segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Do outro lado da mesa.... ou quase

Foi na sexta-feira. O acaso e a falta de comida em casa me levaram aos restaurantes de sempre. Na verdade, levariam, pois acabei passando na frente de um outro no qual nunca havia almoçado e por lá fiquei para matar a fome.

 

Sentei, comi... o ambiente claro... uma familiaridade distante.. porque será? Logo me veio a lembrança da ultima vez em que ali fora: eu e ela ali sentados, assistindo um amigo tocar bateria num show. Olhava pra mesa com aquele casal, cheio de sonhos e perspectivas, sem saber que alguns amos mais tarde lá estaria eu, do outro lado do salão, quase do outro lado da mesa, os observando. Me senti como naquele conto do Borges, onde ele senta em um banco e, no extermo oposto dele, senta-se ele mesmo, só que mais velho. O que conversariam? Que conselhos o Borges mais velho daria ao Borges mais novo?

 

Fiquei me imaginando naquela situação. Atravessaria o salão para alertá-los dos perigos, para dizer que era melhor se adiantarem e se separarem ali mesmo, sem se prolongarem tanto? Chamaría os dois de canto pra dizer para tomarem cuidado, que o perigo morava logo ali, nos detalhes, nas palavras, no beijo negado, na atenção não compartilhada, nas palavras atravessadas, na falta de paciência e carinho?

 

Talvez ficasse só em silêncio mesmo, observando os dois caminharem para o destino que tiveram. Como numa profecia mitológica, onde nada que se tentasse prevenir o fatídico de uma previsão pudesse ser feito. Era pra ser, era pra ser...  

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Licking my wounds #10 - gratidão

Tentando me lembrar de ser mais grato pelas oportunidades que tive… mesmo as desperdiçadas.

Licking my wounds # 9 - insuficiente

 Uma amiga me disse no telefone esta semana: “- sério que tava assim, Rafa? … é… só amor não é suficiente…”

Me pareceu uma obviedade bem profunda. Fiquei pensando sobre a semana toda.

Licking my wounds #8 - Tia sereia

 Meu sobrinho veio conhecer minha nova casa neste final de semana.

Pula daqui.

Pular de lá.

Se joga no chão.

Se e  s  p  a  r  r   a  m  a no sofá.

No final, já cansado e colocando o tênis pra ir pra casa, ele vira com a voz bem triste e fala: “tio Rafa, cadê a tia sereia?” 

[ não falou sereia, mas o nome dela.]

Na hora eu fiquei meio sem saber o que dizer e achei graça… mas foi de cortar o coração.

domingo, 13 de julho de 2025

Licking my wounds #7 - flores, jardins e orquídeas

Passo na rua e converso com uma senhora jardineira que toma conta da pracinha. Conheço flores, variedades diversas do verde-roxo da folha que ora vem ao mundo de um jeito,’ora de outro. Penso na orquídea que hoje brota e marca um ponto baixo do relacionamento: uma amiga reativa me injuriando, pintando-me com cores que não mereço e posições que não sustento. Em suma, o cúmulo da ignorância e estupidez. Nos deu a flor que, por mais bela que seja, há de ser devolvida… me dói pensar nesse dia.


Volto pra casa, as milhares de caixas ainda fechadas, a parede ainda por receber demāos de tinta, tudo de pernas pro ar. A saúde, que parece debilitada e frágil, o possível princípio de pneumonia, as feridas na boca (preocupações?)… como pode, tanta vulnerabilidade, tanta fragilidade aflorando assim de repente? Pareço precisar de colo, de atenção… seria saudade? Seria a ausência?


Enquanto isso, as redes sociais acusam mais um vídeo de um final de semana feliz pós o fim. Evito assistir. Me pergunto se só eu tenho encarado e vivido esse fim, ou se é isso mesmo: todo dia a mais de rompimento é um grande dia, a ser celebrado com sol, fotos, sorrisos, tudo está bem, olha como estou feliz. Tento aceitar e ficar feliz em sabê-la bem… mas olho pra esse lado e penso que, agora, o melhor é nem olhar, ficar distante…. você quer bem, você deseja o bem, mas no momento você precisa se cuidar e somente isso. Ponto. 

A angústia, você pensa no quanto algumas palavras te machucaram, acusações de que a casa a dois não era uma casa a dois, a voz elevada ressaltando o esforço em mantermos uma vida junto e distante do trabalho dela (que logo após o término, soube, passou a procurar apartamento no mesmo bairro em que vivíamos!), as portas que foram batidas pra frisar a raiva, as humilhações públicas em filas de supermercado ou shoppings quando se tentava ajudar, a invocação da palavra da terapeu te “diagnosticando” dos quadros  mais disparatados possíveis…. tudo parece vir à tona, como uma tristeza-violência que fere,  uma memória de ferro em brasa que corta a carne e marca a alma à fundo. Você se pergunta o quanto amou pra deixar que as coisas chegassem onde chegaram, o quanto tentou e cedeu acreditando que o outro lado mudaria ou se abriria, cedendo aos seus esforços pra aplacar as diferenças abismais que se abriam entre os dois. Nessas horas todas as lembranças boas parecem evaporar da memória e só te sobra a dor, uma ferida aberta de ver o outro lado fingindo (ou não) que nada aconteceu, a aparente indiferença diante de tudo que você tentou e se esforçou para oferecer. Dói, dói, dói… e você não entende se tudo foi um engano, ou se você foi simplesmente ludibriado.

domingo, 6 de julho de 2025

sábado, 28 de junho de 2025

Licking my wounds #5

 Viver e andar sobre a terra com sentimentos tão contraditórios é como um martírio. Mais fácil seria odiar, ou só ter amor, ou só ter saudades, ou só sentir alívio. Mas não é nada disso. Ou pior, é tudo isso ao mesmo tempo. 


A razão tenta esconder o sentimento como uma peneira tenta esconder o sol. Daqui a alguns dias nenhum laço mais entre os dois lados existirá: o apartamento alugado junto, o sonho de que tudo desse certo, será devolvido. Como um cordão umbilical que se quebra e une dois seres, este se rompe e nos separa. Para nunca mais. Não sei o que sentir, não sei se sofro mais, não sei se respiro aliviado, não sei… tudo me dói ainda , assim como tudo me parece razoável e necessário. Não há mal maior que a ruptura, que por si só também é uma redenção. 


Paciência… devem vir dias melhores adiante, espero. 

domingo, 22 de junho de 2025

Licking my wounds #4 - It ain't me, babe

Go away from my window
Leave at your own chosen speed
I'm not the one you want, babe
I'm not the one you need
You say you're looking for someone
Who's never weak but always strong
To protect you and defend you
Whether you are right or wrong
Someone to open each and every door

But it ain't me, babe
No, no, no, it ain't me, babe
It ain't me you're looking for, babe

Bob Dylan, It ain't me, babe 

   

 

Parte do processo de "cicatrização" ao fim de um romance passa pela aceitação de que aquilo que se tinha não existe mais, de que não era pra ser ela, de que não era pra ser você. O luto pelo que se perdeu. Não sei muito bem como caracterizar isso, mas sei que minha cabeça fica esquisita nesses dias: um misto de solidão com uma sensação estranha, como se um balão esmagasse teu cérebro, não te deixando pensar direito.

 

Com a aceitação vem também várias coisas: a certeza de que não era pra ser, a certeza de que poderia ter sido, a certeza de que você está se contradizendo em diversas coisas que elabora, teorias sem pé nem cabeça para justificar algo sobre o qual não se tem controle nenhum: a vontade do outro. Acabou. C'est fini. Foi. Vaza. 

 

E assim tudo se desenrolou. Tem um mês e 4 dias já. Quanta coisa mudou de lá pra cá. Por dentro, ainda aquela saudade, dividida dentro de você com as dúvidas, com a sensação de injustiça, com a sensação de que havia um impeditivo mais profundo a tudo aquilo que gostaria de ter feito... estrutural: não há como mudar certas coisas ou pessoas. Você tenta ser paciente e aceitar... mas ainda é difícil.

 

 

sábado, 21 de junho de 2025

Licking my wounds #3

Hoje era pra ela ter estado lá, junto, ouvindo música junto e segurando minha mão: quentinha, me protegendo do ar condicionado. Às vezes ela faz falta e só pareço fazer sentido do término quando conto pra alguém como era. A razão escorre pelas palavras e justifica este como o melhor caminho. Por dentro… fica a lembrança da risada, das piadas, dos momentos de calma (que também existiam)…

Nesta semana a mudança de casa finalmente se fez. Ainda me é estranho imaginar uma casa só minha, algo que nem de perto imaginaria. Ainda fico com aquela sensação dela voltando pra casa, o final do dia, o acolhimento, as conversas… é uma lembrança tão misturada de sentimentos - bons e desconfortáveis- que nem tudo ainda faz sentido. Como fragmentos que se esforçam pra se juntar numa figura única, o passado ainda não me dá uma visão clara do que foi, nem daquilo que sinto agora, esse misto de alívio com saudade.

domingo, 15 de junho de 2025

Licking my wounds #2

 Uma mudança seria somente o deslocamento de móveis de uma residência localizada na rua A para outra na rua B não fosse ela causada pelo fim de um relacionamento.

Nadar por aqueles papéis picados, recibos, aquela garrafa de vinho nunca aberta ou aquele pacote da lembrancinha que vocês receberam num jantar de amigos da outra pessoa… lidar com cada uma dessas coisas é um doloroso processo que te faz se sentir um arqueólogo escavando um passado antigo e distante do que um dia já foi a vida a dois de um casal.

Aos poucos o passado parece ir sumindo de vista e indo parar no seu lugar, quer você aceite ou não: este vai pro saco preto, este pro azul. Sim, porque mesmo doendo se recicla (talvez seja a moral da estória rsrs).

Reciclar e ressignificar… será que é esse o caminho? Não sei, não encontrei um ainda. Ao menos não um firme o bastante pra poder fincar o pé. Sentir que o que se tem nas mãos é matéria que um dia fez sentido e agora já não é “nada”… areia que te escorre pelos dedos quanto mais você a aperta. E não adianta o quão forte você faz isso: quanto mais energia, mais rapidamente ela se esvai. A dor, por outro lado, pulsa: uma hora vem, uma hora se aplaca, noutra você se vê pensativo e chorando enquanto come sopa, noutra você se vê rindo diante de uma criança que te manda beijinhos no metrô.

Às vezes me parece indiferente me mudar se, no fim das contas, meu coração parece estagnado sem saber muito bem pra onde ir. Há duas semanas me parecia que tinha virado a página e aceitado. Aquele quadro vazio na parede mudou tudo. Foi a realidade batendo na porta? Difícil imaginar como conseguimos extrair sentimentos tão ambivalentes de coisas e pessoas. Como é possível sentirmos falta de algo que pode ao mesmo tempo nos fazer bem e mal? Como se pode amar alguém e ter receio de ficar perto daquela pessoa? É medo de doer, medo de ser rejeitado? Medo da falha que poderia vir (e veio)? A dor ainda pulsa, as dúvidas aparecem, brotam, crescem, evaporam mas estão sempre presentes. Mas não duvidas que elucidem algo (culpados, motivos), mas sim dúvidas existenciais: quem é você daqui em diante? E o Brasil, ainda faz sentido? Tanta questão, tanta mudança, tanta incerteza… melhor não rasgar esse recibo ainda.


sábado, 14 de junho de 2025

Licking my wounds

Acho que não tem expressão melhor que defina o momento: em silêncio, por mim mesmo, lambendo minhas feridas após uma era longa de muito esforço para que as coisas seguissem adiante. Como um cachorro ferido depois de um ataque, cujos únicos recursos são totalmente inapropriados mas um pequeno alívio diante de tanta dor: saliva e língua.

 Nunca acreditei em paz 100% do tempo, mas em face de qualquer dificuldade com alguém o que mais almejo são duas pessoas trabalhando em harmonia para resolver a questão. Claro, há dificuldades grandes, mas nem todas precisam ser um abismo. E o que fazer quando muitas são, mesmo as diminutas?

Diante de tantas mudanças, a crueldade injusta da influenza me prende em casa com as caixas que se empilham no corredor da cozinha pra sala como um corredor polonês de fatos de uma vida passada a dois que você quer que, por um segundo, não doa. Ontem, estava em casa fechando caixas, empacotando os quadros com plástico bolha... e pensando onde estava o erro.. onde havíamos falhado (?).. a casa aos poucos desaparecendo sob meus pés, as paredes com as marcas dos quadros que ali estavam e que se foram, as memórias impregnadas em todos os cantos, o espelho que ainda guarda o reflexo de tantas noites... uma música do Stevie Wonder fisgou aquele exato momento no headphone.... eu, puxava mais pedaço de fita, cortava, prendia, puxava mais plástico bolha, ouvia... caia uma lágrima, caia outra...

Nunca havia parado pra pensar que a letra não lamenta exatamente o amor-pessoa, mas também o amor-sentimento que se foi e a pessoa não sabia mais onde o encontrar. A partir daí perde-se incessantemente num labirinto em busca de explicações e possíveis culpados, um alívio, algo razoável que indique como tudo o que foi no começo deteriorou ao ponto final... as frases mais banais tem vem à memória - o deslocamento do trabalho pra casa, o alho que esqueceram de comprar na feira, as flores, as árvores.... E, no fim, não adianta.  Toda "lógica" de responsabilização cai por terra e teus sentimentos apontam o dedo pra outro culpado: você mesmo.

É embaraçoso olhar pra trás e sentir os momentos em que se foi injusto... e intercalar isso tudo com os momentos em que você pareceu tentar-tentar-tentar e nada, nada do que tentava parecia ser recebido positivamente. "- Cara.... é uma pessoa super legal e você realmente deve gostar demais dela, mas o preço que você está pagando por isso é muito, muito grande", disse um amigo. Será que esse vazio então é ausência da pessoa ou ego ferido? Talvez o tempo vá exacerbar minha sensação de culpa, mas espero, isso sim, que me redima dizendo que eu fui, tentei, mas esmoreci em ânimo diante das dificuldades. Nem toda montanha é pra ser escalada, às vezes devemos ser humildes e simplesmente voltar pra trás inteiros, íntegros. 

Mas dói. E está doendo ainda. Porque não deixei de gostar, mas deixei de acreditar em algo.... Que o outro lado estava aberto a ceder, a deixar ressentimentos antigos pra trás ou segurar na minha mão pra que juntos pudéssemos discutí-los, dividí-los e reduzirmos todos eles a nada, que é o que eram(?). O que impediu chegarmos a isso: por que nunca perguntei? Por que nunca insisti? Será que não? Dúvidas, perguntas, angústias.... nem mais sei, e nem faria tanta diferença saber, acho...

Vai ver era só incompatibilidade mesmo... ou talvez não haja por onde procurar culpados: simplesmente não era pra ser (?). Quando passar esse luto a gente pára e reflete tudo de novo pra fazer sentido das coisas. 

Se bem que, me parece que o único ser soberano que pode fazer sentido das coisas é o tempo.

 

sábado, 7 de junho de 2025

Trocando em miudos

"Mas fico com o disco do Pixinguiha sim... o resto é teu."
Chico Buarque, "Trocando em miúdos.
 
Voltei hoje, cheguei de viagem. Dias longe, que me pareceram um refúgio momentâneo diante de tantas mudanças. 
 
No caminho de volta a piada do motorista: "caramba... sagitariano com ascendente em aquário!". Confrontado pelo meu porquê, ouço "você vai ter um milhão de problemas pra se relacionar". Dito logo pra mim, discrente, cientificamente ouvindo tudo aquilo e não acreditando em nada, mas vendo o quanto fazia sentido "..porque você é uma alma livre, independente.." bla bla bla... parecia minha ex falando.. uma dissonância cognitiva gigantesca: o cérebro diz que não faz sentido, já os fatos recentes...
 
Será que foi isso que encheu a tarde de nuvens? Cheguei em casa... a marca do quadro que sumiu da parede, as caixas jogadas pelo chão da sala, a geladeira vazia me lembram de que tudo isso é presente, mas já é passado. Olho pra cozinha em silêncio, a porta da sala que não vai abrir para mais alguém chegando em casa... imagino que ela esteve aqui há quanto.... um dia? hoje cedo? ontem?!  Diante dos olhos me passa um filme no qual vejo tudo o que poderia ter sido, o que não foi, o que tentei, os sorrisos, as brigas, as possibilidades frustradas, as risadas, os pés quentinhos no inverno, as discussões por coisas diminutas. 
 
Me deparei com algumas fotos no celular; não deixo de observar um sorriso aqui, outro ali... me pergunto quando foi que realmente deixamos de sorrir um pro outro. 
 
Não apaguei nenhuma ainda, mas acho que deveria.


segunda-feira, 3 de junho de 2024

Areias do tempo

Há tempos não relato nada neste blog. Talvez seja porque os dias se sucedem como se fossem os mesmos? Ou os acontecimentos ao meu redor, que acontecem mas não capturam minha atenção? Será que ainda sei escrever? Me espressar, dizer o que sinto, narrar o que vejo e se passa?


Me é estranho ainda estar no Brasil. Minto. Um tipo diferente de... digamos, uma "estranheza familiar", se é que isso faz sentido. A parte que não me é estranha, mas sim nova, é lidar com sentimentos com os quais antes havia tido pouco  contato: ver a ação do tempo nas pessoas que amamos, reencontrar os parentes mais velhos e sentir a vitalidade se esvaindo deles bem aos poucos, como uma ampulheta que marca o tempo passando... grão em cima de grão, de maneira irreversível. 

Não deve ter nem uma semana que o pai de uma amiga próxima faleceu. Mal temos conseguido nos falar desde então: ela me diz que sente um vazio enorme por dentro, que não consegue sentir que tem algo interessante dentro de si pra trocar com o mundo. 

Até aqui não aconteceu, mas fico me perguntando o que vai ser quando alguém muito próximo a mim se for. A dor que ela relata, curiosamente, me parece uma dor minha, embora me esforce para não sofrer por antecipação, viver as coisas no seu devido tempo. Mas é difícil: a cada encontro com os pais, perceber uma nova dificuldade que aparece quando eles se locomovem, uma palavra que passou a ser difícil de ser pronunciada, ou outras palavras esquecidas e que fogem à memória.

Não adianta muito evitar, tentarmos nos esconder: o tempo chega, não adianta ficar dando bronca tentando fazer com que comam bem, ou que exercitem a memória fazendo sudoku. Nos resta aceitar que o tempo vai consumindo tudo, aos poucos, como uma areia leve que vai tomando casas de uma praia e as tornando de volta em duna. 

Dizem no budismo que a maior fonte do nosso sofrimento é nossa incapacidade de aceitarmos as coisas como são, o nosso apego às coisas, sem levarmos em conta que estas perecem. Reflexão e aprendizado... longo caminho.

 

domingo, 15 de outubro de 2023

A grama mais verde... que não é assim lá tão verde

 -Tem um monte de pão no congelador, viu? - eu disse, numa tentativa de dissuadí-la de comprar pães. Ainda assim, ela saiu da fila do caixa e falou alto:

"-Quem disse que é pra você? Vou levar pros meus pais."

"-Nossa...que ríspida!", retruquei, num tom de piada para não causar briga.

O rapaz à minha frente, testemunhando o diálogo, resolveu participar e me disse:

"-Eu virei gay justamente achando que isso deixaria de acontecer mas não: ainda é tudo igual"

"-Sério? Não adianta eu virar gay então pra me livrar dessas agressões diminutas mas constantes?"

"-Não... não adianta."

Uma lágrima cai dos meus olhos... esse mundo está perdido.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Um ano nos trópicos

É, pessoal... um ano nos trópicos. Um aninho desde que pisei novamente nessa terra.

Muita, mas muita coisa mudou desde então: profissionalmente, pessoalmente, em várias esferas. Difícil dizer se houve progresso, mas certamente eu mudei. 

Algumas notas e observações inesperadas:
  • Me surpreende que ao estar mais perto de algumas pessoas eu acabaria por falar menos com elas.
  • Lidar com família tem sido mais fácil do que imaginava. Lidar com amigos também.
  • Como um lado oposto de uma moeda - Brasil versus Japão - hoje meus dias de semana têm menos gente, enquanto finais de semana são mais cheios. 
  • Eu já imaginava que curtia trabalhar com mais pessoas e/ou em times. Aqui isso ficou ainda mais evidente. 
  • Talvez por conta disso meu apreço pelo silêncio e tempo sozinho ficou ainda maior.
  • Sim, acho que tenho alguma forma de hyperacusis.
  • Descobri que engenheiros dominam o mundo. Matemáticos que querem ser ouvidos devem fazer amizades com eles. 
  • Morar no Brasil é muito mais gostoso e fácil do que imaginava. Tem uma riqueza e simplicidade que não existe em outros lugares em que vivi. Talvez o único lugar que conheço que tenha isso - mas de uma outra forma, totalmente diferente - seja o Japão.  
  • Por outro lado, muita gente aqui acredita que o que vem de fora é sempre muito melhor (vira-latismo rules).
  • Crescer no Brasil é muito mais difícil do que imaginava e, quando acontece, se dá em circunstâncias muito mais adversas. Sendo assim, se você vê alguém que consegue crescer por seu próprio esforço aqui você pode tirar o chapéu: essa pessoa pegou muito mais touros pelo chifre do que qualquer primeiro mundista bem sucedido.
  • Jovens são muito mais engajados politicamente do que em qualquer outro lugar que já vivi (exceto talvez pela Alemanha).
  • Infelizmente, as pessoas parecem ter uma crença gigantesca em tudo aquilo que vem pelo celular. Sendo assim, uma reportagem num jornal de renome e uma mensagem no WhatsApp têm a mesma credibilidade pra muita gente. Há uma carência de referências enorme. Às vezes temo viver num mundo dominado por tiktokkers, influencers no instagram e celebridades religiosas ou sertanejas. 
  • Há muito mais pobreza do que imaginava dentre os que não têm nada. E muito mais riqueza do que imaginava dentre os que têm tudo.
Sei que várias vezes falei dessa nossa fase da vida como um capítulo novo a ser escrito. Ainda não me parece claro como ele começa, ou em que momento estou. Talvez seja por isso que tenho escrito tão pouco, atento que estou em desvendar os meandros dessa prosa que permeia o ar. Não sei, pareço entender tudo e logo perder o sentido das coisas, o que me dexa confuso. 

Há muito ainda por se desvendar e fazer. Muito ainda por se depreender e refletir sobre. 
Tipo de lucidez que nos visita aos poucos, sabe? Vai ver só preciso de paciência pra esperar.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Repete

 É curioso como relacionamentos implicam em repetições. Ou como, em relacionamentos distintos, a gente acaba ouvindo as mesmas reclamações, ou cometendo os mesmos erros de outrora. 

Será que, no fim das  contas, estamos fadados a sermos sempre os mesmos, carregando nossas falhas e misérias de relacionamento em relacionamento? 

Fiquei pensando sobre isso, até me lembrar de uma animação de uma cineasta que gosto muito (e que já visitou esse blog algumas vezes). 

Divirtam-se.


Michaela Pavlatova, Repete, 1994

segunda-feira, 20 de março de 2023

Paradoxos e incompletudes

Interessante dizerem que Brasil e Japão estão em extremos opostos do mundo. Certamente não é o caso. Em todo caso, fico pensando em como minha vida parece ter mudado da água pro vindo desde que vim de laá pra cá: dias com gente viraram dias sem gente, enquanto finais de semana - em geral vazios e silenciosos- passaram a ser dias agitados com gente em casa, amigos por perto e família mimando. 

Que diferença!!

Mesmo assim, tanto contato não é fácil. E aí mora o grande paradoxo de se ter as coisas: quando temos, parece em excesso; quando não temos, nos carece e dói na alma. Ter voltado tem sido uma grande lição. Uma ressocialização (que eu sempre insisti e dizer que todo doutorando deveria fazer! Independentemente da área!). 

Só sei que estar longe não é fácil. Estar perto é igualmente difícil. Mas tudo é questão de escolhas. Não é legal se viver sozinho. Diante dos atritos que tantos contatos geram, paro e penso no silêncio dos dias sozinhos na terra do sol nascente e no grande exercício que era me forçar fora do meu casulo para ganhar asas. Já aqui... parece tudo me dado na mão, mas mesmo assim... me parece ainda assim que me encontro perdido e incompleto.

Oque falta? Ou melhor: será que era pra ser isso mesmo e que, no fundo, nada me falta?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Queen of Hearts

 Há um trecho no Alice in Wonderland do qual sempre me lembro.

Ele me veio à cabeça hoje durante uma conversa. A empresa, como várias dessas tech companies pelo mundo, fez um lay-off massivo hoje. Minha cabeça foi poupada, mas a de alguns amigos não. 

Foi triste. Foi triste demais.

É algo horrível ter que ficar pra trás e estar no meio de um monte de gente que discute de maneira unilateral o que aconteceu com uma pessoa que não tem mais voz ali. Isso sem falarmos em casos em que a decisão não parece ter sido motivada por nada lógico: produtividade? Ou seria corte de verbas? Ou seria falta de alinhamento com alguma política imaginária da diretoria? Não sei... me pareceu uma grande arbitrariedade que, por natureza, amanhã pode nos atingir pelos mesmos motivos desconhecidos.

Um dia cheio, que correu a passos lentos, vagarosos e pesados. Ao fim do dia, o corpo sobrevive em cansaço, um pouco de medo, onde várias pessoas se olham assustadas e pensam: será que serei o próximo? 

Anos atrás, um amigo trabalhando numa empresa me relatou algo parecido. Disse-me então que vários colegas nem puderam entrar mais na empresa, que suas mesas foram limpas e suas coisas entregues a eles. E que, neste dia, ele chegou em casa tão cansado que nem acendeu as luzes de casa: foi direto pro sofá dormir. 

À época - ainda na mini apple - eu ficava me perguntando oque seria aquilo e me via tão, mas tão distante daquele mundo. Hoje, pareço ter os dois pés nele. No caso, diferentemente do meu amigo, minha casa é meu escritório, e não tive um sofá pro qual chegar: suportei essa notícia aqui mesmo, embora quisesse tê-la deixado do lado de fora dessas paredes. 

Infelizmente, não deu. As paredes, maculadas, agora parecem sujas dessa realidade que não consigo mais deixar de ver: sei que está ali, e que oque antes era desconforto agora virou uma quebra de confiança. Quem consegue ter voz num ambiente onde se tem medo? 

"Off with their heads".

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Dois pra frente, dois pra trás...

Às vezes acho que já me adaptei, que já me misturo aos meus arredores como um camaleão, inotável. Como um papel de parede, lá vou eu, brasileiro até a alma seguindo pela cidade.

Cidade que me assusta, me surpreende. 

Não sei se há um brasileiro médio. O típico comportamento brasileiro do qual outros brasileiros gostam de falar e criticar. Mas sei o seguinte: que o brasileiro que irrita tem o poder de irritar mesmo. 

Por exemplo: é muito comum encontrar pessoas que ouvem celular alto no metrô. Ou que não tem o menor pudor em deixar o celular com aqueles barulhinhos horríveis, sem o menor respeito pelo espaço auditivo do outro.

É algo tipicamente tupiniquim? Definitivamente não: já vi isso na China, na França, nos EUA. Agora... no Brasil isso ocorre bastante também. 

E isso faz daqui pior? 

Não, não faz. Por outro lado, gera um desconforto estranho, uma desolação que me abate quando presencio essas coisas e penso que pouts, nem em 100 anos esse país vai conseguir vencer essas coisas, dar educação pra todos seus cidadãos, imbuir de bom senso e civilidade a maior parte da população que aqui vive.

Claro, pareço estar sendo dramático ao falar só de um celular barulhento. Antes fosse só isso: o Brasil mostra seu subdesenvolvimento em diversas facetas. Pra piorar, mostra o quão desenvolvido é também em diversas outras coisas.

E aí, nesse turbilhão de contradições, eu não sei mais oque pensar. Pareço viver num grande páis desenvolvido-em-subdesenvolvimento, um oxímoro que só quem pisou nesta terra pode entender. Ou melhor: muitas vezes nem entende (como eu), mas testemunha. 

Um bagunça... uma confusão... ainda estou por entender, mas acho que nunca vou fazer sentido desse país.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Chocolatinho

Eu ainda me lembro do dia em que, logo após voltar ao Brasil, estava num Uber indo pra sei lá onde e tocava no rádio uma música... "-cacete...que país inacreditávelmente doido...", pensei comigo mesmo. No caso, tratava-se de uma música onde o cantor era um homem com evidente sobrepeso, cantando chocolate, chocolate, eu só quero chocolate.... realmente... as pessoas não prestam atenção no que ouvem.... Por um minuto fiquei imaginando aquele homem rechonchudinho cantando na TV nos anos 80-90, falando sobre chocolate, as pessoas aplaudindo, a inflação lá no alto etc etc.

[Vai,  Brasil!!]

Mas porque falo dessa lembrança? Por que ela me remete a uma outra, mais recente e também cheia de açúcar: conversava com um amigo numa mesa de bar, logo após o trabalho. Meu amigo abria o coração me dizendo como não consegue resistir a panetones e chocolates. "-Os compro pra durarem uma semana e, num piscar de olhos, os mesmos desaparecem na mesma tarde que são abertos." "-Cara... te entendo.. não sou muito diferente", disse a ele. Momento fofo de terapia profunda: dois homens brancos, héteros, mostrando toda sua vulnerabilidade e dificuldades para se conterem diante de iguarias adocicadas, panetones etc.

(Mesa 37) auto-controle per capita == 0.

Aí, no meio desse papo de trabalho, vida de adulto, ascenção na carreira etc, me lembrei de uma coisa engraçada: "-cara... você sabia que há vários experimentos que fizeram acompanhando pessoas durante uma vida; em vários deles dividem pessoas em grupos com comportamentos distintos com relação a uma variável X (como um grupo controle e outro experimental, apesar de ser um experimento observacional). "

Aí continuei, explicando que os experimentadores tentam ver oque os dois grupos têm de diferente e igual, apesar daquela variável  X diferir. "Há um desses experimentos que é muito interessante: os experimentadores davam um doce (chocolate?) pra crianças e diziam pras mesmas 
'se eu voltar daqui a 10 minutos e você ainda tiver esse chocolate, você vai ganhar um segundo chocolate'. 
À partir dali a população estudada se dividia em duas: o grupo dos que resistiam e não comiam a iguaria; e o outro grupo, dos afoitos que comiam tudo e não recebiam."

"-A parte curiosa desse experimento é a seguinte:", disse pro meu amigo, "-As pessoas do grupo que espera pelo segundo chocolate - evidentemente o grupo do qual não faríamos parte -  sao aquelas que, anos após o experimento, viram CEOs de empresas multibilionárias, ganharam prêmios disso e aquilo, viram grandes inventores ou empreendedores. Já o outro grupo - no qual suspeito que a gente cairia - são aquelas pessoas que se casam 3 vezes, levam uma vida instável, pulam de emprego em emprego, têm uma taxa de mortalidade milhares de vezes maior que a do grupo anterior." Aí os dois começamos a rir meio sem graça, meio que em desespero. Oque será que o futuro nos guarda de surpresas? 

Agora que penso nessa conversa eu fico me perguntando o quão desesperador é tudo isso: se imaginar dentro de uma vida à qual você não quer pertencer. Ou uma existência em que se tem a plena consciência de ter tantos fatores contra ela mesma que cada vitória é e deve ser celebrada como se fossem 10... com muita festa, gratificação... (e chocolates, claro!)

No fundo, sou um besta em pensar isso: nenhum chocolate vai ser tão gostoso como antes se eu continuar tirando reflexões inúteis como esta de cada mordida que der nesses doces. Vai ver, isso sim, quem tava certo era aquele cantor gordinho cantando serelepe e feliz sobre chocolate e a felicidade que o mesmo nos trás.