Mostrando postagens com marcador niponificando. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador niponificando. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de setembro de 2022

Terra Brasilis : cápsula do tempo

Lá se foram mais de três meses desde que aportei nesses trópicos. 

A vida parece seguir rápida como água que corre montanha abaixo depois de chuva forte, corredeira voraz que quer levar tudo no seu caminho. Eu, tento me agarrar ao que posso para não ser levado junto.

Nas duas últimas semanas chegaram pelo correio as caixas que havia enviado lá do Japão meses atrás. Muito estranho recebê-las, abrí-las e sentir aquela sensação estranha... porque será que eu me enviei essas coisas? Eu realmente dava valor pra essas coisas ou eu simplesmente achava que elas seriam úteis para mim no futuro? Me perco em perguntas retóricas, sem esperança de uma resposta.

Foi um estranhamento completo.. um misto de curiosidade com toques de desdém: me pergunto se o Rafaello do passado olhava pro futuro e pensava que tais objetos, livros e afins seriam úteis ao Rafaello do futuro. Gosh, como eu estava errado em várias coisas. 

Me abro a me perguntar se, de fato, foi um erro meu ou simplesmente uma admissão de que minha vida acabou tomando rumos que não pude antever. Rumos para os quais não tinha ferramentas disponíveis em mãos quando saí de lá; há coisas cuja utilidade só vamos ter consciência adiante, quando soubermos da existência dos seus propósitos. E havia um monte de propósitos que eu ignorava (e ainda ignoro). Como antecipá-los? Impossível.

De alguma forma abrir essas caixas foi tocar numa cápsula do tempo, uma evidência paupável do meu apego a coisas, uma evidência visível de que minha vida parecia não ser muito (minimalismo?), um snapshot de uma vida que um dia foi e agora mudou, um esboço de alicerces de coisas que já não me sustentam mais... um desconforto em formato físico.

Ainda assim, a curiosidade (que bem citei acima) fez do evento de rever essas caixas uma experiência ambivalente: senti também fagulhas de felicidade em rever um rascunho, um livro, um desenho, uma peça de arte que um dia fez parte da minha antiga casa. Uma parte de mim que um dia foi maior e hoje é só mais um capítulo que escrevi e mal me dei conta de que acabou. De certa forma, reencontrar esses objetos sela o fim dessa estória, símbolos do último elo que me mantinha unido ao Japão.. um fio de Ariadne preso neles (ou seria em mim?) garantindo que um dia nos encontraríamos de novo, e que nesse labirinto de dias fortuitos e escolhas que se avolumam em direção ao futuro, houvesse um garantia de que nunca nos perderíamos uns dos outros. 


sábado, 27 de novembro de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #119: só poderia ser amor... (ou, talvez, o contrato)

[Bato na porta]

- Professor boss? Are you there?

-Yeeeessss

[Ele responde, com um yes bem longo]

- I have something to tell you. Well... you know... it's hard to say this, but I'll be leaving next year, in February...

- Ohh!!! Good! So, you have found your next position...

- No. Actually, I have not.

- How are you leaving then, if you have no next job?

-Well.. it's complicated. I just think that..

-Because in general people find a job before leaving their current job.

-...but I..

-Because you know that you can stay longer if you want, we'll be happy to have you here 'til the end of your contract..

-...but...

- What don't you do some more thinking and let us know? 


[Pronto, falei! ]

[Fiquei surpreso com a reação do meu chefe, quase "paternal", diria]

[Inesperado para um japonês. Foi bom, sentir-me benquisto onde trabalho, numa cultural tão different da minha.]

[Ainda meio assustado diante das minhas próprias deliberações, mas... acredito que esse barco já saiu do porto e a ele não volta mais.]

[...rumo ao desconhecido mundo lá fora, aqui vamos nós]

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #116: A-RAS-SU-KA

 Alaska. A-RAS-SU-KA. Grande e vermelho. Vejo daqui, da minha janela.

Tão bom sair de casa. Andar por outras ruas. Desprogramar. Isso, desprogramar uma vida de rotina, de atalhos que nos fazem escorregar pelo mundo de maneira óbvia, sem mais explorá-lo. 

Alaska. A-RAS-SU-KA. Um pedaço de gelo sobre a cabeça. É que bati agora há pouco, numa quina de um móvel. Pqp. Sangue. Ao menos com tão pouco não fico mal. Aguento. Sigo. tomo rumo. Lá vou eu, pelas ruas com um saquinho de gelo na cabeça. Não mais perdido, pois as ruas começam a me ser um pouco mais as mesmas. 

Quanta gente mais velha... pouca gente nova. Me pergunto oque é crescer numa cidade tão pequena. Ando. Olho pra dentro dos poucos cafés. Crianças no pós escola, sentadas, estudando juntas. Uns poucos jovens, 20-30 e poucos anos, descolados.... "-Ahh você vem de AAAA você conhece XXX-san? Um que usa um chapéu bem grande? " Pelo visto todos os descolados de cidades pequenas se conhecem nessa pequena terra do sol nascente.  Me pergunto oque seria ter ficado. Oque seria andar sempre pelas mesmas ruas. Oque nos faz ir pra tão longe, ficar tão perto, partir, voltar....

Alaska... você já foi?! Dizem que é lindo. um casal de amigos estão com planos de se mudar pra lá. Uma amiga, ex-roommate, mudou pra lá uma época. Vivia me convidado pra ir visitá-la, conhecer o então namorado e curtir uma neve. Achei melhor não ir... ela era meio doida. Me perguntava oque levaria uma pessoa pra um lugar tão remoto. Beleza? Curiosidade? 

Será que o Japão é remoto? Será que eu sou descolado?

Estava lendo um livro, da Esther Duflo e do esposo dela, em que ela fala sobre as origens de tanta migração, do porque das pessoas migrarem etc. Comecei a me perguntar se o meu motivo para migrar não foi outro senão uma anomalia. Anomalus migrantis: espécie estpupida que percorre o mundo a esmo, não foge de guerra, de violẽncia, de perseguição política... hei... será que fujo? Da pobreza, da desigualdade abissal que separa ricos e pobres no Brasil, da fome estridente que salta aos olhos e dói na alma, da estupidez das elites aristocráticas e egoístas (bom...nisso o Brasil não está sozinho), da classe média sempre-assustada-com-medo-de-perder-o-pouco-que-tem, das favelas que sobem os morros?!?! 

Faz tempo que não nos vemos, Brasil.... será que você mudou algo? Será que estou sendo injusto contigo? Será que teus abraços mornos não viraram nada mais, nada menos que um toque frio "à la Alaska" de um parente distante que se ve uma vez a cada 3 anos?

Era só pra ser uma viagem. Marcar o fim de um ciclo. O fim de uma era. Alaska? Bem gostaria: ver um alce, um urso, tomar um suco de berrys com gelo da rua... férias...yasumi... pena que tá acabando.




quarta-feira, 3 de março de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #109: uberização

Desde o começo dessa pandemia uma das coisas que mais tem cortado meu coração foi ver o aumento no número de entregadores de comida: várias pessoas de idade fazendo isso, além de várias pessoas bem novas também. 

Alguns vêem nisso um sinal de que estamos caminhando a uma era onde tudo fica mais online. Não discordo, mas tenho um viés um pouco mais pessimista de que a uberização dos nossos skills chegou para ficar.

Médicos terão seus skills leiolados por apps, assim como engenheiros, advogados. Quem tem menos conhecimento técnico então...  nem se fala: pra tudo no qual se pode trabalhar haverá a intermediação de algum app, por trás do qual umas poucas dezenas de "entrepreneurs" de Stanford estarão sentados, coletando dólares sem muito esforço. 

Onde está o erro nessa equação? Claro, tecnologia está aqui pra dinamizar nossas vidas, nos servir. Mas quando se torna cada vez mais claro que a mesma só vem exacerbando a desigualdade em distribuição de renda e levando ao nosso empobrecimento (como um todo, como sociedade), passo a me perguntar: será que, iludidos pela cantiga da "tecnologia", caminhamos para nosso colapso? Para uma sociedade menos inventiva, com poder de escolha diminuto e de decisão cada vez mais concentrado nas mãos de uns poucos?

Uma vez um amigo biólogo me "puxou a orelha" durante uma conversa sobre Darwinismo, dizendo que evoluir (por pressão do ambiente) não necessariamente significa que há uma "melhora" do indivíduo, ou um aumento na sua complexidade. "-Pode acontecer do indivíduo menos complexo ser o mais apto para se desenvolver num meio". Infelizmente, talvez seja sob essa toada que estejamos caminhando...



[Acrescenta-se a isso tudo o crescente número de lojas fechadas.]
[Recentemente uma fábrica de cookies aqui perto de casa, antiga que só e que passou por poucas e boas nesse Japão, fechou. 💔]
[Torço por dias melhores, embora essa "esperança" não tenha respaldo algum em fatos.]

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Direto da Terra do Sol Nascente # 80: "você voltou?"

Sim, eu voltei. Agora, pra que? ...é um enigma. 

No aeroporto já sou inundado por emails que me pedem de tudo: escreva isso, me ajude com aquilo, precisamos terminar o artigo, você se lembra daquele beta na equação, qual é sua cor favorita, você gosta de pôneis.

A vida nipônica, como uma erva daninha, parece querer se apoderar de tudo que tenho, não deixando espaço pra nenhum resquício de férias ou mundo ocidental que trouxe na mala.

Rapidinho, já começo a sentir o sossego correndo pelos meus dedos: um email que respondo, um latex que escrevo, uma vaga de trabalho que me parece interessante e pra qual penso em aplicar, entrevistas, contas de luz e de água.

Férias, ó férias: você me dá saudades

Aclimatizo e Tokyo na casa de amigos americanos. Como uma zona de descompressão, sinto-me voltando aos poucos pra vida na terra do sol nascente. Hoje, finalmente, volto pra casa: depois de mais ou menos 42 dias fora, penso oque será reatar laços com minha casa, com meu trabalho, com minha vida, com kinoko-san e gardênia.

Respira fundo.... você dá conta.

domingo, 20 de outubro de 2019

Direto da Terra do Sol Nascente # 75: belicosidades

"-Oque que você vai fazer no Brasil em Dezembro?"

Ouvi isso do meu chefe esta semana, ao comunicá-lo sobre uma viagem para ver minha família. Na hora, fiquei desacreditado. "-WTF.... será que respondo a uma pergunta tão idiota?", pensei. "-Vou no Brasil pegar concha na praia e comer tapioca, sua anta!". 

Me calei, contido: não disse nada. 

Fui desenrolando a conversa. Abordei o xis da questão, o workshop idiota da empresa acontecer quase no final do mês de dezembro (oque antes acontecera no começo do mês). Me senti afrontado diante disso: onde já se viu, uma empresa com um monte de estrangeiros, fazer um evento desses no final do mês, ferrando todo mundo que pensa em viajar e ver a família?! Fiquei simplesmente puto, e fui conversar mais puto ainda com ele, disposto a construir uma outra ponte além das que já tento construir no momento; dessa vez uma ponte que me permita não participar dessa palhaçada: será que realmente tenho que ir nesse evento?

"-Claro que tem!", disse meu chefe. 

Claro!!!!! Sim!! Justamente!! Faz todo o sentido mesmo: trabalho na empresa, então tenho que ir no evento, mesmo que ele seja totalmente em japonês (num japonês super formal, do qual entendo quase nada), e no qual eu devo falar - melhor, me apresentar- por no máximo 2 minutos, se é pra ser como foi no ano passado (frisando: 2 minutos num evento de 5 horas).

Sem sombra de dúvidas.... faz muito sentido! 😋

Diante dessa conversa absurda na sexta, passei o domingo meio estranho1... logo debaixo do coração parecia haver uma pedra, daquelas que não deixam o rio fluir em paz, sabe? Minha cabeça embebida em raiva, eu imaginando belicosamente como abordaria a questão na segunda de manhã, numa outra reunião. "-Se as coisas não saírem como eu espero eu viro a mesa, 'chutopaudabarraca'", pensei por boa parte da tarde.

Foi interessante, me pegar assim raivoso, chutando pedras e abatendo nuvens a tiros: raramente sinto isso, essa hostilidade por alguém ou algo. Assim que senti isso e não pude me desenredar dessa pedrinha dentro de mim, sabia: "- eu não estou agindo racionalmente..." Foi o momento de parar pra tentar entender melhor oque estava rolando, a não me precipitar, a ver oque está em jogo, a ver como, em uma possível conversa, não me deixarei levar pela raiva em me sentir roubado, mas sim ouvir e falar com tranquilidade, e aceitar oque devo aceitar, sem fazer do chefe, pelo qual não nutro admiração alguma, um indesejável inimigo.

É complexo isso: quando achamos que alguém se põe no nosso caminho por maldade ou por pura falta de consideração, agimos como bicho: voltamos a ser instintivos, protetores de nós mesmos. A sensação é tão desagradável, que hoje saí de casa só para tentar difundir isso no meio, me sentir menos preso e definido só por isso. Enquanto caminhava, me lembrei de que esse sentimento, que mais parece um veneno, já havia me visitado: uma vez, enquanto na pós nos eua, puto que estava com o departamento onde estudava, com os docentes pros quais trabalharia naquele semestre. Sim; havia ali também oque havia notado neste caso: alguém, me roubando de algo. No caso, me roubando do meu tempo com minha família. Incrível como temos uma memória emocional que funciona como músculo: em situações semelhantes, (re)agimos e interpretamos o momento da mesma forma.

Me custou dividir a questão. Me custou olhar pro outro lado. Me custou abrir mão da minha belicosidade, da minha vontade de ir à guerra e fazer meu chefe ouvir tudo aquilo que tenho a dizer e que acharia justo ele engolir goela abaixo... não: entrar em guerra não é a melhor maneira de se resolver um embate.

Meditei um pouco. Amanhã, antes do trabalho, tentarei meditar mais um pouco: logo cedo terei outra reunião para abordar a questão da ida descabida ao workshop desnecessário... desconforto que espero, com calma e sabedoria, poder remover daqui de dentro do meu peito, onde ainda sinto que ele me cutuca.

[Como dizem mesmo no serenity prayer:]
[God, grant me the serenity to accept the things I cannot change,
Courage to change the things I can,And wisdom to know the difference.]



1Curiosamente, pulou um dia, pois o sábado foi relativamente tranquilo, e mal pensei na questão.↩





domingo, 24 de fevereiro de 2019

Direto da Terra do Sol Nascente #46: eu sou apenas um rapaz, latino americano comendo curry japonês

[Em Hokkaido]

O cozinheiro do restaurante, horrorizado diante da cena, não se segura: joga seu chapéu de cozinheiro pro lado,  lava as mãos e, ainda com o avental, pula o balcão e brada, em alto e bom japonês:

-câregayasaitoishodê,tabemasu.....

[Que traduzo aqui para vocês]

- Você deve comer o curry com os vegetais! O arroz você come depois.Não tem essa de misturar tudo como você está fazendo.

-Mas moço,  digo eu, - e o pobre do arroz, vai acabar frio

Aí o cozinheiro arranca a colher da minha mão, e por um segundo questiono se ele vai colocar a comida na minha boca. Me desconcerto: "- um povo que nem se apertaas mãos, mas toma talheres uns das refeições dos outros". 

Nessa hora pára um carro de som na frente do local, e um homem sobe no capô do carro com um megafone, gritanto:
"-Rafaello, volte 10 casas no seu entendimento da cultura local."

Me desconcerto, embaraçado. O cozinheiro então move a colher, pega o brócoli, e mostra que devo mergulhá-lo para tomá-lo com o curry.

Dou um sorriso ocidental...
"-arigatôgosaimasu!"
Olhos me perscrutam vindos da direção da cozinha.
Como o jantar até o fim.
... sem ousar tocar no arroz
...ou mesmo olhar pra cima.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Rafaello K.

Ontem fui ao médico. Meus olhos, avermelhados, davam sinal de conjuntivite.  Entro no hospital, ninguém me entende. Até que ouço "Yasumi" (dia de descanço) e vi que ali não haverá médico pra mim. Como sempre, as pessoas tentam ajudar: uma senhora sai do seu posto pra me levar num outro hospital, numa quadra logo ali. 

E lá vamos nós!

Chego, lêem a carta que a secretária da empresa escreveu, explicando meu estado. "Esse hospital não é aqui". Com muita boa vontade, a enfermeira deixa seu posto e me leva pro outro hospital. Andamos algumas quadras até que...

Você já deve ter imaginado: chegamos no primeiro hospital (que estava fechado em dia de descanço). 

Volto no segundo hospital. Assino coisas, preencho nomes "Romaji, OK?" (caracteres romanos). Sim, OK. Aí sigo por uma séries de coisas e pessoas ininteligíveis, ninguém me entendendo, até chegar num médico que não fala uma palavra que entendo.

E se eu entrar ali pra me curarem os olhos e me operarem de uma apendicite que não tenho?

Me desespero. Oque será que essas pessoas estão dizendo e fazendo? 

Nada faz sentido. "Chotto mate, kudasai"... me pedem pra aguardar.... devem estar a preparar a sala pra me operarem de hérnia, ou desobstruirem minha aorta não obstruída (que eu saiba :). 

"-Monteiro-san", diz uma enfermeira de voz bem fina.

Ainda sem entender, me entregam um papel com sinais e símbolos em japonês. "Prescription?".... Ninguém me entende. "Ok, Ok"... primeiro homem na lua, pago com moeda que trouxe da Terra. Me pedem pra aguardar de novo... e a mesma enfermeira que me levou ao primeiro hospital pede para seguí-la para fora do hospital... "será que vão me levar pra coréia do norte? Ou vender meus órgãos?"

Entramos num prédio... uma farmácia. Antes que as cortinas se fechassem, tudo começou a fazer sentido.

[Esse dia me lembrou muito de um livro do Kafka, "O processo" (The trial)]
[Nele, um cara chamado Joseph K. está sendo processado, só que ele não sabe o por que]
[Aí o livro inteiro é isso, as pessoas o abordando pra falar da gravidade do caso dele e ele sem saber do que se trata]
[Ontem eu senti um pouquinho do que o Kafka queria passar... acho que nunca tinha entendido muito bem aquele livro até então rsrs foi no mínimo interessante]

domingo, 3 de dezembro de 2017

Direto da Terra do Sol Nascente, #15: にんじん/carrots/cenouras

Ontem aconteceu algo muito curioso. Lá fui eu, secar roupa fora  de casa por que não tenho secadora. Tempo pra passar, espero ali ao lado num café. Sento, peço em japonês: "Bolo de cenoura e Café". A moça japonesa sorri em japonês e diz algo incompreensível (também em japonês). Me desespero.  Só sei falar, não sei conversar rsrsrs Acabou aí, com um riso/sorriso meu. Ela vai, traz o bolo e deixa a conta na mesa, com uma cenourinha desenhada e um "thank you".

Na hora de ir embora todo o staff do restaurante me espera no caixa, com uma pessoa extra (amiga da dona) que se apresenta em inglês e diz: "a dona não fala inglês mas ela gostaria de perguntar o teu nome e saber de onde vc é."

Aí digo, Brasil, bla bla bla... e a moça me conta um pouco sobre o café, sobre a dona o ter aberto depois de trabalhar por uns anos no Starbucks etc. 

Aí a dona diz algo, tímida, sem entender oque conversamos. 

"Ela também gostaria de dizer que notou que você veio aqui já essa semana e que está muito honrada em poder cozinhar pra ti". 

Na hora eu me senti meio bobo... meio "wow... que bonito isso... embora eu só seja um reles mortal"... acho que por um segundo me senti como...sei lá, a rainha da inglaterra hahaha Bateu uma humildade tremenda: "eu só sou um zé ninguém...", pensei... 

Saí de lá com um sorriso, lembrando de uma música/poema, que diz 

"Of all these weird creatures
Who lock up their spirits
Drill holes in themselves
And live for their secrets"

É talvez eles estejam me contando seus segredos... talvez... :)

ps: a música é "subterranean homesick alien", do Radiohead


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Direto da Terra do Sol Nascente, #0: diálogo entre dois mundos

Pra registrar o respeito com o qual os japoneses lidam com os estrangeiros: cheguei na alfândega e o policial, não sabendo falar inglês, apontou pra um livrinho no qual dizia

"os cães farejadores detectaram algo na tua mala. Por favor nos siga pra uma inspeção mais detalhada"

E lá fui eu, calmo (já aconteceu isso antes comigo, já não me preocupo mais). Aí lá vai, 6 policiais pra ver a minha mala. Um deles me perguntando num inglês truncado, qual era minha especialidade. Falei que vinha dos EUA, onde morei nos últimos 7 anos. Mais perguntas, falei que era matemático. Todos eles ficaram curiosos.

No meio tempo, aquele samba: tira coisa da mala, japoneses vendo todas as minhas roupas de baixo, sapatos, goiabadas vindas do Brasil etc Até que, quando tudo havia sido checado e escaneado, eles viram pra mim e pedem desculpa pelo transtorno. Pergunto se posso ajudá-los a colocar as coisas na mala, ao que eles respondem afirmaticvamente. Não sem antes abrirem um dos livros de matemática que estava na mala e se debruçarem encantados com as fórmulas e desigualdades. A única coisa que entendia nessa hora eram expressões vagas como

"seno" (japonês ininteligível) "cosseno"

Um diálogo entre dois mundos, que transcende a língua: eu, vindo cheio de números, pra conversar numa linguagem universal com outros daqui. Achei o momento incrivelmente único e bonito.

Ainda sem entender muito, aponto pras minhas outras malas. Eles me respondem, afrimativamente com a cabeça (típico dos japoneses). "no no"... era só aquela a mala que queriam fiscalizar.

E assim começou a jornada por aqui (esse era pra ter sido o primeiro post, dáí o número 0)


domingo, 7 de maio de 2017

Niponificação... cenas dos próximos capítulos I (Sail to the moon)



É, pessoal

E vai, e volta, e vou antes, e vou quando havia planejado.

Tá que tá uma bagunça!!!

Uma coisa boa que estou percebendo nisso tudo é que estou lidando com essas ondas grandes de uma maneira bem tranquila, sofrendo quando tenho que sofrer, sendo pró-ativo quando assim devo ser

Preparado pra um dilúvio!! (ou quase rssrs)


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Niponificação precoce

Olha... capaz de eu ter que me mudar pro Japão antes do que eu esperava :/ Há umas certas restrições com o VISA que não imaginava....

....puxa.... e eu querendo aproveitar meu último verão nos Eua...

Não...não.... ainda não processei isso :S