terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Terra Brasilis 2012/2013 - Rio de Janeiro ( "let it grow")




Como eu havia começado a dizer num dos posts anteriores... oque acreditava ser uma "red tree" era na verdade uma espécie de dandelion ( dente-de-leão). O desenhei ouvindo uma música linda do renaissance chamada "let it grow"



meio contrariado, por que até então parecia que as coisas estavam mais num clima "let it die" do que pra um "let it grow" : felizmente as coisas mudaram totalmente  de figura depois disso e o restante da estadia no Rio foi lindo =) 
Lutei bravamente pra dar uma idéia de movimento pr´os little dandelions (são como pétalas ou sementes, ou é algo meio fractal mesmo? ),  pensando então nos cabelos de uma mulher que corria contra o vento ou até num fluido se mexendo; neste caso - o ar se movendo ao redor da flor - procurei (possivelmente em vão hahaha) algo como oque os matemáticos/físicos/engenheiros chamam "von Karman vortex street". No entanto, a folha onde desenhei era muito pequena quando comparada às minhas muitas intenções: o desenho acabou por não mostrar nenhum desses aspectos... que, uma pena, ainda estão aqui, presos na minha mente e esperando por um outro desenho.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Terra Brasilis 2012/2013 - São Paulo (parte II)







Esse desenho é meio diferente dos demais (exceto pelo da "árvore vermelha"), pois não foi feito num estilo "contemplativo"; o fiz depois de interagir com  bêbados cantando num bar em uma noite meio-com-chuva-meio-sem-chuva numa esquina suja e um pouco escura dessa cidade de São Paulo. No começo eu estava bem reticente em estar ali, mas depois apertei o foda-se e comecei a cantar as músicas também ( as que eu sabia..que eram poucas), além de levar um "preta pretinha" no violão acompanhado daquele coro que, surpreendentemente, era bem afinado.

Não me represento no desenho, embora o devesse ter feito: me sentia uma ovelha no meio de lobos... talvez não seja bem essa a idéia, por que essa metáfora denotaria um quê de "pureza" no meio de algo impuro; não era o caso....acho que era mais um desconforto por estar ali e que, de uma certa maneira, deu uma amainada por conta da minha boa vontade.... não sem deixar de existir ( oque, acredito, seria impossível)... o contraste nos ensina muito... sair da zona de conforto pra sabermos quem somos, pra nos reafirmarmos, nos conhecermos melhor.  Esse foi um pequeno caso, mas foi interessante: cheguei em casa e, rindo sozinho, desenhei esses cachorros/lobos uivando/cantando no que poderia ser uma chuva , apesar dos poucos traços/gotas.



Terra Brasilis 2012/2013 - São Paulo (parte I)

Cada um desses desenhos tem uma história. Eu os fiz durante essas férias de dezembro 2012 - janeiro 2013  no Brasil. Esses, particularmente, em São Paulo, "my hometown".


Fiz isso enquanto esperava minha irmã no CCBB de São Paulo. O desenho foi em grande parte inspirado num livrinho do Shaun Tan chamado " The red tree". Mais adiante eu falo mais sobre isso



Sentei com a minha mãe no vale do Anhangabaú depois de um passeio pelo centro da cidade. Depois da viagem à Europa eu percebi que desenhar é muito desgastante pra quem está por perto, esperando. A paciência da minha mãe diante do meu silêncio foi algo realmente admirável... acho que só a felicidade em estarmos próximos já valia: nem precisávamos de muitas palavras ( embora eu tenha ficado incomodado por deixá-la à minha espera)

[Registro do comentário de amigos que viram o desenho: "-Ótimo desenho, rapaz! Você soube explorar muito bem São Paulo, por meio do pinguim na parte inferior central da
imagem... rsrsrs. Abraço! ]







Era pra ter sido um outro desenho, feito do alto do viaduto do chá, mas a chuva me pegou (nos pegou, na verdade - minha mãe mais uma vez estava ao meu lado) no começo de tudo. Ao me proteger da chuva acabei ficando perto do teatro municipal de São Paulo que é um prédio com uma arquitetura linda (se não me engano, foi fortemente inspirado num teatro na Europa). De onde estávamos eu conseguia ver esses anjos pegando chuva.

[A mão esquerda do anjo da esquerda - espero que isso não soe feio rsrs - foi realmente complicada: ele demonstra uma espécie de aversão/horro/negação a algo com a mão espalmada. Por sorte os traços sairam do jeito que eu queria]

[ Além disso, o mesmo anjo segura algo que de longe não dá pra ver direito: não sabia se era um adaga, uma faca, uma espada. Acho que vocês deveriam ir lá pra ver...]

[The part that was really beyond any drawing technique, perhaps the most beautiful one, was the rain falling gently and slowly in the square right in front of the theatre, while the angels were there, completely ignoring our worries, our umbrellas... ]

























Uma árvore liiiinda - uma figueira centenária - que fica atrás da Pinacoteca do Estado, na região da Estação da Luz. O parque é lindo, apesar da intensa deterioração que os arredores passaram por décadas ( no entanto, me parece que as coisas estão progredindo um pouco... talvez não muito no aspecto social, infelizmente). A árvore é tão imponente e bonita que sentar debaixo dos seus galhos traz uma paz muito grande. Ao que me lembre, dizem que foi debaixo de uma dessas que Buddha encontrou a iluminação - com um monte de meditação, claro =)

Logo depois disso começou uma puta chuva e eu resolvi entrar na Pinacoteca.


[Registro do comentário de amigos que viram o desenho:" -  tem um cachorro pulando da arvore na cabeça do cara sentado "]



Tentei registrar um pedaço de um chafariz que a Niki - uma artista francesa - fez pra pinacoteca. Como havia muita gente por perto e o objetivo do desenho não era retratar a fonte/chafariz, acabei por o deixar incompleto. 
Neste ponto a chuva havia dado um arrefecida: já dava pra voltar pra casa.







quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Quelônio-errôneo-errante ( cartoonizado)

[Um amigo me relembrou dessa estória durante uma viagem de carro em Mallorca]
[Havia pensado inicialmente em fazer uma camiseta sobre essa história,]
[mas como estou dando uma desanimada de desenhar camisetas, acabei só desenhando no meu caderninho mesmo]
[Os desenhos foram feito durante o atraso do meu vôo Eua- Brasil.]
[Eu reli o post do quelônio errante, do qual nem me lembrava, e fiquei rindo sozinho]
[Os risos me motivaram a desenhar/ilustrar a estória, como vcs verão abaixo]
[Eu vou colocar aqui oque escrevi na época pra acompanhar os desenhos]



É fato, velho e sabido pelos habitantes do mundo afora, que algo não cheira bem no reino da polinésia francesa.

Por este e tantos motivos, seus habitantes, como muitos outros animais, de lá têm saído para procurar novos lares (para não dizer novos ares, o que nos levaria ao mesmo ponto de antes - na linha de baixo apenas). Diante de tais proposições, à princípio descabidas, admito, mas que fazem sentido, devo me explicar para que o leitor, no aconhchego do seu lar quentinho nos trópicos,  posso me entender. Tudo começou na última manhã de domingo, quando eu, o sr R, fui ao mercado comprar frutas e verduras.


Interlúdio: Essa é uma história verídica
Interlúdio #2 : tirei essa introdução dos programas policiais norte-americanos..eles adoram isso =)


Manh
ã de  domingo - 12 de setembro de 2010 - Itapopoca - Indiana - U.S.
Saí para fazer a acima mencionada compra do lar. Não sei se posso chamá-la "do lar", pq a compra só diz repeito à mim. Eu, por mim mesmo, não constituo um lar... e o indiano que mora aqui em casa não é bem o que eu chamo...tá...voltando... eu estava indo de bicicleta pro mercado que considero o melhor de todos para os produtos vegetais que crescem nas prateleiras. Lá fui eu, com a minha bicicleta vermelho-preta com uma "caixa de cerveja" na garupa (não se trata bem de uma caixa de cerveja, mas é parecido..qdo tiver uma foto eu posto aqui). Desci a rua na manhã fria de Itapopoca de maneira veloz, de maneira que o vento gelado, de tão gelado, quase arrancou-me o nariz. De fato, o arrancou, mas eu tinha outro no bolso e coloquei no lugar.

Segui viagem. A sabedoria dos amigos que andam pelo mundo me fez virar à esquerda no fim da descida, e assim eu encontrei o/um atalho. Isso iria fazer toda a diferença...pois isso me levou a encontrar o que adiante eu vou descrever.

Peguei o atalho de maneira sensata, sem grandes arroubos sobre a minha bicicleta. Não poderia bater de frente com o vento, pois não haviam mais narizes no meu bolso caso eu perdesse o que eu tinha no vento gelado. Fui, cauteloso e sensato...até chegar na 10th street. Lá, como de costume, pedalei, como nunca pedalei antes..mentira, como pedalo sempre: até encontrar o farol fechado.




Parei na grande esquina da 10th com aquela outra rua gigante que nunca lembro o nome. Mas é enorme, e já parece uma estrada, pois nos arredores não tem quase nada (além de uma loja estranha que nunca vi aberta e a linha do trem.








Olho para o alto e vejo o sol, que me importuna. Sol que importuna os que andam pelo mundo..queria eu estar do lado de dentro do carro que ao meu lado estava. Sob o sol somos diferentes, mas sob o farol, os mesmos: os dos parados, esperando o farol abrir. Eu, no frio que virou calor repentino de Itapopoca; e o dono do carro no ar condicionado da Hiunday, esta de algum lugar do mundo (da China, provavelmente).







Olho para a continuação da estrada que terei que percorrer. Subida grande.

"PQP...merda de subida..."



[Inventaram a bicicleta com marcha, ma nada que substitua minhas pernas para que elas não tenham que fazer este trabalho todo]

Olho mais atentamente.. o sol me ofusca a vista. Apesar disso, vejo algo se movendo no asfalto, logo depois da rodovia que cruza com a avenida que espero para atravessar (maldito farol).

[Deve ser um esquilo (um que não foi morto pelos moradores de Itapopoca que têm licença para caçá-los)]

Farol verde.

Sigo adiante, enquanto o dono do carro ao lado vira à esquerda ou direita.. de forma que não segue na mesma estrada que eu, que pedalo então sozinho e resignado, em direção ao desconhecido....que de perto, já não é tão desconhecido..





"CARALEO!!! UM QUELÔNEO!!!!!"



Disse isso bem alto...mentira..não disse isso porque não tenho certeza do que é um quelônio...Mas o som teria sido agradável, por que soa bem..
CARALEO < QUELONEO < QUADRADO < PERITÔNEO < NEURÔNIO

Disse, isso sim:

"CARALEO!!! UMA TARTARUGA!!!!!"

Não sabia o que fazer diante do meu espanto... ela estava atravessando a rua, com o pescoção esticado. E parecia que estava se esforçando para atravessar a pista rápido. Não sei como ela havia conseguido chegar quase ao meio da pista sem ter sido atropelada, por que a outra faixa estava completamente movimentada: não parava de passar carros.









Joguei a bicicleta no acostamento, e parei pra ver se algum carro vinha ao encontro da pobre tartaruga ( e de mim, que tentava fazer algo por ela).

[Nenhum..não na minha, ops, faixa dela]










Corri em direção a ela e pensei:

[puts..será que morde?]


"Bom, foda-se!"










E peguei o bicho pelo casco. Foi engraçado, por que ela se escondeu na hora.. fez até um barulhinho

[puffffff][.....]




como se fosse uma almofada que alguém senta em cima... fiquei rindo sozinho. Ela ia ficar ali, no meio da pista, dentro da casa dela? Eu hein...se eu já acho viver em Itapopoca complicado, que o diga morar numa casa, no meio de uma faixa numa estrada, com um monte de carros passando. Levei ela até um gramado enorme que havia no mesmo lado que eu havia deixado a bicicleta. Ela, ainda escondida dentro de casa (provavelmente estudando meus movimentos pelo olho mágico que deve haver no casco); eu, rindo de todos estes artifícios dela para fingir que todos sairam pra jantar, volte outro dia.









E então segui, deixando a tartaruga para trás. Mas a dúvida veio ao meu encalço (acho que ela pulou dentro da minha cesta de cerveja): porque eu não a ajudei a atravessar a pista? Será que eu fiz certo em tê-la colocado do mesmo lado que ela havia começado?





Uma merda isso de ter consciência.. e isso que eu tenho pouca perante os meus atos e comportamentos. Fui pro mercado pensando no quanto o bicho deveria me odiar pelo que eu fiz.






E se ela tinha marcado com um tartarugo do outro lado da pista e, no meio da viagem, eu cheguei pra atrapalhar? Caramba, o tartarugo pode ter ficado puto com a demora dela (já que ela teria que atravessar metade da pista de novo) e foi embora. Vai que ela estava tentando um suicídio e eu, no alto do meu altruísmo, estraguei o seu intento.








Estas e tantas outras perguntas coerentes passaram pela minha cabeça enquanto estava no caminho do mercado, no mercado, e na volta do mercado... ao menos até o cruzamento, já que voltei pelo mesmo caminho que fiz.








Nenhum sinal da tartaruga.
Nenhum rastro na pista.
Nem de pneus,
Nem de casco,
Nem de casa/casco.






Então parei no cruzamento, olhei pra minha cestinha de cerveja na garupa e falei:

"Consciência, vc está muito pesada. Desce agora, nesta mesma esquina que te encontrei"











Se ela desceu da cestinha ou permaneceu escondida, eu não sei dizer a vocês.
Mas não podia deixar de lhes contar essa história.















ps: na polinésia francesa, presumo, deve haver muita tartaruga. E no geral, as tartarugas devem sair de lá por que os franceses comem elas ( e os caramujos tbm).





ps2: a polinésia francesa deve ser francesa mesmo, por que se fosse minha eu ia colocar "polinésia do Rafa, aquele menino legal do carnaval"
ps3: qual o nome da sua polinésia? Ela tem programa pro próximo sábado à noite já? =P




[ps4: há um adendo ao post do quelônio errante aqui, ó]

sábado, 15 de dezembro de 2012

O relógio parou ( ou "migração em prosa")

A tarde que não passa traz no céu um monte de pássaros que já migram pro sul tbm. Me acordam e me fazem lembrar do que é fugir do frio, do que é ir atrás do calor, do que é voltar, do que é casa, do que é estar longe, do que é vir pra perto, do que é criar asas pra voar pelo mundo... voltar para os meus, comer pão de queijo, pão de mel, assistir filme dublado... Recentemente, acabei por filmar alguns, ao ser acordado logo pela manhã pela barulheira que eles faziam nas árvores à frente da minha janela



Assistia muito isso quando era criança e sempre achava curioso os desenhos falarem desses pássaros. Acho que ainda não me dava conta do tamanho do mundo (que, muitas vezes, também pode parecer pequeno).






Consulto o relógio mesmo... parece que o tempo não passa ( isso me lembra dessa musica dos mutantes)



É estranho mesmo: os dias parecem se estender infinitamente, minhansiedadilatando um tanto, fermenta minhalma, e fervura, fervuro. Teletrasportar-me assim iria, antes gostaria, de ir pra lá, terra brasilis... ao mesmo tempo que é uma coisa tão esperada é tbm como um ...sei lá... melhor eu parar com isso e ir arrumar minha mala




sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

"Concretismo"

Nessa mesma semana dois grandes artistas brasileiros faleceram: Décio Pignatari e Oscar Niemeyer: o primeiro era um dos pais do movimento concretista, enquanto o último tinha no concreto sua matéria-prima favorita.


Quando li sobre o falecimento do Décio me lembrei de uma música do grande Gilberto Mendes, em que ele musicou um de seus poemas ( abaixo)



Nem sei muito oque dizer sobre esses dois, que tanto brincaram com a forma. Dois grandes pensadores que farão muita falta para o país. Posso até discordar da falta de verde do Niemeyer na maioria das vezes; mas não há como negar que o apelo estético de suas obras e a maneira como lidou com as curvas é algo que poucos arquitetos/artistas (arquitetistas?) fizeram com tanta destreza. 





[Por falar em arquitetura, este vídeo, aparentemente, foi gravado na belíssima Sala São Paulo]




terça-feira, 27 de novembro de 2012

Atama yama (ou "como lidar com os cabelos brancos")



[Atama Yama, by Koji Yamamura]

 Desde que cheguei aqui nessa terra distante eles  começaram a aparecer discretamente: no começo era unzinho ali, mais ao lado, depois um conjunto deles, um bando, como se quisessem se fazer notados. Éééé.... meus poucos cabelos brancos chegaram e ficam aqui, engraçados, perdidos no meio de um monte de fios pretos.
Curioso é a capacidade que eles tem de se fazer notar, por que são meio desengonçados, crescem meio de qualquer jeito... destrambelhados, sem rumo, sem cor, sem nada

Abri mão de tentar tirá-los há um tempo.... pra que?

[Essa coisa de me olhar na frente do espelho e encontrar um fiozinho branco sempre me fez lembrar desse filme do Atama Yama]
[A narrativa dele é muito "peculiar", digamos]
[Acho que não há nada parecido aqui dentre os desenhos que já postei]
[Acho que vocês vão curtir]




quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sobre criatividade ( talvez sobre a falta de), trabalho puxado etc


Ira Glass on Storytelling from David Shiyang Liu on Vimeo.

[Acho que se trata de uma gravação de um programa de rádio]
[Ao que parece este Ira Glass tem um]
[acho esse texto/discurso muito interessante ...]
[...e motivante]

sábado, 10 de novembro de 2012

1984 + estudo em vermelho para um monstro que vive no espelho

Ontem cheguei em casa e...nada de mais: os livros ainda jogados em cima da minha mesa, as roupas desdobradas que a correria da semana me "proíbe" de deixar arrumadas amontoadas em cima da cama. Até que eu percebi algo diferente: minha cortina não estava no lugar, e sim em cima da minha mesa. "-Alguém esteve aqui."  Olhei pra janela que, há mais ou menos uma semana, constatara ser feita de plástico e não de vidro, e vi que havia sido trocada. A mesa, percebi então, não estava na sua posição correta, mas sim um pouco fora do lugar. Oque mais havia sido mudado?

Na hora me lembrei de um trecho do 1984. Melhor começar explicando o contexto: um cara vive numa sociedade mais que totalitária, onde cada casa possui algo que, em português, foi traduzido como teletela- um aparelho que registra oque você faz em casa, como uma câmera. Teoricamente há pessoas analizando/assistindo/observandounvindo os dados que são coletados. Esse cara ( que não me lembro o nome agora), tem uma fagulha de pensamento libertário e começa a registrar num diário oque pensa. Como ele deixa o diário em casa e tem medo que alguém entre e leia oque ele escreve, ele sai de casa e deixa o diário numa gaveta, não sem antes deixar um grãozinho de areia em cima da capa do livro. Quando ele volta, verifica sempre se o grãozinho está lá.

Bom, como vc deve ter imaginado, isso não impede que o diário seja lido por agentes do Estado sem que ele perceba =/  É, pessoal... assim que me senti ontem.

Lembrei-me também que preciso terminar os desenhos pros monstros que vão habitar o espelho do banheiro; algo que, inicialmente, tinha um significado, ganhou outro - ou melhor, mais um: meus monstros seriam como carrancas a me proteger desses maus espíritos que tentam entrar aqui na casa branca. Ainda não fiz muitos esboços; alguns deles estão abaixo.

[A bem da verdade, eu queria era adicionar um vídeo do Koji Yamamura chamado " A child's metaphysics", que é muito bom]
[Infelizmente não o encontrei um que desse prum "embedding"  aqui =/ ]
[Mas nesse site tem, ó]



[A começar pelo último, um estudo em vermelho pro monstro do espelho]




[Este mais ficou parecendo um cachorro =P ]
[Foi um dos primeiros que fiz]









[Este me veio durante uma aula muito chata sobre covering spaces/maps... ]
[A professora havia feito uma figura que era como uma espiral se projetando num círculo - como uma sombra]




quarta-feira, 7 de novembro de 2012

[312]



      Há dias em que cada pessoa que encontro, e, ainda mais, as pessoas habituais do meu convívio forçado e quotidiano, assumem aspectos de símbolos, e, ou isolados ou ligando-se, formam uma escrita poética ou oculta, descritiva em sombras da minha vida. O escritório torna-se-me uma página com palavras de gente; a rua é um livro; as palavras trocadas  com os usuais, os desabituais que encontro, são dizeres para que me falta o dicionário mas não de todo o entendimento. Falam, exprimem, porém não é de si que falam, nem a si que exprimem; são palavras, disse, e não mostram, deixam transparecer. Mas, na minha visão crepuscular, só vagamente distingo o que essas vidraças súbitas, reveladas na superfície das coisas, admitem do interior que velam e revelam. Entendo sem conhecimento, como um cego a quem falem de cores.

     Passando às vezes na rua, ouço trechos de conversas íntimas, e quase todas são da outra mulher, do outro homem, do rapaz da terceira ou da amante daquele. Levo comigo, só de ouvir estas sombras de discurso humano que é afinal o tudo em que se ocupam a maioria das vidas conscientes, um tédio de nojo, uma angústia de exílio entre aranhas e a consciência súbita do meu amarfanhamento entre  gente real; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão  que é a minha vida.

[Extraído no modo random de "O livro do desassossego", Fernando Pessoa]