! Olhem pra mim!!! Estou aqui no Japão, mas quero sair daqui!!!" Talvez, como um náufrago perdido num farol, este sou eu fazendo sinais a navios pelas suas atenções.

Mas bom.. acabou os 10-15 minutos de desculpa: preciso ir, encarar um notebook que enrolo há dias para terminar de implementar.

Que a força esteja comigo (e me proteja do sono).

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Todo tempo do mundo (versão paulista)

Em São Paulo
Meu esforço desmesurado em tentar passar tempo debaixo da sombra da árvore materna
A consciência clara de que o tempo passou 
e tem passado.
Ampulheta de minutos, 
segundos, 
instantes

Folhas levadas pelo vento leve, 
frutos não muitos, 
pouco doces
Flores que caem sem que eu veja, 
mas que sempre estão lá pra florir meu verão 
e colorir o chão nos quais meus pés brincam no inverno

Carrego comigo  todo o tempo

A vontade de voltar
Seria pra ficar perto daqueles que amo?
O tchau que ficou no Rio, 
daqueles que se despedem pra povoar novos mundos
Os tchaus que recebo em São Paulo, 
daqueles que me esperam de braços abertos

A saudade


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Despedindo-me #2: zoombies

Ontem deu uma crise: bateu um

"wtf, oque estou fazendo da minha vida!!"

 Corri pra pensar num plano B, liguei o Jorge Ben - Tábua da esmeralda.

Acalma
Respira

Pensei nos um milhão de micro detalhes pré mudança.. e me pareceram muitos. Micro surto com muita angústia e pesar. O ouvido dói, o peito dói... Aí ouvi "Zumbi"




...e fiquei pensando em como essa música fala sobre esse processo de mudança, de desapego/parto: uma princesa, que muda de país pra ser uma escrava. O contraste, das mãos negras pegando o algodão branco etc. Fiquei pensando na minha situação... e imaginei oq seria pra tal princesa ser destituída de sua realeza, seus súditos ainda sendo súditos mesmo depois do cárcere? Que loucura. Pensei em mim, no mundo que atravesso, na realeza que não levo comigo, o novo mundo que hei de desbravar.

Tá chegando a hora!! :) Diante do medo, no geral ainda me mantenho um pouco calmo. 



domingo, 7 de maio de 2017

Niponificação... cenas dos próximos capítulos I (Sail to the moon)



É, pessoal

E vai, e volta, e vou antes, e vou quando havia planejado.

Tá que tá uma bagunça!!!

Uma coisa boa que estou percebendo nisso tudo é que estou lidando com essas ondas grandes de uma maneira bem tranquila, sofrendo quando tenho que sofrer, sendo pró-ativo quando assim devo ser

Preparado pra um dilúvio!! (ou quase rssrs)


sábado, 11 de março de 2017

Despropósito


"On the road that I’m on I must continue; if I do nothing, if I don’t study, if I don’t keep on trying, then I’m lost, then woe betide me. That’s how I see this, to keep on, keep on, that’s what’s needed.


But what’s your ultimate goal, you’ll say. The goal will become clearer, will take shape slowly and surely, as the croquis becomes a sketch and the sketch a painting, as one works more seriously, as one digs deeper into the originally vague idea, the first fugitive, passing thought, unless it becomes firm."


Vincent Van Gogh

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Atrás do muro / tristesadays

Eu imaginaria de primeira que se trata de um post em paralelo a um, quem sabe, "atrás da porta"... um post sobre a sensualidade e prazer que rola do lado de lá, do lado do qual sabemos nada e ouvimos pouco, ficando aqui, do lado em que só imaginar é possível.

Mas não...a sensualidade, o prazer, a lascividade tem perdido espaço pra realidade política do mundo (que, arrisco dizer, chega a ser quase mais interessante que qualquer kama sutra, inventado, descoberto ou redescoberto por cada mortal pelos quatro cantos do mundo).

O presidente dos Eua diz em alto e bom som que planeja um muro separando os eua do México, fazendo com que os mexicanos paguem por isso.

Na verdade, se olharmos bem, é um muro separando a América: a Latina, e a do Norte.

triste... triste  :(

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Horizonte da despedida

Ainda não consigo olhar pela janela, ver o céu de sol de inverno ali ao longe, e imaginar que este é meu último Janeiro nos EUA.

Não sei se estou triste quanto a isso também... acho que é a sensação de que estou mais próximo de jogar âncora em algum lugar que me dá um alento, embora há muito, muito mesmo a acontecer até lá.


sábado, 19 de novembro de 2016

Good morning, mini apple

O dia não amanhece na mini apple. São 7 da manhã e nada de sol, de luz. Frio lá fora pr'aqueles que vão pro trabalho. Frio lá fora pr'aqueles que vão nadar antes do trabalho. 

Ou seja, um dia como todos os outros.... bem... exceto pelo não amanhecer, que espera, deixa os outros esperando, e chega cada vez mais atrasado.

Nessas duas últimas semanas, um grande choque: esperar pela eleição americana e se deparar com isso antes de ir pra cama.






  E com isso na hora de acordar.






É, meus amigos.... o egoísmo triunfa, o ódio triunfa... 

como uma péssima rima, vejo no celular pela manhã algo que nunca me passaria pela cabeça. Acordo com medo... fico reticente ao sair de casa. Mal consigo olhar pras pessoas, pra cara delas. 

"Será que aquela senhora fofinha que passeia com o cachorro e que acabou de me dar bom dia seria capaz disso?"  

" E todos aqueles hipsters que trabalham no café ao lado de casa...?! "

Estou estarrecido.. e me leva um tempo pra perceber que outros, locais, também estão frustrados, cansados e com medo. Muitos não faziam idéia do quão "feio" o país deles era. 


Oportunidades no Japão, Canadá e outros nunca me pareceram tão tentadoras quanto agora. Os próximos quatro anos hão de significar muito pro mundo. Será que o mundo está mesmo "dando uma guinada à direita?"  A se ver... Eu por aqui, sigo com um tanto de medo, tão assustado quanto meus alunos negros, muçulmanos e latinos.