domingo, 17 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #125: "para agradecer, aperte aqui"

 Só notei na semana passada, enquanto esperava para atravessar a rua: passava uma ambulância a interromper o trânsito, aquele alvoroço de carros parando e se empilhando para deixá-la passar. Ao que a ambulância passa, sirenes e tudo o mais, uma voz sai do seu auto-falante "- arigatô gosaimashita!".

Fiquei rindo sozinho e pensando em como isso nunca acontece em qualquer outro país que conheço. Sabe, não me surpreendeu, e até me pareceu óbvio esperar issor dos japoneses. Mas, de qualquer forma, fiquei meio intrigado sobre a maneira como as pessoas e diferentes culturas entendem a noção de urgência. Talvez por aqui as normas sociais não se transgridem tão facilmente, mesmo em casos de excessão, como a morte? Ou em casos de urgência como um incêndio? Talvez seja a mesma "regra moral" que se curve a absurdos como não deixar que mulheres entrem no tatame de sumô para ajudar um homem tendo um ataque cardíaco

Não sei...  me pergunto se tudo não são diferentes observações sobre um mesmo fenômeno. fugindo um pouco deste caso em particular, é interessante observar como tais "normas" funcionam e variam de lugar pra lugar, denotando camadas de coesão no tecido de uma sociedade/comunidade. Vai ver todo lugar tem esses botõezinhos que se apertam a depender do contexto: você aperta o "bom dia" ao entrar no elevador, enquanto noutros lugares isso não é necessário, ou você descarrega o dedo no botão "small-talk-mode" enquanto passa no caixa do supermercado no Brasil, enquanto noutros lugares (Japão, EUA) isso é muitas vezes inaceitável!


Talvez mais curioso seja pensar em como diferentes culturas depreendem uma mesma "regra", em especial em empresas. Há um livro curioso do Reed Hastings (um dos criadores da Netflix) no qual ele fala sobre esse "culture map" da empresa, e como é importante levar em conta o contexto onde cada cultura implementa uma política de empresa. 

E dá pra estender essa conversa se formos para um assunto um pouco mais amplo: modelos políticos. Em especial quando testemunhamos a maneira condescendente como muitos países ricos tratam outros mais pobres. Será mesmo que a cultura Brasileira é mais permissiva (como já ouvi de algumas pessoas), ou (como acredito) essa é uma visão simplista, ruto de anos de desigualdade e exploração que vem lá de muitos anos, do tempo em que éramos colônia?  Ou será que alguns povos são mais coniventes com e propensos a subordinação diante de regimes autoritários? Ou será que existe uma "grande democracia" que inspira justiça e tem o "dever" de liberar todos os povos, mesmo que pra isso deva subjugá-los e ir à guerra? Em dias como esses, em que a Rússia (bom, Putin e seus asseclas) se vêem nesse direito, como dialogar com visões tão distorcidas  do mundo e da realidade que (n)os cerca?

Pra variar, tudo isso me passou pela cabeça num piscar de olhos.. digo, num sinal vermelho. O sinal logo abriu pra pedestres, atravessei a rua, cheguei no restaurante e pedi um "filé-com -fritas". Na versão japonesa, claro!



segunda-feira, 11 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #124: a maior das distâncias

Muito provavelmente é a palavra sobre a qual mais falei em todos esses anos de blog: distância. 

E ciúmes...falei de ciúmes? E de se sentir substituído?

Acho que não... mas, de alguma forma, num universo não muito distante, esses termos todos se emaranham.

Estar longe... a sensação horrível de impotência, como se fossem mulhares de borboletas a se debatem na nossa barriga, fragilidade em erupção, o estado de não-presença exacerbado também, o coração longe, a cabeça mais longe ainda... 

Em suma: uma merda.

Acho que não foi nem uma, nem dias, mas várias as vezes que senti isso. Em todas, é difícil: a dor parece intransponível, o tempo parece se dilatar, dilacerando a alma como cacos de vidro ... você deseja que tudo passe rápido pr'aquilo acabar, mas não, o tempo se mantém longo e vagaroso, alfinetando cada segundo da nossa existência com um "eu te disse", ou "a culpa é tua"....

Perder alguém é muito difícil.... Ver essa pessoa se distanciar, imaginar que foi culpa sua...sem falar em saber abrir mão por não poder mudar a situação, ao menos não ali, naquele derradeiro segundo em que você quer que sim, tudo mude e seja diferente.

Caramba..sempre penso sobre isso: já perdi tantas pessoas que considero especiais, tantos amores, e sempre sofro da arrogância de achar que da próxima vez será mais fácil. Não: sempre me dói como se fosse o primeiro, como dura como o último fosse nada.... É um estoicismo de amor: "sofra cada amor como se fosse o último a te rasgar a alma", e lá vai você, vendo que todos os remendos do break-up anterior não serviram de nada.

Pensando bem, talvez serviram: pra racionalizar a situação de perda e ver que, num horizonte sabe-se lá quão distante, essa dor passa.


Direto da Terra do Sol Nascente #123: trocando por miúdos ou "a transiência do belo"

Meu apt está ficando menor ... ou talvez maior, a depender do ponto de vista. 

A cada dia, móveis se despedem de mim, e partem para outras casas, me desejando boa sorte na minha jornada. Well... pareço antropomorfizar as coisas mais banais: móveis sáo e serão móveis. Que venham, que passem, que sigam suas vidas para ser funcionais onde quer que possam ser.

A vida tem se demonstrado curiosamente estranha. Calhou de ser logo o começo da primavera, a vida fechando esse ciclo de "quase-morte" (the "death spiral", continuando o tema do post anterior), e se renova, brota em beleza por todos os cantos. Como um pop up insistente que não te deixa em paz, olha-se pra qualquer lado no Japão de agora e se vê algo rosa-esbranquiçado, uma flor de cerejeira que me mostra que não, que tudo não passou de mais um ciclo mesmo.

Talvez, desse ciclo que aqui fecho, devesse tirar lições parecidas. Sim, é um ciclo se fechando, uma transição onde agumas coisas tem que passar, serem deixadas de lado, e a transiência de tudo - da beleza, da cor, da flor - deixando no ar o pólen da lembrança, numa certeza infinita de que tudo na vida passa.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #122: lamaçal

 Nunca havia acontecido comigo. Já tinhaouvido falar, mas não, nem havia chegado perto de mim. 

Mas sim, ma hora, como talvez tivesse que ser, aconteceu.

"-Let's just put the name of two more people here: my boss and my superior..."

Reagi num imediato "-no fucking way!", mas não sei se foi o suficiente pra me deixar bem diante da estória. Caramba... que ousadia!!

Sei lá... fiquei meio chateado em ver isso. Fiquei pensando no "lemon problem" do Akerlof, me perguntando sobre o custo de ser desonesto e em como isso leva, por uma força maior que a de cada pequena parte, a corroer toda a estrutura de uma sociedade (no caso, a sociedade científica japonesa). 




Alright, já tinha ouvido coisas similares nos EUA quando estive por lá, não é algo particular do Japão em si. Acontece aqui, acontece em todos os lugares.

Me pergunto quanto tempo levará pra essa espiral culmine num turbilhão onde só o que restar são os mais corruptos. A pergunta é interessante (e o Akerlof, infelizmente, não a responde). Claro, você deve pensar, "-isso nunca há de acontecer! O ser humano é bom e cientistas têm que prestar contas à sociedade!" Aí que mora a assimetria de informação: a depender do meio científico que você está não há avaliador de fora que possa dizer se você está certo ou não. O conhecimento é muuuuuito técnico pra ser avaliado como uma simples leitura por lazer feita opor outsiders.  E olha, nem precisamos ir muito longe da academia pra ver outros exemplos: crise de 2008, milhares de Ponzi schemes pelo mundo, onecoins etc. É um pouco do que o próprio Akerlof e o Schiller falam no Phishing for fools: se alguém coloca um anzol com uma isca, vai aparecer um trouxa e ser fisgado. O difícil é admitir que, às vezes (ou muitas vezes), o trouxa somos nós.

Talvez, infelizmente, resistir a isso é mais forte do que a minha, a tua, a nossa honestidade: se "competidores" (caso você compita com os mesmos pro vagas de trabalho ou por grants de pesquisa) são corruptos e isso os coloca num outro nível de reconhecimento perante juízes (sociedade, bancas de avaliação de projetos, hiring managers), a imoralidade passa a ser um novo standard e todos acabam fazendo o mesmo.

Num outro exemplo, relativamente distante mas não tanto: muita gente que é atleta profissional já me disse que é impossível ser um atleta de alta performance que não se dopa de alguma maneira. Foi na verdade de um atleta que ouvi pela primeira vez que "se você não fizer o mesmo, você nem chega num nível pra competir com os outros". 

Enfim... aconteceu...  em primeiro de Abril de 2022 (mas, se foi piada, foi de muito mal gosto).

[Toca vinheta de fim de programa]


terça-feira, 15 de março de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #121: on A.I., love, ponies, and handcuffs...

 This is a kind reminder: you have a date with Rafaello a few weeks from today. 

Statistical analysis based on your recent chats with him shows that he likes:

  • ponies, with 99% of probability;
  • Mexican food, with 88% of probability;
  • women greeting him holding wildflowers in their mouths, with 86.5% of probability;
  • handcuffs, with 56% of probability.

Would you like to add any of these items to your shopping cart?

quinta-feira, 10 de março de 2022

Direto da Terra do Sol Nascente #120: it's all over now...

 Isso, gente: acabou. 

Bom, não acabou ainda, mas ao menos já sei quando acaba. 

Passagem comprada pra ir embora, já vejo a casa se esvaziando aos poucos: um móvel doado aqui, outro vendido ali. Tranqueiras e mais tranqueiras que se desfazem porta afora mas que, infelizmente, não evaporam.

Havia pensado há algumas semanas em não escrever mais. Sei lá... parece que passou já. Na verdade fiquei pensando na efemeridade dessas redes, desses meios de comunicação. Lembra do Orkut, por exemplo? Pqp... o orkut foi o prenúncio do blog, e estes do jornal impresso (que, sabe alguém, ainda existe?).

Olha, já estou fugindo do assunto... mas já volto a ele: isso, pessoal, tô indo embora. Na verdade é isso que me fez mudar de idéia. Queria ainda poder parar e descrever um pouco desse processo: do que faz sentido, do que não faz sentido algum, e do pouco que consigo depreender dessa transição.

Uma coisa é certa: estou indo bem depois do que imaginava. 

Outra coisa é certa: ter vindo pra cá foi uma grande mudança na minha vida. 

Agora, além de tudo isso.... não tenho mais certeza de nada. 

Bom...sem dúvidas a partir daqui terei uma outra vida. Agora, como vai ser? Melhor.. pior?... Acredito que melhor, mas muito, muito diferente da de agora. Me dá um certo friozinho na barriga em pensar nesse desconhecido, mas ao mesmo tempo fico curioso e ansioso (de maneira positiva) pra ver como vou me vira em novos contextos. Por que é fato: a vida é curta, e passá-la fazendo o tempo todo a mesma coisa não vale a pena. E, admito, já passei muitos anos da minha fazendo quase a mesma coisa (well... praticamente mudei de "área" de trabalho 3 vezes, mas não deixa de ser uma mesmice). 

Aí eu volto pro título (roubado de uma música do Dylan do amazing "bring it all back home", lindamente adaptada pra português pelo Caetano). Reflito sobre esse intervalo enorme de tempo pra "tentar colocar a vida em ordem", em contraste com as vidas de todas aquelas pessoas de Kabul, penduradas em aviões em desespero para ir embora dali o mais rapidamente possível, ou essas pessoas da Ucrânia, forçadas a sair de onde vivem por conta de uma invasão estúpida de um tirano com arroubos de grandeza "soviéticos".

Sou, acima de tudo, um privilegiado.

Mesmo assim, "it is not all over yet... not at all". Olho pra essas "stepping stones left behind", para tudo oque tive aqui e só posso ser grato a tudo. Me parece uma obrigação, enquanto diante de tanta incerteza, me erguer e seguir de cabeça erguida, seja lá oque me espera. E desses dias, simplesmente aprender que, acima de tudo, não devo me apegar a qualquer certeza que a vida parece dar. Isso porque, no fim das contas, tudo passa, tudo é transiente, e só os sorrisos que demos, as risadas, as coisas que aprendemos, podem ser transportadas pra'qui-e-ali, por mais de mãos vazias que andemos pelo mundo. 

Parece niilismo da minha parte, mas acredito que seja somente lucidez e serenidade. No fim das contas, talvez seja a melhor maneira de se seguir adiante.




quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Já foi?

Situação estranha que é essa de ter um orgasmo. Ainda mais, de gozar em linguas diferentes. Em inglês, seria um "veio" ("to come"), da mesma maneira que em Francês (viens). Por sua vez, em Japonês se vai ("iku", do verbo ir... mas que, provavelmente, um japonês nativo há de te dizer que o kanji é diferennte, embora sejam verbos homófonos). Em Português, diferentemente dessas outras linguas, nem se vai, nem se vem, nem mesmo se fica: se goza. Como se fosse o fim de uma ato que findasse em plenitude. "-Nem fui, nem vim, e nem me pergunto como cheguei aqui: só sei que me deleitei".

A parte mais curiosa dessa jornada a algum lugar, essa promenade "pra aproveitar algo", é o fato de que, diferentemente de passeios de barco, de lancha, de jet-ski ou de charretes, não se pode ir neles sozinho (well...técnicamente sim... mas vamos ignorar esse detalhe): são passeios em grupo, onde se vai na garupa de alguém, ou ao lado de alguém - ou alguns, caso haja mais espaço no barco. 

De toda forma, por mais gente que caiba, a questão toda dessa viagem vai além do transporte: é uma viagem em que nunca se sabe onde se vai chegar e, curiosamente, onde duas pessoas num mesmo barco podem viajar e chegar em lugares muitos distintos. Como um paradoxo Físico, partículas regidas pelas mesmas equações e gozando (!) das mesmas condições iniciais acabam chegando a lugares distintos num mesmo intervalo de tempo. Gozar tem essa natureza absurda-quase-quântica - a de estar e não estar num mesmo lugar, e ainda assim não ser quantico, por não ser quantizado em pequenas parcelas: quando vem, é como uma erupção, consumindo todas as cidades e vilas nos arredores. 

Mas vejam: eu também já me desvio e vou parar num outro lugar que não oque imaginava.  Me perdõem... me perco, mas agora volto! (Francês ou Inglês?) Fiquei pensando essa semana nessa natureza linguística do orgasmo e, me arriscando numa auto-avaliação que me levasse a vales mais distantes dos infortúnios de se chegar a ele. Me perguntei, como é difícil exercer esse papel de viajante, entertainer, e guia de grupo que o prazer nos exige: você ali, com a bandeirinha, chamando a atenção de viajantes que se perdem em fotos e selfies, discutindo o troco em barraquinhas de milho, em sonecas num banco de praça. Isso quando você não é a pessoa a ser chamada a atenção. Sim, meus caríssimos leitor(a)es: muitas vezes somos nós a nos perdermos ao longo de tal viagem e, quando regressamos ao grupo, levamos uma bronca por deixarmos todos esperando: "-o ônibus já estava de saída!!".  Isso, claro, no melhor dos cenários: às vezes o ônibus já saiu há tempos!

É.... gozar é difícil, se é que vocês me entendem. E pior, muitas vezes acreditamos estar num hiking onde todos estão aproveitando, chegamos no cume da montanha, para vermos que estamos sozinhos lá em cima. "-Ué... cadê todo mundo?" De alguma maneira, o orgasmo tem essa estranha beleza de nos empurrar em contato com oque temos de mais egoísta. 

No entanto, se nos mantivermos atentos, o orgasmo pode também nos aproximar daquilo que temos de mais "autruístas": o doar-se para uma causa nobre, o ceder para que todos aproveitem a viagem. E, não se esqueçam da bela lição que pode nos dar para que melhor saibamos ouvir e aprender diante de fracassos e vergonhas. Isso porque, é claro, muitas vezes assumimos que todos estão adorando tudo quando, no fim das contas, uns estão sendo comidos vivos pelos mosquitos enquanto nos lambuzamos de repelente. O orgasmo nos mostra essa grande virtude que é ouvir, admitir erros, e também saber dizer pros outros que não, a viagem não foi boa (ou, ao menos, não chegam a um lugar comum ao fim dela). Lembro da primeira vez que uma ex me disse que havia mentido, "faked it". Ao mesmo tempo fiquei envergonhado e feliz: uma certa vergonha pra mim (presunçoso) e pra ela (de certa forma), que se sentiu pequena por não ter dito a verdade. Nesses momentos, rápidos e efêmeros como de átomos que se dividem, a gente pode aprender muito: alguns se escondem e os evitam, enquanto outros (presumo que fora nosso caso) resolvem correr ao guichê pra comprar mais tickets, viajarem novamente e seguirem aproveitando a paisagem até, eventualmente, aprenderem a viajar juntos.

Mas, claro, tudo depende da pessoa... é difícil nos vacinarmos contra essa presunção de que o outro "chegou lá também". Lendo  Jorge Amado encontrei esse trecho em que ele descreve, de maneira sutil, mas sem delongas ou palavras desncessárias, o famoso "- oque... você já gozou?pelo qual todo homem passa. E, se não passou, é mentira: esses devem ser os que mais rápido terminam tal ato. 

"Foi tudo muito rápido e pudibundo, por assim dizer. Muito diverso de quanto conhecera Dona Flor, e por isso mesma ela se perdeu e não o alcançou em tão mudo e austero possuir-se. Apenas desamarrara no pasto do desejo e já ouvia o canto de vitória do marido no outro extremo da campina. Ficou Dona Flor como perdida, opressa, uma vontade de chorar."

Dona Flor e seus dois maridos, Jorge Amado. 


Uma arte. 

Um exercício (zen, talvez?). 

Uma viagem. 

Uma lição. 

Um passeio.

Um devaneio. 

Um sonho.

"-ihhh .... já dormiu?"

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Entre os emaranhados da verdade e da confiança ("Chain of trust" & "chain of truth")

Uma das coisas que sempre achei interessante quando alguém descreve estelionatários e outros golpistas está em como estes constroem uma "rede de verdade" com falhas, buracos enormes, mas nas quais uma pessoa está disposta a se jogar ao se sentir "em segurança". Tais buracos correspondem àquilo que consideramos difícil de acreditar logicamente, "gaps" lógicos que dificilmente convenceriam, ou se sustentariam, por si só. No entanto, ainda assim, as pessoas acreditam neles, caem em golpes, se jogam, se estrepam. 

A meu ver, há algo maior nessas estórias: a cadeia de confiança que estes vigaristas são capazes de construir. Essa linha tênue, tenebrosa, e enevoada entre a verdade e a confiança.

Mas aonde quero chegar com tudo isso? Talvez tudo tenha começado no texto abaixo: nele  um médico relata o caso de um paciente soropositivo (Mr B, um morador de rua) que não acredita no HIV. O médico tenta e tenta com que o paciente tome o remédio retroviral mas não, o paciente não toma porque não acredita que o vírus do HIV causa a doença. 
"Covid denialism, like AIDS denialism, reveals that many of doctors’ assumptions are incorrect. We overestimate the value of reasoning and facts. We believe in our clinical authority. We expect patients to behave rationally. But we all develop our beliefs through interactions with other people — what you believe depends on whom you trust. "

[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

Calhou de esse artigo "resolver" um desconforto que senti numa outra conversa, ao ouvir que "a ciência é uma fé, assim como a falta dela também o é". Não, não concordei. Na verdade me causou desconforto pensar nisso, apesar de não saber bem oque dizer na hora

Essa frase me despertou uma memória sobre um post antigo, A estalagem da razão: sobre agulhas, alfinetes, Index theorem e linhas, de 2010, no qual cito:

"A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível."

Fernando Pessoa - Livro do desassossego

Há alguns anos eu até brincaria com esse tema, concordaria com F.P. até. Sim são todas fés. Mas hoje minha visão sobre o tema mudou: verdades não são idéias que flutuam no ar e adotamos as que nos apetecem. 

Mas se já ficamos desconfortáveis com a idéia de toda crença ser uma fé, imagine então a idéia de podermos agir em função de qualquer coisa que acreditemos. Pensemos neste cenário dos dias de hoje: pessoas sem máscara, sem vacina, um perigo de saúde pública. E se esse paciente (Mr. B) fosse um "spreader", um cara que saísse transando com meio mundo passando AIDS pra tudo e todos, dizendo que não era HIV que causa oque ele tem? Trata-se então do direito de não só terem fé, mas de exercê-la da maneira como bem entenderem? Certamente, não ligo que as pessoas acreditem no que queiram: enquanto eles tomam atitudes que impactam a vida deles somente, eu lavo minhas mãos, sigam na direção que quiserem, eles são livres pra tanto. Agora, são livres pra sair espalhando as "verdades" nas quais acreditam? Não, não são.

Uma parte considerável deste embróglio então está nisso, nessa disputa pelo correto ter virado uma disputa de "crenças". As pessoas julgam que tudo, toda visão de mundo contém erros, então são todas iguais. Dessa forma, tudo vira uma religião: futebol, cloroquina, ciência. Cito então algo que li num texto do Asimov:
This particular thesis was addressed to me a quarter of a century ago by John Campbell, who specialized in irritating me. He also told me that all theories are proven wrong in time. 
My answer to him was, "John, when people thought the Earth was flat, they were wrong. When people thought the Earth was spherical, they were wrong. But if you think that thinking the Earth is spherical is just as wrong as thinking the Earth is flat, then your view is wronger than both of them put together."
[Isaac Asimov, "the relativity of wrong"]

Sim! Aí está parte da chave pra esta questão. Existe assim gradações de erro, algo que Asimov foi muito sábio em apontar nessa frase. Há uma "relatividade do errado". E isso acaba tangenciando oque o médico relata. Isso porque existe uma "chain of trust" (cadeia de confiança) da qual o médico fala, que talvez preceda oque chamo de "chain of truth" (cadeia de verdades): adotamos, acolhemos a ciência em princípio por confiarmos naqueles que nos levam a ela. Posterior a isso, vê-se que existe sim todo um arcabouço de idéias e sustentáculos que seguram esse edifício em pé. Claro, não sem contradições internas, mas com amarras muito mais firmes e auto-consistentes do que uma "fé" religiosa, por exemplo. Sendo assim, não desmereço ou nego que a fé exista de alguma forma, mas ela é somente um "ticket de entrada" pra essa casa onde a ciência reina. É talvez oque o médico ressalta do texto do NEJM quando diz
"I am part of what anthropologist Heidi Larson calls a “chain of trust” in a social system that has treated me fairly and generously — a chain that did not reach Mr. B. I realized that the chain’s links consist of lived experiences and relationships, not data in scientific journals. I believe what my colleagues say because of my proximity to their experience: I work with people like the scientists who conducted the earliest studies, and I know them to be generally honorable and credible. Mr. B. did not believe — ultimately, not because of quibbles with the scientific method, but because the sum of what society, and “expert” professionals like me, had offered him in life seemed more like lies than the truth. "
[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

Achei incrível ver que, no fim das contas, a atitude do médico foi a de ter empatia, de ver ele mesmo aquilo que o paciente estava professando/fazendo. Ele sacou tudo aí, quando viu que este Mr B, marginalizado, vivendo às franjas da sociedade, nunca participou do que era discutido nessa "grande casa" (aristocrática talvez?) na qual a ciência impera. Sendo assim, ele mudou a abordagem: simplesmente convidou Mr B a ela. O ticket de entrada: simplesmente tomar o anti-viral. Foi uma sacada genial ele perceber que não era uma questão de convencimento por argumentos, mas uma outra coisa.... talvez resultados? Não exatamente... 

Aliás, esse "chain of trust" é algo interessante: recentemente o "this american life" fez um episódio sobre um republicano, âncora de televisão, super conservador, se reunindo com pessoas ati-vax pra tentar convencê-las do valor de tomar a vacina (episódio 736: The Elephant in the Zoom). O programa vai por linhas incríveis, até chegar ao convencimento (ou quase) daquelas pessoas.

De alguma forma, depois desses redemoinhos que se sobrepões, pensei em mim mesmo, em algum momento lá em 2010, mais confortável com essa idéia de que a ciência, mesmo a matemática, é sim uma ciência que envolve uma certa fé, ou intuição. Será que o que me movia era a fé? Era a crença de que aquilo que via era a verdade, uma única verdade, ou forma de verdade? 

Não sei.. se era fé, acho que a perdi em algum momento. Mas já era tarde: já fazia parte do "clube", me via parte da engrenagem, membro desse grupo "fechado", que não admite outra religiões... em especial, parte de um grupo que muitas vezes não admite outros que nunca foram convidados a ele, pra essa "festa" regada a lógica e leis universais, onde a ciência impera.

E pra terminar esse grande círculo: tudo bem termos compaixão por pessoas negacionistas, mas não acho "producente" confundirmos esse sentimento com o de "liberdade que essas pessoas têm", ou mesmo confundir as crenças deles com "a mesma fé que temos na ciência". Acho que, a alguém que diga isso, ou equalize as duas "crenças", só posso dizer: "your view is wronger than both of them put together".

Acredito, isso sim, que esse artigo indica que a paciência, a escuta, precede a razão em alguns debates onde existe sim um lado que está correto. 
Instead of arguing about the veracity of science, perhaps I could simply bear witness, as one human to another. 
[Em The Doctor’s Oldest Tool, no New England Journal of Medicine, por Elvin H. Geng]

É isso, pessoal. Crescer para melhor ouvir. Ouvir para mais alto crescer.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Letrada e safada

Há algumas semanas conversava com um amigo indiano que estava pra voltar à India pra casar. Havia enrolado a namorada uns 5 anos, até que ela e as famílias dos dois deram uma pressionada e ele cedeu. Eu, curioso, resolvi perguntar mais sobre o caso.

- Mas pérai...  como as pessoas se conhecem e casam no teu país se você não pode chegar numa pessoa diretamente?

- No meu caso, eu falei pra minha mãe o tipo de esposa que eu queria. 

- E que tipo que era? - perguntei.

- Tinha que ter mais ou menos a minha idade, e ter um mestrado.

- What!!! Mestrado? Pra que que você quer um mestrado?! Tanta coisa boa pra procurar em alguém e você quer um mestrado?!

- Ahhh deixa a vida mais fácil. Seja por conta das conversas que podemos ter, ou caso a gente mude de país... Aí ela pode aprender outra coisa mais facilmente, ou encontrar um emprego com mais facilidade.

Na hora fiquei pensando a respeito e vi que, de alguma maneira, até fazia sentido... Me perguntei então se também tenho exigências do tipo. Ou pior, exigências implícitas, que nem me dou conta! Será? Fiquei pensando na hora e cheguei à conclusão que sim, estudo conta, claro. Mas, no meu caso, acho que a combinação "letrada e safada" seria o melhor dos dois mundos :) 

Fiquei me imaginando num mundo em que eu fosse indiano, falando isso pros meus pais: 
"-Olha, mãe. Olha, pai.... pra inteligência a conversa basta. Agora... ser safada... é mais difícil, né? Safadeza é química, jeito de olhar, de desejar, de se doar".  É... o tipo de coisa que é fácil de saber quando está ali, mas difícil de descrever pra alguém... e meus pais, os conhecendo bem, certamente errariam na escolha: se dependesse da minha mãe, casaria com alguma filha de amiga dela, fofinha, meiga, etc. Por outro lado, se dependesse do meu pai, acabaria com alguma mulher bem barraqueira, sem juízo algum.

É, pessoal.... independentemente do cenário dos horrores acima, ainda fico feliz por poder fazer tal escolha e "errar por mim mesmo", pois se tivésse nascido na Índia teria sido um celibatário sem salvação. Ou, se dependesse dos meus pais, bem mal arrumado no amor. 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Faz zum-zum pra mim

Saudações, leitores amados.

Aqui quem vos escreve é seu abelho-carneirinho preferido. Agora, fazendo zum-zum pra vocês.

Ou melhor, pra mim mesmo.

E olha que antes achava que quem fazia zum-zum era meu refrigerador (declamando um eterno e repetitivo "o meu refrigerador não funciona").  

Mas não. Descobri que o tal zum-zum é tinnitus. Bem que esse som que ali não está - mas insiste em aparecer - poderia ser de aplausos, ou pessoas me ovacionando enquanto ando na rua, mulheres me professando desejos indizíveis em público, ou pessoas dizendo o quanto me gostam ou admiram... mas que nada: sons que só me visitam no silêncio da noite, entrando de baixo das cobertas comigo e me dizendo suavemente ao pé do ouvido.. "zuuuuuuuuuuu".. 

Afff... esse amor monótono que nada de novo me declara. Falasse, antes fosse, que me quer, que me gosta, me deseja, que vai me abandonar assim que eu deixar de ter um sustento... mas só fazer zum-zum pra eu ver, fazer zum-zum pra mim? Não... assi-sim ni-ninguém aguenta. Assi-sim ni-ninguém dorme direito (eu muito menos). 

Me ame: ok, faça como queira.
Mas me deixe.
Ainda mais agora que sei que você está por perto, indesejadamente.