domingo, 31 de janeiro de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #104: uma casa politizada

Muito comum quando acontece algum terremoto aqui no Japão das panelas que ficam penduradas na cozinha começarem a mexer. 

Isso se dá devagarinho, num crescendo, como uma orquestra.

 Aí, quando a coisa piora, elas começam a bater uma na outra loucamente, como uma torcida num estádio. 

Nessa hora meu coração enche de orgulho: "-É uma casa anti-bolsonarista, fazendo seu protesto", penso eu.

Mas logo, como uma japonêsa educada para não discordar abertamente, ela pára, e finge que nada aconteceu.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #103: Amazônipônica

Uma das coisas que mais se abala enquanto buscamos emprego é não outra senão nossa auto-estima: é bordoada de tudo que é lado, não, rejeição. 

É triste.

Você se sente mal, incapaz, impostor, infeliz. E às vezes acontecem umas coisas que te fazem lembrar de quem você é. Noutras, acontecem coisas que nem tem tanto a ver com você, mas que jogam sua auto-estima lá em cima. Como foi o caso hoje: o pessoal da Amazon jp bateu na minha porta, me convidando pra me candidatar a uma vaga de pesquisador na unidade de Tokyo.

Pqp... Tokyo? 

Dei uma desconversada... pensei no quão difícil seria dizer não caso viesse realmente uma oferta de trabalho de lá. "-Vou fazer alguma merda e dar fim a esse processo", pensei comigo mesmo. "Eles vão olhar meu resume e ver que não valho nada", outro pensamento me veio à cabeça.

Nem um, nem outro: o chefe do grupo de AI deles me ligou hoje. Meu nervosismo inicial, combatido com um "só vou conversar, isso não é uma oferta", logo foi jogado a escanteio: a conversa seguiu bem e se alongou por um bom tempo. 

Oque me parece mais complicado é que ele me pareceu honesto ao falar das dificuldades e desafios. Retruquei sendo igualmente honesto: falei que quero voltar à América, o mais perto possível da família, o mais longe possível do Japão. Ele pareceu ter ido com a minha cara, gostado das minhas perguntas: falou que haveriam mais fases adiante, que deveria fazer A e B...etc... me assustei.... me assusta só de pensar que, mesmo dizendo a ele que este é um caminho não contemplado em qualquer rascunho de projeto vago que tenho na minha vida, seria mais um ou dois anos em Tokyo...

Hoje, mais tarde, ele me contactou novamente pra me dizer que eu estou na próxima fase, e que um recruiter da empresa há de entrar em contato. Meu ego parece um pouco alterado - sinto um certo alívio "vai ver você é uma fraude menor do que imagina, ou simplesmente não é uma fraude", penso/sinto... mas mesmo essa sensação mais ou menos boa não arrefece meu desconforto em imaginar mudança tão grande de rota de migração. Um brasileiro, que nunca viu a amazônia, encontrar uma "cópia desta", incrustada no coração de Tokyo, a milhares de quilômetros de sua terra natal. 

Bom... não vou pensar nisso por agora. Que fiquem os louros do "reconhecimento", se é que há algum: ao menos estou sendo notado (embora não saiba bem como ou porque). Uma pena que vieram também as angústias do reconhecimento, em termos atenção que buscávamos mas das "pessoas" erradas. 

Vai ver é assim mesmo: a vida é cheia de tropeços. 

sábado, 16 de janeiro de 2021

Os ultimos rinocerontes brancos sobre a Terra

[Isso é uma nota que escrevi recentemente - em inglês - sobre algo que li]

 [Sudan is the name of the last white rhino on Earth, who died in 2018]

"We expect extinction to unfold offstage, in the mists of prehistory, not right in front of our faces, on a specific calendar day. And yet here it was: March 19, 2018. The men scratched Sudan’s rough skin, said goodbye, made promises, apologized for the sins of humanity. Finally, the veterinarians euthanized him. For a short time, he breathed heavily. And then he died."

Sudan left two descendants: Fatu and Najin (two female rhinos).
"In 2009, when Najin and Fatu first came to Africa, they were scared of everything. They would flinch whenever the wind blew, jump away from every rabbit that hopped out of a bush. They were born and raised in a zoo. Their births — in 1989 and 2000 — were two of the very few bright spots in the otherwise doomed international project to save the northern whites. Although their ancestors were from Africa, these particular creatures were not. They grew up in the Czech Republic, in man-made enclosures, eating pre-cut grasses, surrounded by humans. They had no idea how to be wild rhinos."
I was quite puzzled reading all of this. I wondered "what would it be of earth/humanity if lines/ways of thinking go extinct?" What if science, or scientific thinking goes extinct? Would we have no idea of what it is to be human? Would we carry out wars defending a sun centered universe against those who believe in an earth centered one? Or try to kill corona viruses with lice medication?

[recently there has been more than 400% increase in sales of lice medication in Brazil, after widespread- needless to say, FALSE - rumors that such a medication helped in prevention]
I read a few years ago that "science had stopped being a method to become an opinion, like any other non-scientific perspectives in the room", which is a dreadful thing for anyone trained as a scientist to hear.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Culpado de amor

Quando adolescentes o rock n' roll era uma parte importante das nossas vidas. Ou diria, de quem éramos: quem gosta da banda X é assim, da banda Z é daquele jeito etc. E, comumente, tirávamos sarro dos gostos dos outros: algo que uns levavam numa boa, e outros combatiam com ira belicosa. 

Claro, muitas das bandas que gostávamos cantavam em inglês. Pra sacanearmos alguém que gostava de uma banda não era incomum cantarmos algo do repertório da banda em português, enfatizando o quão iletrados eram os autores da canção. Desses embates saíram versões como "medo de escuro" (uma versão de "fear of the dark", da banda Iron Maiden), "poção do amor" (uam tradução bem forçada de "poison heart", dos Ramones) e.... "culpado de amor" como uma versão de "guilty of love" do Whitesnake.

[Whitesnake, "culpado de amor"]

Me lembrei dessa estória esta semana em meio de risos, mas parei ao tentar encaixar duas palavras tão dispares numa mesma frase: "amor" e "culpa". Como num jogo de tetris, tentava encaixá-las na minha vida, em algum evento.  Não tive êxito até  me lembrar das vezes em que, nos primeiros dates com alguém, a palavra "namoro", "compromisso", surgia. Quando alguma mãe ou pai se referia a mim como "-o teu namorado" ao invés de "Rafaello". Em momentos assim não há escapatória: você assume o papel que te dão, sentado calado no banco dos réus. 

"-Ahhh, mas foi só uma ou duas noites calientes com tua filha, isso não configura um relacionamento", eu poderia dizer num picosegundo, tão rápido quanto um "terms and conditions apply" dito de maneira suave por algum locutor de voz aveludada num daquels comerciais  de produtos milagrosos que fazem tudo e custam quase nada. 

"I'm a boyfriend in this event... Not valid in other events or states... terms and conditions apply".

Vai ver "culpado de amor" é algo assim... mas então não seria melhor "acusado de amor"? Sei lá... melhor esquecer desses dias em que sentei nos bancos dos réus 😝


domingo, 3 de janeiro de 2021

Direto da Terra do Sol Nascente #102: papai-e-mamãe, versão asiática

Não me lembro exatamente em que momento da campanha eleitoral americana que li uma nota de jornal na qual um reporter espantado dizia que Mike Pence (atual vice presidente americano) chama sua esposa de "mother". Fiquei me perguntando o quão estranho é isso, me lembrando de cenas de pornochancadas brasileiras nas quais o homem (ou a mulher) se refere ao seu papel como "papai". Me veio à mente também o tão mencionado "papai e mamãe", que a adolescência tentava desacobertar sem qualquer indício de complexo de Édipo algum nas entrelinhas. 

"-Esse pessoal não tem criatividade alguma", pensei comigo mesmo. "Inventa outro nome, chama de safada, de gatinha, de fofa... mas não de mãe, ou mamãe, ou papai."

Minha indignação não parou por aí, e veio à tona novamente dias depois, quando reparei que casais japonêses também se referem ao homem e à mulher (casal) como "otôosan" (pai) e "okaasan", mãe. Perguntei então pra uma amiga se os pais dela se chamavam dessa forma, ao que ela disse que sim. Sondei um pouco mais: 

"-...mas e tuas amigas, da tua idade? Elas se referem aos esposos assim, como 'otôosan'?", ao que minha amiga disse mais uma vez que sim. Saí dali chocado, tentando "detectar" na minha própria comunicação algum resquício anômalo... mas não encontrei nada. 

Me dediquei um pouco mais a procurar duplo significados em coisas que digo e falo/falei em relações, mas não encontrei nada significativo. Lembrei-me de uma ex da época da escola que me chamava de "bebê", que já na época achama bem estranho.... (por sinal, versando sobre o tema, recomendo o post intimidade mensurada, de maio de 2020). 

Nesse mar de lembranças, duplos sentidos e diversas interpretações, aconteceu de me deparar com uma cena linda de um filme igualmente belo do Wong Kar-Wai que tive o prazer de assistir novamente nesse final de ano: na cena, uma mulher e um homem jantam juntos, tendo descoberto recenemte que seus respectivos conjuges estão tendo um caso. Muito do filme é velado, extremamente discreto, e eles por vingança começam a ter um caso (ao menos se insinua isso). Eu só fui perceber que essa cena insinua sexo recentemente, quando vi que muito do filme versa sobre a idéia de ser/estar íntimo com alguém: o homem não sabe como agradar uma mulher, pois não sabe como o marido a agrada. A mulher não sabe como se portar pois não sabe oque a esposa dele gosta. Como cruzar barreiras, como transpor limites da intimidade que só o tempo parece construir? Apimenta-se a relação, simbolicamente, com uma pitada de tempêro no canto do prato... "-your wife likes hot dishes".... me pergunto como isso soa em cantonês/mandarim.


 


[In the mood for love, de Wong Kar-Wai; cena do  jantar]


[Este post foi escrito seguindo normas estritas de segurança, com senso e respeito]

[sem que seu autor chamasse ninguém de "tchuchuca do papai", se auto-intitulasse "tigrão", ou ouvisse qualquer frase que soe como  "zungundum da mamãe", ou similar.]


Mapeamentos 1 pra 1: a língua que não se aprende na escola

É curioso aprender uma primeira língua: a gente se perde em aprender a tradução de cada palavra,  e pena a entender que quando concatenadas as palavras mudam de tradução, ou ganham aproximações diferentes na nossa língua mátrea... o tipo de não-linearidades que nossa ignorância desconhece e tenta, em vão linearizar.

Sempre achei que fosse uma criança com muitas dificuldades de comunicação, mas o tempo me faz ver que eu era uma criança com tantas dificuldades quanto as outras. Talvez seja essa "onda revisionista" que tem me visitado (crise de meia idade!?) em que sinto mais e mais compaição pela criança que fui. Há alguns anos, quando ainda morava no Brasil, à caminho do Rio de ônibus, ouvi uma criança cantando Michael Jackson super empolgada... só que não era inglês oque ela falava: ela cantava o som das palavras como os ouvia, uma língua extraterrena que não precisava de sentido pois era apenas música. Fui imediatamente teleportado pras minhas tardes ouvindo o mesmo M.J., empolgado com as coreografias, tentando replicá-las. 

Havia tentado algumas vezes entender e traduzir as letras, mas o significado delas, se houvesse algum, não importava.

Curioso que esse mar de incompreensão existiu por um bom tempo ao meu redor: seguia boiando com um velho dicionário Aurélio que havia sido do meu primo, me agarrando no que podia, me perguntando se deveria ignorar aqueles termos em negrito subst. ou verb. eram parte do conteúdo que buscava, ou não. Em todo caso, a melhor saída sempre era gritar da sala pra que minha mãe me acudisse: 
"-mãe, oque significa esdrúxulo??!!!"

Dúvidas que nem sempre eram contempladas com a devida paciência pela minha mãe, que respondia (quando respondia) na maioria das vezes me explicando algo que não entendia, ou referindo pro velho Aurélio caindo aos pedaços, que atravessava mais uma geração dentro da família.

Essa dificuldade dos adultos em saber se comunicar com crianças, ou melhor, comigo, ficou sempre na minha cabeça; algo que sempre me preocupei enquanto lecionava: será que estou conseguindo passar algum conteúdo pr'aqueles que não entendem do assunto?, me perguntava. 

Talvez esse "traumawareness" venha de um engraçado acontecimento da minha infância: um belo dia minha tia chegou em casa com um papelzinho escrito à mão, bem pequeno, com uns números mal escritos, dizendo que uma amiga havia lhe passado o número do programa de TV do Sérgio Malandro, que era naqueles dias o rei da televisão infantil. Na hora me imaginei ligando pra casa do apresentador, indo pro programa dele, meio ansioso em ter que encarar aquelas gincanas até então triviais quando vistas do chão da sala, mas que imediatamente haviam ganhado uma complexidade inesperada diante daquele papelzinho na minha mão. Em todo caso, munido de coragem, ambição por todos aqueles prêmios e fama a escola toda, liguei pro número. Ou melhor, disquei o número (pois eram aqueles telefones de discar ainda): uma mulher atendeu, me dizendo que eu deveria ligar pra um outro número, que pediu para eu anotar. Com calma, ela me dizia os dígitos um a um: 
"-dois..... quatro... meia..."
Nessa hora eu larguei o telefone e fui correndo pra sala, gritando em desespero pra minha tia e mãe "-oque que você faz quando aparece meia no telefone de alguém?", algo que me parecia inconcebível naqueles poucos anos de vida. Não tem cabimento, uma meia? Sério?

"-Meia é seis!!", disse alguma delas impaciente. 

Mas aí já era tarde: voltei pro quarto correndo pra encontrar o telefone mudo, já que mais um adulto impaciente não esperou que eu compreendesse o significados daqueles hieroglífos linguísticos. Tentei mais algumas vezes ligar pro mesmo  número e, sem sucesso, me resignei com a situação: ao menos poderia esbanjar conhecimento na escola no dia seguinte perguntando se alguém sabia se "meia" também era "seis" pra algumas pessoas.

Mas porque exatamente comecei esse texto? Não me lembro.... talvez tenha sido algum percalço de comunicação recente pelo qual passei, ou apenas meu interesse diante dessas intransponíveis pontes que a tradução tenta construir entre diversos universos linguísticos distintos, ou universos de compreensão distintos...

 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Direto da Terra do Sol Nascente #101: jogado como uma rosa, no colo de uma morena

 

Caetano Veloso, Coqueiro de Itapuã


O ano termina cansado, com bateria a ser recarregada. Hoje ouvi essa música e me bateu uma saudades de algo que nunca ou quase nunca me dá saudades: praia, areia. Deu quase pra sentir o vento sibilando nas folhas dos coqueiros, os vendedores de biscoito globo aterrisando em qualquer praia do mundo, a água quente do nordeste brasileiro, a água transparente do mar do Chipre, os albatrozes pescando no mar na Carolina do Norte, a beleza dos calanques franceses, a surpresa em se estar num paraíso tão longe e tão perto de um grande centro como São Paulo, a água de côco refrescando uma sede universal que todo e qualquer homem sente, o sossego de se permitir descansar em férias, prostrado diante do cansaço que todo homem sente (ou deveria se permitir sentir).

... férias... break... pause... tudo oque preciso agora.  Vontade de sentir pelo corpo aquela sensação gostosa de entrar na casa da minha mãe e, mesmo sem estar ali por meses - às vezes mais de ano, me sentir em casa, certo de que aquele chão no qual me esparramo em descanso é meu também. Ser acolhido, receber beijo, me perder em abraços, me sentir como uma rosa jogada no colo de uma morena em itapuã.


2021, me aguarde que vou cobrar tudo isso de você.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Direto da Terra do Sol Nascente #100: com açúcar, com afeto... e pode ser com a mão bem leve?

É... eu bem achava que o post #100 da sessão vida nipônica fosse ser nobre como um samurai, leve como uma gueisha, embebido em zen budismo. Nobre, nobre até a último ponto final. 

Mas não... a vida é cheia de supresas. E tá bom,  você há de ler esse post e pensar "isso não é mais um blog, é um muro de lamentações!" 

Calma, leitor afoito... calma... isso ainda é um blog... só que a vida anda com tantos percalços que tá difícil não relatá-los aqui. Falar sobre oque: sobre o tempo? Pois veja: tempo também está uma merda. Hoje, por exemplo, voltando pra casa, levei um belo capote de bicicleta, e saí com os glúteos contundidos. 

Isso... caí de bunda mesmo. Por sorte não vinha carro na sequência, pois se tivesse... [melhor nem pensar]

Foi uma noite difícil. Depois do acidente voltei pra casa pianinho, andando devagar como um monge pra ver mais outros dois acidentes. "Devagar, pequeno gafanhoto", pensava eu, tendo acabado de beber do cálice da sabedoria que é a dor. 

No caminho do ciclista, há black ice em cada esquina pra alguém se estabefar. Quem que escreveu isso mesmo... Chico? Só sei que caiu como uma luva...bom, caiu pior que isso, como um piano em queda livre jogado do Empire States. Pra aliviar teria que parar nas casas de massagem ali da zona noturna da cidade... quem sabe aquelas senhoritas de mãos destras não aliviariam minha dor? "É na bunda, moça... mas pega leve, viu... tá doendo ainda". E olha que até sei falar bunda em japonês... mas pega leve vai com jeitinho... aí me complica... abri mão do "sonho" de massagem nas nádegas e voltei pra casa mesmo, pedalando como uma tartaruga (um caminho que leva em geral 20 min me levou 1 hora.. pra você ver o quão imediantemente sábio este que vos escreve se tornou. 

A dor engrandece o homem. E haja emplastro pra ajudar nessa tarefa!

Vou lá, queridos leitores, pro meu mest (messy + nest), dormir quentinho, de bundinha pra cima :P 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Quadradinhos inertes em uma vida circular

Há pouco voltava pra casa mergulhado em pensamentos bobocas, refletindo nessa coincidências da vida, as que acontecem, e mesmo nas que não existem mas que insistimos em ver (e apurrinhar os outros falando sobre): em alguns dias me torno um indivíduo de 36 anos.

36 aninhos == 6 ao quadrado.

Lembro-me dos meus 25, pensando comigo mesmo que tinha um quarto de século, enquanto caminhava pelas ruas de Botafogo a caminho de um futuro incerto que parecia se acertar aos poucos, se alinhar nas curvas e meandros das oportunidades que apareciam adiante.

Aos 16, no colégio, temendo o vestibular, o futuro, ganhando confiança aos poucos de que não havia como as coisas piorarem, me equilibrando entre breves vislumbres de um futuro em que faria algo que gostaria e a realidade árida que me cercava: em qualquer corrida nós haviamos largado todos atrasados.

Aos 9, 4, 1... esses aniversários mal me lembro, mas certeza que não foram dos melhores... fico só pensando em como é agora, essas coincidências bestas. Tenho a certeza de que aos 25, 16, etc achava que aos 36 eu estaria como um quadrado, estático no mundo, firme como uma árvore com raízes afundadas no chão, inerte e pouco mutável, vivendo e crescendo no mesmo lugar, talvez do lado de um retângulo, cercado de quadradinhos. Aconteceu da vida pedir de mim viver mais como um círculo que se move a qualquer vento que bate, que em vista de qualquer ladeira não sabe fazer outra coisa senão se guiar pela gravidade. 

Um ouroboros, de um tratado de alquimia do século XV

Um círculo, como um ouroboros que eternamente se consome, perpetuando um ciclo interminável de (re)nascimento e morte.Um círculo, que almeja ser um quadrado. 

Será que se eu fosse um quadrado um dia estarei por aqui, a reclamar da quadradice dos meus dias, a sonhar em ser um círculo de novo? 


Curioso pensar nessas analogias. Há dias li na minha agenda, 

"só vive em possibilidades aquele que sabe que o futuro não é algo certo".

Na hora não lembrava de ter escrito aquilo. Chequei a letra com cuidado pra ver se a caligrafia era minha mesmo (sem sombra de dúvidas, a "quase indecifrabilidade" do texto não me deixou dúvidas). Ainda assim olhei pros lados, debaixo da mesa, pra saber se não havia algum doende rindo de como consigo ficar confuso comigo mesmo, diantes de súbitos momentos de lucidez, como ilhas de serenidade num mar de vagas incertezas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Direto da Terra do Sol Nascente #99: very small, nano, talks

Vai... pensa em conversa fiada....
Que frio hoje. 
Que dia bonito.
Tempo bom essa manhãm não?
E o mengão este fim de semana?
Será que chove hoje?

Agora pensa nisso sendo uma parte considerável (95%) da tua comunicação diária?

Isso é oque viver no Japão tem sido isso pra mim: conversas ralas, destituídas de significado. Talvez seja a parte de ser estrangeiro nessa terra que mais me faz me sentir isolado: em interesses, em idéias. 

Os motivos são vários, e a barreira da língua certamente é um deles. Mesmo quando não existe uma barreira de comunicação, a conversa é por aí mesmo: "quantos cafés você toma por dia?", "que manhã bonita", "otsukare-sama" (que não tem tradução, mas é como um "você está fazendo um bom trabalho"... algo assim). 

Posso soar injusto, mas  de acordo com muita gente que mora aqui, e que fala a lingua fluentemente, o japonês não fala sobre política, sobre assunto difícil, sobre o mundo, sobre nada muito delicado. Da única vez que ousei enviar um email falando sobre desigualdade de gênero no Japão eu fui simplesmente ignorado: meu email caiu num buraco negro e nunca nem foi comentado. Numa outra ocasião, diante de um email entusiasmado anunciando a visita de um representante de uma empresa que vendia máquinas de café em cápsula, fui o primeiro a enviar um email pra todos dizendo que tais máquina geravam um lixo absurdo e que estavam sendo proibidas em diversos países europeus (nota: falei e enviei um link pra uma matérias de jornal). 

Resultado: no dia seguinte compraram TRÊS MÁQUINAS DE CAFÉ! Ninguém nem se quer deu ao trabalho de conversar quando puxei assunto sobre (antes da compra).

Mesmo se comparado à distância que sinto do resto do mundo, estar cercado por pessoas que tem um grau de preocupação com seu arredor tão baixo, tamanhenorme-desmesuradapatia (mesmo com relação aos rumos do próprio país deles!)... é o que mais me entristece. Vivo de tentar transpor uma barreira intransponível que linguagem nenhuma ou anos de estudo da lingua não me dariam, pois é a natureza da sociedade deles: um trabalho hercúleo que não faria sentido. "Rafaello, o homem que tentou transponir o intransponível": essa frase, gramaticalmente errada, é lindamente poética é a pedra fundamental do que sinto por dentro desde que pisei neste país, e que pouca gente que não mora aqui - se é que alguém - conseguiu entender quando falo do que é estar nessas terras.

Às vezes penso se é amargura minha... se toda forma de comunicação, seja lá qual for, terá um certo resíduo de small talk necessário. Bandeira branca! Ok! Tolero! Aceito! Mas acho absurdo ter que viver somente - (só!) - disso. Me dêem palavras, idéias, erros, o contraste, o contrário,  algo que me indique como vêem o mundo!

Odeiem-me, ou discordem de mim! Só não me ignorem dizendo que o dia está lindo e o tempo está bom!!

[Hoje tô chutando pedras... melhor ir dormir.]